Capítulo 09

1725 Palavras
As montanhas geladas do sul eram responsáveis por um clima hostil. A manta branca de alta expessura cobriria o joelho de um homem adulto, dando trabalho para os jardineiros em abrir caminho três vezes ao dia para o exército sulista passar. Os soldados do sul mantinham-se firmes, roupas grossas para mantê-los aquecidos, e armados prontos para qualquer combate. Para eles, aquela era apenas uma manhã. Mas para os visitantes, não. — Eles realmente vieram só com terno e gravata? — murmurou um soldado, com zombaria. — O que se espera desse povo da capital? Estão acostumados com o clima quente e jamais devem ter visto neve na vida. As risadinhas e zombarias cessaram quando um segurança abriu a porta traseira do carro, e de dentro saiu um rapaz alto de cabelos castanhos. Ele trazia consigo um ar polido da capital. O manto pesado que vestia parecia insuficiente contra o frio cortante, e de tempos em tempos ele esfregava as mãos pelas mangas, como se aquecê-las fosse um gesto casual. Seus olhos esverdeados brilhavam com gentileza, passeando pelo ambiente com um sorriso ameno nos lábios, mas havia uma ansiedade nascendo em sua expressão. Principalmente quando a porta de um casebre fora aberta, e de lá um soldado saiu fazendo uma reverência. — Sempre admirei a disciplina das tropas do Sul — disse Haeron, a voz suave, como se conversasse ao redor de uma lareira. — É quase como se o inverno fosse parte delas. — Seja bem vindo, Vossa Alteza. A Sua Graça o aguarda lá dentro. — Muito obrigado. O príncipe dispensou seus seguranças e entrou sozinho no casebre. O calor da lareira espantou o frio de seus músculos, e ele pode suspirar aliviado por finalmente estar longe do frio por um momento. Atravessando a pequena sala, o príncipe percebeu o pequeno arsenal de armas e telas mostrando o mapa da fronteira. Várias marcações eram feitas ao vivo. — Parece que está ocupado ultimamente, Senhor Arbane. Os olhos do príncipe recaíram sobre o homem parado na janela, seus braços cruzados sobre o peito e olhar perdido para além da janela. Os cabelos escuros do Grão-duque caíam suavemente sobre seu rosto, como uma cortina que impedia revelar qualquer emoção sua. Sempre que o via tinha a estranha sensação de assombro. Porque Khait Arbane nunca envelhecia. Como alguém preso em seus eterno vinte e poucos anos. Ou era isso o que os fofoqueiros diziam na corte. — Sempre estão tentando invadir o Império, são apenas tolos de pensarem que podem me derrotar. O príncipe sorriu e se sentou numa cadeira. O Grão-duque não fez nenhuma reverência, tampouco os trataria com decoro. Apesar dele não ser grosseiro também. — Deve ser por isso que meu pai confia tanto em você. É alguém tão forte que seria difícil de derrotar. — Por que a sua vinda repentina, Alteza? Direto ao ponto. O príncipe abafou o riso envergonhado, batendo os dedos sobre seu joelho enquanto reformulava suas palavras cuidadosamente. Não queria aborrecer o Grão-duque, principalmente por ter percebido que ele ignorou o seu elogio quando mencionou o Imperador. Como esperado, a relação continuava estremecida. — Não pense que meu pai está duvidando de sua lealdade ao me enviar aqui. Estou apenas adquirindo conhecimento da situação nas fronteiras. — Pedaços de papel e emails tem serventia para passar tais informações. A sua vinda é desnecessária, além de ser um incômodo. — Assim você me magoa — brincou o príncipe, que logo engoliu em seco ao ver que o Grão-duque realmente não lhe daria a******a alguma — Na verdade, vim aqui para termos uma conversa amigável. Considerando a longa relação entre os Arbane e os Rythorn, um conselho pode ser algo necessário. Khait suspirou pesado, como se já estivesse irritado sem nem mesmo saber do que se tratava. Geralmente Khait evitava banalidades justamente por achar ser um incômodo. Era um homem de poucas palavras, o que o tornava um mistério. Ainda assim, a sua presença impunha respeito. Haeron admirava aquilo. — Que tipo de conselho você pensa que eu preciso ouvir? — Eu… interceptei informações da minha mãe. — começou o príncipe, olhando para a sua própria mão tentando manter o tom calmo — Sabe como ela é, guarda rancor e sempre acha uma forma de ser notada por todos. Ela parece interessada no que você esconde dentro do seu território. Os ombros de Khait ficaram rígidos. O principe ergueu os olhos para o Grão-duque, percebendo a sua imobilidade. Tinha a sua atenção. — Por que a rainha estaria interessada no que mantenho dentro do meu território? Por acaso ela está ansiosa para satisfazer a ganância do Duque Ivorak, e deseja todas as minhas posses? O tom irritado em sua voz fez Haeron hesitar. Já era esperado que ele pensasse assim, considerando que o Duque Ivorak nunca escondeu sua hostilidade para com os Arbane. E considerando que Haeron tinha o apoio dos Ivorak para ascender o trono… bem, Khait não confiaria em si tão facilmente. Política era tão chato e cheio de nós. — Honestamente, eu não sei. Minha mãe apenas quer que eu me concentre nos meus deveres reais e consiga o trono. Mas claro que isso não me impede de mantê-la sob vigilância. Por isso consegui essa informação, já que não quero que nada de r**m aconteça. A ponta dos lábios de Khait se curvaram em um sorriso irônico. — Ha… quanta gentileza a sua. Está com medo do que pode acontecer com vocês caso a fronteira sulista caia? — Sei que seria uma grande catástrofe, considerando que são a nossa maior defesa. A sua queda é a queda do Império — o príncipe sorriu de volta, mas logo inclinou-se sobre a mesa. Cruzando as mãos, ele ficou sério repentinamente, sem desviar os olhos do Grão-duque — Por esse motivo vim dizer que o Duque Ivorak sabe que você tem uma filha bastarda escondida no seu território. O silêncio que se seguiu foi tão congelante quando o frio lá fora. Khait o encarou por alguns segundos, avaliando cada palavra de sua revelação. — E dai? O príncipe piscou aturdido, sufocando o riso que surgiu em sua garganta e o disfarçando com uma tosse. Claro que Khait Arbane não seria amedrontado por isso. Precisava de muito mais para quebrar aquele homem. Apesar que esse não era o motivo de sua visita. — Bem, não é um crime ter um filho escondido, mas minha mãe e o Duque podem estar interessados no motivo de você escondê-la, e de que talvez seja a sua… fraqueza. — Pensa que uma garota é o suficiente para me enfraquecer e me fazer cair de joelhos? São mais desocupados do que imaginei. — Estou aqui apenas para oferecer uma mão amiga, Grão-duque. Independente de eu me tornar o governante deste país ou não, é inegável que precisamos de você inteiro para manter a defesa. Não quero que ninguém saiba de sua fraqueza. — Haeron sustentou o olhar intenso de Khait, mesmo sentindo o seu coração acelerar no peito diante da presença esmagadora dele — Nem mesmo minha mãe. Khait ergueu uma sobrancelha, cético às suas palavras. O príncipe continuou a sustentar o seu olhar, transparecendo a sua honestidade. — Vamos supor que tal ameaça de fato exista, a de que eu tenho uma fraqueza, como você pretende estender a sua mão amiga, Alteza? — Trazendo-a para o palácio imperial. — Haeron disse de imediato. — Tornando-se minha esposa, ela terá a p******o da família imperial e jamais será ferida. Um arrepio subiu na espinha de Haeron quando os olhos de Khait Arbane o encarou. Frios, intensos, como se cristais de gelo perfurassem-no. Lentamente o Grão-duque se levantou e inclinou-se sobre a mesa, aproximando o seu rosto de maneira perigosa. Essa a primeira vez que via uma reação dele, apesar de quem nem sabia se poderia chamar aquilo de reação. Poderia ser apenas a sua imaginação. — Quer que eu acredite que você quer tomar aquela garota como sua esposa, como uma forma de proteger a minha fraqueza? Quando, em suas palavras, o maior perigo é exatamente a sua mãe? — Minha mãe e o Duque Ivorak não podem fazer nada se ela for minha esposa. Até porque, sendo sua filha, o meu pai também cuidará dela, não? — o príncipe tentou evitar ao máximo fugir do olhar penetrante do Grão-duque. O seu coração acelerava ainda mais em nervosismo — Minha mãe é apenas uma rainha, não a Imperatriz. Por isso sua posição é limitada também. A mão do Grão-duque agarrou o colarinho do terno de Haeron, puxando-o para perto. O baque contra a mesa fez o príncipe ofegar, mas esconder qualquer sinal de receio. — Quando você aprender a não depender dos contatos da sua mãe, e realmente mostrar que sabe governar sozinho… então acreditarei mais em suas palavras. Até lá, mantenha sua sombra longe do meu território e em tudo o que me pertence. A ameaça foi direta, mas Haeron sabia que o Grão-duque ficaria atento a partir de agora. Era uma rejeição, mas ambos sabiam que a proposta se manteria em pé por um bom tempo. No momento em que o Grão-duque se der conta de que Haeron era o único capaz de controlar a ganância da rainha e do Duque, então aceitaria a sua proposta. — Ultimamente meu pai tem recebido informações sobre a queda de Nafathia. Até onde sei, quando o Imperador era apenas um príncipe herdeiro, você era o chefe do esquadrão sob o comando dele. Houve uma vez em que vocês viajaram até essas terras, não foi? Afastando a mão de Khait de sua roupa, o príncipe ajeitou o casaco. Somente então ele se deu conta de que a frieza vista apenas alguns segundos atrás não era nada comparada àquela expressão. Instintivamente Haeron soube que tinha tocado em um assunto delicado, pois sentiu medo de Khait Arbane. Ao mesmo tempo, um alarme soou no lado de fora, e um imenso movimento de soldados correndo ordenadamente interrompeu a conversa. Khait suspirou e se afastou do príncipe, indo até a janela. Um mensageiro fez sinal com a mão através da janela, e Khait assentiu o dispensando. — Recomendo que foque nas suas próprias tarefas como príncipe disputando pelo trono — Khait o encarou friamente — Já que veio aqui com a desculpa de inspecionar as muralhas, faça o seu trabalho e tente sobreviver.
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