Capítulo 08

1772 Palavras
Sentada numa cadeira, Luena assistia uma enfermeira tratar a sua ferida no pescoço e um funcionário concertar a lâmpada do seu quarto. Ainda podia ouvir os passos agitados do lado de fora do seu quarto, onde provavelmente os criados e os seguranças se esforçavam para atender os feridos e prender os invasores. Tudo mergulhado em um caos a qual Luena já esperava. Ainda assim, nem tudo saiu como planejado. — Sua Graça não irá gostar nem um pouco de saber que esse cara está aqui — reclamava Ecloir, digitando uma mensagem em seu celular. Fazia poucos minutos que ele veio verificar Luena, após se certificar de que o Primeiro Príncipe se acomodou no quarto de hóspedes. O cabelo desgrenhado do homem era um mero resultado do quão agitado ele se encontrava, tentando manter a ordem na mansão durante a ausência do seu mestre. Não que Luena se importasse. Ela ainda digeria a frieza daqueles olhos quando se reencontraram. — Evite falar tais coisas enquanto ele estiver hospedado aqui. Pode ser que algum pessoal dele escute e acabe fofocando — advertiu Luena, verificando no espelho a faixa ao redor do seu pescoço — Além disso, trata-se de um m****o da realeza. — O mais infame deles, se é o que há para ser dito a seu respeito. — Ecloir resmungou, terminando de enviar uma mensagem para o secretário do Grão-duque — A única boa notícia que escuto dele é sobre sua aparência. De resto, não é diferente dos caras que se atreveram a invadir esse lugar. O fato do ataque ter ocorrido e ele, coincidentemente, estar por perto para nos ajudar é muito suspeito. Luena revirou os olhos e tomou um comprimido para amenizar as dores musculares. Apesar de não interagir na conversa até então, ela não pode deixar de alfinetar o seu tutor. — Pode dizer isso quando, há pouco tempo, você pareceu contente por servi-lo como um mero guia? O olhar de Ecloir enrijeceu sombriamente para Luena, que apenas o ignorou e bebeu água. — Posso não confiar nele, mas isso não significa que eu vá ser grosseiro com alguém da realeza. Isso poderia manchar a reputação de Sua Graça. — Ecloir dispensou a enfermeira, que rapidamente foi chamada para atender algum ferido. Sozinhos, Ecloir virou-se para Luena e segurou o seu queixo a obrigando a encará-lo — E isso deve ser aplicado a você também. Nem pense em ofendê-lo com a sua presença. Como se entregasse uma ordem, Ecloir deixou o quarto. Somente estando sozinha é que Luena permitiu-se relaxar os ombros. Tocando o próprio pescoço com a ponta do indicador, Luena não conseguia disfarçar a confusão. Ele a agarrou pelo pescoço como se pronto para matá-la. Se não tivesse revelado a sua própria identidade, teria sido ele capaz de continuar esganando-a? Por qual motivo? Levantando-se da cadeira, Luena voltou para a cama onde se deitou. Independente do que tinha acontecido, ela ainda poderia ter uma chance. Os seus olhos pesaram quando o remédio fez efeito. Não percebera o momento em que caiu no sono, já que tinha sua mente estava ocupada demais com tantos pensamentos. Seu sono pareceu durar meros minutos, despertando quando teve a sensação de seu corpo batia contra algo. Atordoada, ela abriu os olhos, encontrando uma superfície familiar, porém diferente de sua cama macia. Girando a cabeça, ela percebia um par de sapatos lustrados a poucos metros de distância dela. A tontura a impedia de compreender a situação completamente. A voz atrás dos sapatos era calma como vidro frio batendo uns contra os outros. — Fico me perguntando o que o Grão-duque tem de tão interessante para manter alguém assim escondido em seu território. Ela reconheceu o timbre antes de ver o rosto. O príncipe estava recostado numa poltrona, o corpo desenhado em sombras, as mãos juntas como se controlasse uma máquina. Ao lado dele, um dos auxiliares — jovem, desinteressado — observava com impassividade. O quarto, que ainda devia cheirar a pomada e a curativos, parecia agora o palco de um experimento. Aquela voz a despertou do seu torpor. Luena sentiu todo o seu corpo estremecer, o sangue correndo rapidamente por suas veias a permitindo erguer a cabeça rapidamente. — Como eu vim parar aqui? — A pergunta saiu fraca, mais um teste do que uma exigência. Noir cruzou as pernas, parecendo entediado com as perguntas óbvias. Ele apoiou a cabeça em seus dedos, a observando friamente. — Pedi que um dos meus homens a trouxesse, já que tenho algumas perguntas a serem feitas. Luena sentou-se no chão frio ainda incrédula ao se dar conta de que de alguma forma fora sequestrada após cair no sono. Uma sensação agonizante se espalhou por seu corpo, a fazendo encarar aquele homem num misto de decepção e surpresa. — Por que está me mantendo presa? Se quisesse fazer perguntas, poderia apenas ter pedido para conversar… Noir se limitou a erguer a sobrancelha. — Estou pedindo agora, não estou? — o príncipe ergueu a outra mão, movendo os dedos no ar — Traga-a para mim. O rapaz desinteressado atravessou o quarto até Luena. Quando tentou erguer-la, ela percebeu as amarras: cordas finas que prendiam seus pulsos às costas, as ataduras no tornozelo. O levantamento foi firme, sem brutalidade desnecessária — um cuidado prático para que as rédeas do jogo ficassem inteiras. Luena foi trazida, conduzida a ajoelhar-se, e a sala se encheu de um silêncio virado contra ela. Isso não estava certo! Por que raios ele faria algo assim a ela? Essa era a primeira vez que se encontravam naquela vida, era impossível que tivesse cometido algum erro que mudasse todo o futuro! O nervosismo a deixou ainda mais ansiosa, o que chamou a atenção de Noir. Noir aproximou-se com a lentidão de quem folheia um livro antigo. Levantou a mão e, sem agressão, suportou o queixo dela entre os dedos. O contato não doeu; a ameaça estava no gesto: ele podia apertar, se quisesse, e faria com precisão cirúrgica. Seu rosto ficou a poucos centímetros do dela. — Diga-me — murmurou, a voz baixa, descendo como um desvio — por que o Grão-duque mantém alguém que ninguém ousa nomear? Antes que conseguisse formular uma mentira treinada, a pressão contra a pele aumentou. Houve um deslocar de ar — não uma ameaça explícita, mas um aviso sem palavras. Luena sentiu o gosto metálico do medo e, mais fundo, a memória de outras vezes em que palavras pareciam afiar lâminas. — Eu não sei — respondeu, controlando a própria voz, exercitando o medo que aprendeu a usar em público para parecer tola. A resposta era oferecida como isca. O príncipe a soltou, recostando as mãos no colo. Passou a avaliá-la, como se medisse o seu valor. A sua sobrancelha curvou-se em suspeita. — Que resposta entediante. Até mesmo a invasão desta noite foi mirada em você. Então o que é que tem de tão especial para atrair essa gente? Ela mordeu a parte inferior de sua bochecha, completamente encurralada. A forma e a intensidade do seu olhar deixava claro que perceberia qualquer mentira que ela se atrevesse a contar. Estava numa situação realmente incômoda. Noir já deveria saber sobre ela. Sobre a sua circunstância. Não existia motivo para trazê-la até ali só para confirmar informações. No entanto, estava em desvantagem e diante de um possível perigo. Luena não queria arriscar seu pescoço tentando bancar a espertinha no momento errado. Rangendo os dentes, ela cerrou os olhos determinada. — Deveria se incluir na conversa, já que você também está aqui curioso. Noir abriu um sorriso de canto e uma risada baixa. Certo, parece que ele ainda se diverte quando Luena é mais atrevida nas palavras. Seus dedos deslizaram pela faixa enrolada no pescoço dela, apesar dele não desviar o olhar dela. — Tenho algumas suposições, é claro, já que não vim por vontade própria. Tenho mais o que fazer do que verificar se o Grão-duque acredita em… contos de fadas. Sua habilidade. Luena cerrou os punhos à suas costas, tentando ao máximo não expressar nenhuma reação que denunciasse algo. Mas só de saber que Noir realmente veio para saber se Khait Arbane a mantinha escondida por achar que ela despertaria o Olho da Lua n***a… haa, tão esperado ao mesmo tempo que era decepcionante. — É apenas uma história velha, ninguém acredita nisso. Muito menos o Grão-duque. — Sério? — ele murmurou bem humorado, então finalmente deslizando o dedo pelo braço de Luena até chegar nas cordas e soltá-la. O seu toque era suave como uma pena, o que a deixou petrificada no lugar. Noir percebeu sua rigidez, e soltou um riso baixo ao baixar o seu tom de voz para um sussurro rouco — Já que admitiu saber sobre um conto de fadas, poderia me falar mais sobre. Ou será que realmente é tão introvertida a ponto de não saber absolutamente nada? Que tipo de imagem distorcida ele tinha dela? Tudo bem, era verdade que ela raramente deixava a mansão sob ordens de seu pai, contudo não era uma garotinha tímida!!! Não… nessa vida, pelo menos. Livre das cordas, Luena massageou seus pulsos antes de soltar os próprios tornozelos. Tentou ao máximo escapar dos efeitos que a presença dele trazia. Era injusto que seu corpo reagisse tão… apaixonadamente apenas ao ouvir sua voz ou sentir um mero toque sutil. — Francamente… me sequestrou e me prendeu numa corda só por causa de um conto de fadas? Medidas drásticas por motivos supérfluos. — Fica difícil dizer que é algo superficial quando chegamos ao ponto de uma invasão acontecer no território do Grão-duque. — novamente ele segurou o seu queixo, delicadamente a obrigando a encará-lo. — Quer a minha ajuda para ser reconhecida pelo Grão-duque? Sim? Não? Talvez? Ele estava no ponto onde ela queria, apesar de não ter saído como planejado. Noir se moveu diferente do passado, o que a deixava hesitante em agir sem pensar. Só que se o final foi o mesmo, então talvez não tenha saído tão diferente assim. Ou pelo menos não precisaria jogar fora seus planos. Tremendo levemente, Luena desviou o olhar indecisa. Parecia um pequeno coelho que está diante de um buraco para fora do seu mundo, ao mesmo tempo que sente medo do potencial perigo lá fora. Uma hesitação que pareceu satisfazer a ganância daquele príncipe, que a soltou. — Saiba que não haverá um parceiro melhor que eu. Posso te ajudar, se você me der as informações que eu quero. Era um acordo tentador, da qual Luena já aceitou várias vezes. E talvez por esse motivo que sua mão agiu por conta própria, segurando a destra de Noir para aceitar o seu pedido.
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