Três dias depois
O céu noturno caía sobre a mansão Arbane como um manto pesado. Apenas a luz das luminárias internas iluminava parcialmente os corredores, e cada sombra parecia esconder uma ameaça iminente. No quarto de Luena, o abajur era a única fonte de luz que a ajudava a ver o mapa da mansão que estava aberto em sua mesa de estudos. Com canetas coloridas ela circulava o corredor oeste, lado contrário do banker. Vários pontos naquela região mostrava a alta concentração de criminosos.
Há quanto tempo que ela estava concentrada só planejando ser uma i****a e soar o mais natural possível ao esbarrar em Noir novamente? Já podia sentir uma dor latejante atrás dos olhos, e uma tontura que borrava a sua percepção.
— Calma… Talvez eu só esteja ansiosa — murmurou para si mesma, pressionando a sua testa.
Cada passo era pensado, cada desvio do caminho planejado, e ainda assim a dor insistia em atrapalhar a coordenação. Seus dedos tremiam, os músculos tensos, mas a mente buscava enxergar o que os olhos não conseguiam acompanhar.
— Se eu parecer desesperada demais, os guardas vão tentar me proteger… e isso vai me atrasar. Melhor parecer perdida, assustada, só que no caminho certo — murmurou novamente, calculando mentalmente cada corredor e cada porta, cada possível ponto de encontro com Noir — Ele sempre aparece no corredor oeste. Então devo me aproximar por outro caminho, sem parecer que sei para onde estou indo.
Ignorando a dor, Luena forçou-se a estudar o mapa da mansão até ouvir os ecos dos tiros, seguido dos gritos e o estampido de janelas sendo quebradas. O caos já se instalara.
O seu coração acelerou dentro do peito, lembrando-se do quão assustada tinha ficado na primeira vez que vivenciou a invasão. O pânico de ter sua vida em risco, a sensação de estar perdida, seus pés doendo de tanto correr até o banker. Mesmo depois de ter vivenciado por três vidas o mesmo ataque, o seu corpo ainda se assustava com o perigo.
Respirando fundo, Luena tentou trazer a calma de volta. Os criminosos estavam fazendo uma verdadeira invasão, suas presenças precisavam ser notadas e temidas.
— Os guardas chegarão logo, então eu— ah!!!
Luena apoiou-se em sua mesa de estudos quando uma forte pontada em sua cabeça turvou a sua visão. A sensação de mãos invisíveis apertando sua cabeça a sufocou repentinamente.
As portas se abriram com estrondo e dois seguranças entraram apressados, armas em punho.
— Senhorita Arbane, precisamos levá-la imediatamente! — disse um deles, tentando soar firme.
Luena respirou fundo, rapidamente levantando-se da cadeira em um rompante.
— O que houve? Por que tanta comoção?! — ofegou ela, tentando soar o mais ignorante possível.
— Não é hora de perguntas, vamos senhorita!
Ela deixou que a puxassem pelo braço. O coração batia acelerado, mas sua mente estava lúcida demais para ser apenas medo. Tropeçando sobre os próprios pés, Luena corria tentando manter o ritmo dos guardas e lembrar dos eventos daquela noite.
Enquanto atravessavam corredores mergulhados em sombras e correria, Luena percebeu o trajeto que faziam: estavam levando-a ao cofre subterrâneo, o ponto mais seguro da mansão. Claro que eles a levariam até lá, foi onde ficou escondida na primeira e na segunda vida.
Mas segurança não era o que ela queria. Não hoje.
Mesmo cambaleando por causa da pressão nos olhos e da confusão que tentava se infiltrar, Luena seguiu com passos medidos, misturando cautela e fingimento. A dor latejante em sua têmpora a lembrava de que não podia vacilar nem um instante. Cada movimento precisava parecer natural, mas cada respiração era uma batalha contra o desconforto que teimava em tomar conta de seu corpo.
As janelas eram quebradas quando os bandidos jogavam objetos para forçar sua entrada. Os guardas erguiam e apontavam suas armas, atirando. Um dos seguranças puxou os ombros de Luena e a protegeu com o seu corpo, ao mesmo tempo que a guiava naquele caos.
— d***a! Eles não param de surgir!! — xingou um dos guardas, escondendo-se atrás de um armário para recarregar sua arma.
— Mantenham suas posições! Tentem limpar a área e façam uma inspeção para certificar que não há mais ninguém por perto! — ordenava outro ao pisar sobre um dos bandidos mortos.
Luena olhou sobre o ombro. Os bandidos não tinham um uniforme, mas usavam roupas escuras para se camuflar nas sombras. Eram organizados e pareciam estar em um grupo grande. Focando em correr junto com o segurança, Luena ofegou quando o seu tornozelo foi segurado.
Ela caiu no chão de imediato. O seu segurança reagiu rápido, atirando na mão do bandido que urrou de dor.
— Levante-se senhorita!!
Tonta, Luena levantou mesmo com a pontada em seu tornozelo. Precisou se apoiar no braço do segurança para correr. Só pelo som ela sabia que estavam sendo perseguidos, e não era por poucos bandidos.
Eles eram tão numerosos assim em sua vida passada? A sua mente estava ficando confusa tentando assimilar as informações.
As lâmpadas eram quebradas por tiros. Os bandidos agiam coordenadamente para confundir os seguranças da mansão Arbane. Não apenas escolheram a noite ideal para atacar, como também pareciam conhecer bem a planta da casa.
— Liberem o caminho para o banker! — o segurança murmurou em seu comunicador, puxando o braço de Luena para seguirem até a ala leste. — Estou com ela, e estamos sendo seguidos. Preciso de reforços!
O som estático do outro lado do comunicador só aumentou a ansiedade do segurança. Ao virarem um dos corredores, eles trombaram na parede a tempo quando viram mais um grupo de bandidos dominando a area.
Rapidamente o segurança puxou Luena para trás de si, e os dois se agacharam para não serem vistos.
— m***a!
Luena mordeu o lábio olhando por cima do ombro. Não demoraria para que quem os seguisse finalmente os encontrassem. Por causa do seu tornozelo e a dor de cabeça, Luena também não estava correndo o mais rápido que deveria. Significa que a sua chance chegou.
Podia sentir a presença dele naquela mansão, como se esperando o momento do ator principal adentrar no palco. Um sorriso ansioso surgiu em seus lábios quando o som de tiros e a gritaria aumentou na encruzilhada dos corredores. Era fácil confundir a origem do som, o que lhe deu a chance perfeita.
— Vamos pelo oeste, podemos dar a volta e despistá-los.
Ela não esperou por uma resposta, apenas puxou o segurança com ela para o lado oposto.
— Estaríamos indo para longe do banker!! — grunhiu ele tentando impedi-la.
Mas antes que Luena respondesse, as risadas ecoaram pelos corredores.
— Lá está ela!!! Peguem-na!!!
Os bandidos se viraram na direção de Luena e do segurança. O grito sufocou em sua garganta, e novamente ela obrigou-se a correr desesperadamente pelos corredores. A pontada atrás dos olhos fez com que seu corpo vacilasse, a visão ficando turva e borrões se mesclavam. Cenários diferentes se sobrepunham diante dela, espaços vazios tinham criados e seguranças mortos, paredes adornadas com as obras de artes tinham suas telas sujas de sangue e corpos caídos no chão.
Cenários daquela mesma situação em suas outras vidas, se sobrepunham causando dor e confusão em Luena.
O instinto de sobrevivência foi mais incisivo que sua razão, e por um instante ela deixou-se ser guiada novamente pelo segurança. Isso se seu corpo a obedecesse, sendo fácil dela cair no chão com força quando a fadiga lhe abraçou, dando tempo dos bandidos a puxarem pelos cabelos e a arrastarem mantendo-a como refém contra o avanço da equipe de segurança.
— Fiquem parados ou mato ela!!!
Os seguranças hesitaram no mesmo instante, apontando suas armas e intercalando entre a refém e o sequestrador. A situação não era nem um pouco boa.
— Solte-a imediatamente ou atiro em você!
A ameaça do segurança não surtiu efeito. Mesmo dando um tiro próximo ao pé do mercenário, a faca foi apontada para o pescoço de Luena e fez um pequeno corte. Uma ameaça direta de que nenhuma das partes parecia disposta a aceitar.
— Mais uma gracinha e acabo com a princesinha — riu o mercenário, agora mais empenhado em suas ameaças. Luena não se debateu, mas ele a segurou com força como se estivesse. Outro bandido aproximou-se também apontando o revólver para a barriga de Luena, mas ele parecia se inclinar para dizer algo para seu comparsa. — O que é? O que que foi?
— Parece que tem alguém ajudando os Arbane…
— O quê?!
No instante em que o sequestrador ficou aturdido com a informação, o som de tiros ecoou pelo corredor. Luena encolheu os ombros, caindo no chão livre do aperto quando o bandido que a segurava caiu no chão sem vida. Os seguranças Arbane se amontoaram na ponta do corredor, aterrorizados com a figura que caminhava pela escuridão até pisar em cima do cadáver.
Antes que o segundo bandido fizesse algo, a figura sombria atirou novamente o imobilizando.
Luena cobriu o ferimento do pescoço com a mão, trêmula, ela ergueu a cabeça para observar aquela silhueta se aproximando lentamente com uma mão no bolso. Ao parar debaixo da lâmpada fraca, ela reconheceu aqueles cabelos brancos e olhos vermelhos.
— Você…
O rapaz segurou o seu pescoço com a mão livre, a erguendo do chão. O aperto em volta de sua garganta piorava a dor sentida, e o ar m*l entrava em seus pulmões. Luena se debateu, arranhando a mão dele tentando ganhar a sua liberdade.
O que ele estava fazendo agora?! Não era para ser assim.
Em meio a borrões, Luena se deparou com o olhar frio e distante daquele homem. Algo que jamais imaginaria ver sendo direcionado a ela antes. Não quando aquele homem era tão bom em fingir.
— Me… cough… solta… — grunhiu Luena, puxando o pulso dele à força, mas sem sucesso.
Os dedos do homem se apertaram ainda mais em seu pescoço, deixando o tom avermelhado cobrir o seu rosto.
— É um grande atrevimento o seu fingir não saber quem sou.
A sua voz profunda e rouca lhe causou diferentes sensações, dentre elas o seu sangue gelou. O que ele quis dizer com isso?! Por acaso ela não teria sido a única a regredir?
Independente de qual fosse a resposta, era difícil pensar quando estava sendo sufocada.
— Me… solte…
— Solte-a agora mesmo!! — um grupo de seguranças apontaram suas armas para o sujeito.
O rapaz inclinou a cabeça, observando pelo canto dos olhos o esquadrão Arbane se reunir e apontar suas armas para ele.
— Parece que estão me confundindo com mercenário. Ou será que todo o clã Arbane é i****a o suficiente para testar a minha paciência?