Luena tateou sua trêmula mão até alcançar a gola da blusa daquele homem. A força se dissipava em seu corpo, completamente inútil enquanto ele a agarrava de tal forma. Ainda assim, obrigou-se a segurar firmemente o tecido de sua roupa e puxá-lo.
— C-Como ousa… segurar a filha Arbane…
Aqueles olhos flamejantes brilharam intensamente com suas palavras, como se pudesse avaliar a sinceridade de suas palavras. Ou a sua arrogância. O sorriso divertido despontou de seus lábios, mas ele a soltou a fazendo cair sentada no chão.
— A filha Arbane? É de conhecimento geral que aquele homem só tem um herdeiro.
Tossindo, Luena acariciou o seu pescoço ainda sentindo a pressão do aperto, apesar de estar livre. Não era assim que deveriam se encontrar. Pelo contrário, deveria estar apenas se livrando dos bandidos e se certificando de que o próprio pessoal invertesse a situação a favor dos Arbane. Então ele ficaria intrigado ao vê-la, mas não a tocaria.
Por que ele tentou sufocá-la?
O homem inclinou-se na direção dela, com uma expressão séria e fria, deixando todos tensos com sua suspeita. Luena se viu recuando para trás, e se repreendendo logo em seguida por sugerir culpa. Ele abriu um sorriso como se sua resposta fosse adorável.
— Ou será que está apenas mentindo para conseguir se safar?
Um dos seguranças surgiu acompanhando Ecloir, arranhões e roupas rasgadas eram provas dos obstáculos que enfrentou em seu caminho até encontrar Luena. Ao se deparar com um homem inclinando-se sobre Luena, tal qual um predator abusado, Ecloir não tardou em ralhar.
— Quem é você e o que está fazendo perto da jovem senhorita?!
Luena estremeceu ao ouvir a voz irritada de Ecloir. No final do corredor servos da mansão iluminavam em volta com velas e lanternas, atendendo aos feridos. Entre eles, Ecloir se aproximou segurando firme o pulso de Luena e a puxando para fazê-la ficar de pé. Escondendo-a atrás de si, Ecloir ergueu a lanterna e iluminou o rosto do rapaz de cabelos brancos.
— Parece que não me reconhece, Barão Florian — murmurou ele franzindo a testa irritado.
Aqueles que estavam por perto suspiraram forte e curvaram a cabeça. A mão que segurava a lanterna tremeu levemente, e Ecloir rapidamente curvou a cabeça junto aos demais.
— Vossa Alteza, o Primeiro Príncipe! — Ecloir baixou a cabeça, mas espiou pelo cantos dos olhos Luena permanecer parada. Ele rapidamente puxou o seu pulso a puxando para o seu lado e segurou sua cabeça para forçar uma reverência — Nos perdoe por não reconhecê-lo.
Todos em volta fizeram uma reverência, sendo dispensados com uma mera mensura de cabeça do príncipe. Ele voltava à sua postura séria e despreocupada, não se importando com o real respeito deles.
— Está tudo bem, já que era a minha intenção não ser percebido — o rapaz olhou em volta, erguendo a mão permitindo que os servos continuassem a levar os feridos para o devido tratamento e ouvindo algo do seu comunicador — Estou chocado em ver o famoso batalhão Arbane parecer tão fraco perante um inimigo. Mas já sei que os meus homens cuidaram disso para vocês.
— A Sua Graça não se encontra na mansão no momento. Ele foi até a fronteira receber o Segundo Príncipe. Por isso, a maior força do batalhão não se encontra aqui.
O príncipe encarou Ecloir silenciosamente. A forma como ele respondia suas perguntas com precisão, mas mantinha a mulher curvada eram intrigantes.
— E essa mulher?
Luena estremeceu levemente, o aperto em seu pulso ficou mais estreito a fazendo hesitar. Demorou meros segundos para que criasse coragem e retribuísse o olhar. A intensidade da atenção de Noir a deixou paralisada novamente.
Ele não parecia usar a máscara da gentileza como antes, e isso a desestabilizou. Luena estava confusa demais para encontrar um rumo novamente.
— E-Eu…
— N-Ninguém importante, Alteza. Apenas a minha companheira.
Que besteira era aquela? Luena olhou horrorizada para o Barão, que a puxou mais para trás de si. Queria escondê-la a todo custo, mas apenas levantou ainda mais as suspeitas do príncipe.
Noir cruzou os braços em seu peitoral, sua expressão ficando cada vez mais fria e analítica.
— Não me lembro de você ser casado, Barão Florian.
— I-Isso é porque… é um noivado ainda — Ecloir esforçou-se em dizer, mostrando um sorriso nervoso.
— Tampouco me lembro de ter ouvido falar sobre o seu noivado no Palácio Imperial — Noir o contradisse imediatamente, os olhos estreitando ameaçadoramente — Ou por acaso pretendia se casar sem a permissão do Imperador?
Ecloir estremeceu covardemente, soltando o pulso de Luena e se apressando para parecer inocente.
— De maneira alguma, Alteza!! A-Ainda preciso conversa sobre o assunto com o Grão-duque e—
Imediatamente Ecloir cobriu a boca, ficando pálido.
Misericórdia, como tal homem poderia ser o seu tutor se ele era tão covarde perante o príncipe? Luena queria suspirar de pena. Porém, ela observou a reação do príncipe, que inclinou a cabeça e ergueu a sobrancelha em curiosidade.
— Do Grão-duque? E por que precisaria da permissão dele? Por acaso ele pensa que é o governante do Império para dizer com quem deve ou não se casar? Se for o caso, parece que preciso ter uma conversa com ele.
Noir deu as costas, prestes a ir embora, mas Ecloir rapidamente se colocou no seu caminho, tremendo em desespero de piorar o m*l entendido.
— Por favor, Alteza! Me perdoe!!! Eu cometi um erro grave. N-Não há necessidade de irmos tão longe…
A tensão só piorava e Luena já estava cansada de esperar. No final das contas Ecloir só acabaria tendo problemas, e Noir "descobriria" sobre ela de qualquer forma.
Considerando o que sabia sobre ele, Noir somente agia depois de ter plena certeza das informações em mãos. Nunca tomaria um passo arriscando algo. Independente dele parecer tê-la reconhecido de vidas passadas segundos atrás, ou de suspeitar dela ao ponto de sufocá-la, Luena apostaria que aquele príncipe estava apenas jogando um jogo mental consigo para avaliá-la.
E Luena faria o mesmo.
Mesmo com o seu tornozelo doendo, e todo o caos dentro de sua cabeça, Luena deu um passo a diante e se curvou respeitosamente. Dessa vez, demonstrando-se mais segura.
— Perdoe a nossa falha em recebê-lo apropriadamente, Vossa Alteza. Não culpe o Barão Florian por mentir para você, ele está apenas cumprindo ordens do meu pai.
O príncipe a observou por cima do ombro, impassível.
— Não acha que já deveria ter se apresentado? Você apenas disse ser uma filha Arbane, mas pode muito bem ser apenas de uma família colateral ou algo do tipo.
— Me chamo Luena Arbane, sou filha do Grão-duque.
A cor sumiu do rosto de Ecloir, e de todos que serviam o Grão-duque e que estavam presentes naquele corredor. O segredo fora revelado, e certamente todos tomariam tal decisão como tolice de uma jovem. Mas Luena só estava confirmando suas suspeitas.
— Uma filha… está me dizendo que o Grão-duque tem uma filha esse tempo todo?
— Adotiva!! — Ecloir apressou-se em corrigir, voltando a ficar na frente de Luena — Assim como o jovem mestre Khalid, é uma garota que está sob a tutela do Grão-duque, mas que ainda está em processo de aprendizagem. Assim que terminar o período de provação dos Arbane, a Sua Graça pretendia levá-la até a capital.
A desculpa era completamente esfarrapada, ainda que plausível. O olhar de Noir intercalou entre Luena e Ecloir, avaliando suas reações em um silêncio perturbador. Por fim, ele deu de ombros.
— Que seja. Irei esperar pelo retorno do Grão-duque Arbane. Considerando o fiasco que foi a segurança nessa mansão ao ponto de permitir que um ataque ocorra, posso emprestar a minha própria equipe para evitar qualquer rato sujo de se aproximar.
Aproveitando a chance que ele estava lhe dando, Luena abriu um sorriso cortês. A compostura era a melhor chave para a descrença, o que foi devidamente comprovado pela expressão surpresa de Ecloir ao ouvir a sua resposta.
— Se não se incomodar com a bagunça, posso atendê-lo pessoalmente.
Noir a olhou com suspeita, os olhos felinos se estreitando ligeiramente ainda a avaliando. Luena inclinou a cabeça levemente, expondo a ferida em seu pescoço e a provável tez vermelha causada por ele. Se pudesse despertar um pouco de culpa naquele homem, já seria uma vitória.
No entanto, o príncipe limitou-se a sorrir com arrogância.
— Não será nenhum incômodo. Estou acostumado com o caos.
Engolindo uma risada cética, Luena apenas concordou com a cabeça e virou-se para os criados mais próximos. Eles espalhavam velas pelos corredores e atendiam os feridos junto dos seguranças. Erguendo a mão, Luena tentou chamar a atenção de uma mulher, que passou por si a ignorando. Impaciente, Luena segurou o seu pulso com firmeza e a puxou o suficiente para que a olhasse nos olhos.
— Preparem o quarto de hóspedes para a Sua Alteza. Peça que o chef prepare uma refeição apropriada também para os seguranças do príncipe, e… — Luena espiou o príncipe pelo canto dos olhos, mas ele apenas observava com uma expressão séria — E designem os melhores criados para atendê-lo.
Os criados trocaram olhares hesitantes ao receber as ordens, mas sob a presença impotente do príncipe, não ousaram questionar. Apenas curvaram-se e desapareceram rapidamente dentro da mansão. Provavelmente agora iriam ter uma discussão feroz para decidir quem atenderia suas necessidade, apesar da maioria deles serem necessários para cuidar dos problemas causados pela invasão.
Ah… que confusão.
— Jovem senhorita, você deveria cuidar da sua ferida e… ir descansar — Ecloir a puxou discretamente, virando-se para arregalar os olhos em uma ameaça silenciosa — Pode deixar que eu recebo a Sua Alteza.
— Por que você faria isso? Por acaso carrega o sobrenome Arbane, e eu não estou sabendo? — Luena inclinou a cabeça, se satisfazendo na raiva e frustração de seu tutor por ser envergonhado na frente de um m****o real. Mas Luena sorriu docemente, tocando a sua mão com gentileza — Bem, acredito que não seja apropriado uma mulher solteira acompanhar um homem sozinha. Como esperado, meu tutor é bem… cavaleiro.
A sobrancelha de Ecloir tremeu, mas seus dedos ficaram quentes ao toque gentil da mulher. Ecloir deu uma espiada na reação do príncipe, que cruzou os braços e esperava pacientemente para ser atendido. Engolindo em seco, ele concordou com a cabeça.
— É… É claro, senhorita. Só irei acompanhar a Sua Alteza até o quarto de hóspedes. Todos merecem um descanso, certo?
Bastardo mentiroso. Luena soltou um riso gracioso e afastou sua mão da dele.
Ecloir era um homem ambicioso que sempre visionou Luena para conseguir mais poder. Ficar de bem com o príncipe era apenas um caminho que caiu do céu. Claro que ele aproveitaria a chance, mas para isso Luena não deveria ficar no seu caminho.
Poderia usar uma postura arrogante e colocá-lo em seu devido lugar, mas Luena já havia feito o que era necessário. Mostrar que ela existia. Conhecendo Noir como ela conhecia, não precisaria de muito para que seus planos continuassem.
Além disso, precisava dormir. As dores que sentiu antes a deixaram tonta.
Curvando-se respeitosamente para o príncipe, Luena despediu-se silenciosamente, e se retirou do corredor acompanhada de um dos seguranças.
— Cuidado com o seu pescoço, senhorita. — ela ouvi-o dizer, a fazendo congelar no lugar. Olhando sobre o ombro, percebeu o brilho intenso no olhar de Noir — E espero que não tenha uma próxima vez.