Capítulo 10

2052 Palavras
Khait Arbane aproximou-se dos monitores onde recebia relatórios curtos e rápidos sobre a situação das muralhas. Um soldado digitava rapidamente enquanto outro repassava ordens pelo comunicador, girando o mapa onde pontos vermelhos surgiam. — Um grupo mediano se aproxima do terceiro muro. São soldados armados, mas não parecem ter notado as armadilhas. — relatou o soldado, quando o mapa foi atualizado. — Toque o alarme — ordenou Khait. O alarme soou como um único corte: estridente, mecânico, impossível de ignorar. Haeron cobriu os ouvidos, incomodado, tirando qualquer resquício de formalidade da reunião que tinha até então. Lá fora, a fronteira ardia em outro tipo de som. O vento carregava estilhaços de pólvora, estalos de metal e os urros abafados de quem corria ferido. A neve, que até então caíra ordenada, tornava-se manchada e pesada, vermelha e escura. As lanternas tremiam; drones pequenos de vigília, zumbiam acima como insetos metálicos, suas luzes piscando entre flocos. Telas montadas na tenda de comando vomitavam mapas em tempo real: pontos de calor, trajetórias de veículos, correntes de emissões de rádio interceptadas. A guerra — aquela mistura de brutalidade antiga e tecnologia fria — tinha chegado. — Fique aqui e não cause problemas — murmurou Khait para o príncipe, logo deixando o casebre. Piscando aturdido, Haeron aproximou-se da janela onde assistiu o Grão-duque sumir de vista e ser seguido por soldados. — Ele vai para a linha de frente? — Sua Graça consegue lidar com um ponto estratégico que permite uma visão ampla do campo de batalha — explicou o soldado que não tirava os olhos dos monitores. Que loucura. Por que ele colocaria a vida em risco sendo que há soldados para isso? Haeron rapidamente voltou para perto dos monitores, onde os drones agora filmavam a batalha e localizavam os inimigos. Podia ver um carro se aproximando da terceira muralha, onde Khait saiu e rapidamente tomou a sua posição. Havia algo nato na sua calma; os homens que o seguiam sabiam que a voz dele, quando vinha, ordenava e resolvia. Em cinco passos, Khait já tinha delineado as falhas no perímetro: a trilha alongada ao lado do desfiladeiro, o ponto onde as lanças de neve escondiam covas, a borda onde a coluna de mercenários poderia ser emboscada. Seus dedos apontavam, concisos: as ordens saíam curtas e cortantes. — Deixem os blindados no flanco leste e fechem a vala sul com arame e obstáculos — a sentença não pedia justificativa, e os oficiais executaram a ordem repassada pelo comunicador. Os atacantes não eram meros baderneiros. Agiam com disciplina doentia: colunas em formação, comunicação por canais criptografados, pequenas unidades de reconhecimento em moto-slope cortando os flancos. Não existia hesitação, era como se tudo fosse coreografado. Se não fosse pelos corpos caindo no confronto, e pelo barulho h******l digno de uma guerra, Haeron não acreditaria que fosse real. — Clima? — a voz de Khait soou pelo fone do soldado, que rapidamente ligou o microfone. — Alta umidade por causa da chuva semana passada, estimativa da temperatura cair ao entardecer. Podemos esperar por mais neve, senhor. A primeira onda colidiu com as linhas sulistas como um navio bate em corais. Metais rangiam; o cheiro de pólvora era misturado com o ferro do sangue. Soldados habituados ao frio erguiam barricadas humanas, as mãos calejadas trabalhando com precisão ao redor de armas que já conheciam pelo peso. Haviam aprendido a usar as estacas da própria neve, a tornar a geografia uma arma — e aquilo, por si só, fazia diferença. Khait não ficou distante do conflito. Quando a formação do inimigo tentou abrir uma brecha por uma ravina, foi ele quem partiu com uma esquadra pequena, leve, que conhecia atalhos entre pedras que ficavam escondidas no inverno. Não era gesto cerimonial; era um movimento tático. Avançou entre a fumaça, a capa borrada de branco, comandando pessoalmente as linhas de flanco, acertando com precisão quem tentava se aproveitar do pânico. Haeron, pela primeira vez, viu o buraco real entre palavras e atos. Viu não um comandante com títulos, mas um homem que dava ordens com a frieza de quem sabia quanto sangue custava cada decisão. O eco das explosões reverberava no solo como um coração pulsando sob os pés. As telas tremiam a cada detonação próxima, a luz azulada dos monitores tingindo o rosto pálido de Haeron, que m*l piscava diante do caos que se desenrolava diante dele. De súbito, uma das câmeras perdeu sinal. O mapa piscou, e um dos pontos azuis — aliado — se apagou. O soldado à direita digitou furiosamente, tentando restabelecer o feed. — Comunicação perdida com a unidade de flanco leste! — gritou. — Interferência eletromagnética. Eles estão usando bloqueadores — respondeu outro, com a voz tensa. Haeron sentiu o estômago afundar. Aquela não era a guerra fria dos conselhos e dos acordos velados. Era o mundo em carne viva, pulsando, devorando. E Khait estava no meio dele. — Foco nos drones 4 e 7. Quero os ângulos altos sobre a ravina, — ordenou uma voz metálica pelo rádio. Era o próprio Khait. A calma dele cortava o ruído, e por um instante, os homens na tenda pareciam respirar junto. As câmeras reposicionaram. A visão se ajustou. Haeron viu Khait — ou o vulto dele — emergindo entre fumaça e neve, o rosto parcialmente coberto pelo capuz branco. O clarão de uma explosão iluminou a borda do penhasco, e a silhueta do Grão-duque destacou-se como uma sombra alta, firme, inalcançável. — Ele é mesmo humano? — murmurou Haeron, quase sem perceber que falava. Ninguém respondeu. Khait movia-se como se soubesse de antemão o que viria. Cada gesto dele arrastava a atenção — um levantar de mão, um aceno curto — e dezenas de homens respondiam sem hesitar. Um disparo certeiro fez um dos veículos inimigos rodar em chamas antes de despencar no abismo, e o som abafado ecoou como um trovão distante. A calma dele era mais aterrorizante que o próprio combate. Haeron se afastou da tela, o peito apertado. A guerra não parecia tocar aquele homem — ou talvez ele tivesse se tornado parte dela. Um mecanismo perfeito, feito para resistir. E foi nesse momento, entre o som distante dos tiros e o rugido dos motores, que Haeron entendeu por que os soldados o seguiam sem duvidar. Khait não precisava gritar para comandar. Ele apenas olhava — e o mundo obedecia. Um estrondo mais forte sacudiu o chão. As luzes da tenda oscilaram, e um estilhaço de vidro caiu da janela, rachando o canto da mesa. — Impacto na segunda muralha! — alertou o operador. — Precisamos evacuar o perímetro interno! Haeron agarrou a borda da mesa, o corpo vibrando com o eco da explosão. — E o Grão-duque? — perguntou, quase engasgado. O soldado hesitou antes de responder, os olhos fixos no monitor. — Ele não vai recuar. Está abrindo caminho para as forças de contenção. Por um segundo, o tempo pareceu se arrastar. A tela mostrou o Grão-duque subindo uma encosta coberta de neve e fumaça, o capuz agora rasgado, o sangue manchando a gola do uniforme. Mesmo assim, ele não parava. E Haeron sentiu algo inesperado — não medo, nem admiração, mas uma inquieta sensação de destino. Como se, a partir dali, nada mais pudesse voltar a ser o mesmo. O som do último disparo desapareceu no vento. A calmaria voltou tão abrupta que parecia mentira. — Todas as áreas foram limpas, os reféns foram tomados. Contabilizando as baixas — o soldado digitava freneticamente, repassando as informações pelos comunicadores. O lado de fora foi tomado pelo movimento intenso de soldados. Macas carregavam os feridos para as cabanas, tropas seguiam ordens para realizarem novas patrulhas e certificar que nenhum outro ataque ocorreria. Era uma pressa e barulheira que causou grande impacto no Segundo Príncipe. A resposta sulista foi devastadora e meticulosa. Nenhum invasor restou para contar o que vira. O soldado girou a cadeira, e encarou o príncipe. — Alteza, a área já está livre para que a sua inspeção seja realizada. — Minha inspeção? — engolindo em seco, Haeron olhou sobre o ombro. Era verdade que usou a inspeção às muralhas como desculpa, algo que até Khait sabia, no entanto era uma mentira que precisava ser sustentada para não gerar problemas futuros — Muito bem, farei a vistoria dos perímetros. O soldado o olhou de soslaio, e depois assentiu. — Como desejar, Alteza. Avisarei o comandante e os demais. Haeron, tentando parecer útil, ajeitou a manta pesada sobre seus ombros e deixou o casebre junto com sua equipe de seguranças. Lá fora, o ar do sul cortava como lâmina. A neve caía justo como foi previsto, gelada e doída como uma mordida. Cada passo do príncipe fazia o chão ranger de gelo comprimido, e Haeron percebeu que os flocos eram densos e pesados. — É como se o frio tivesse vontade própria — murmurou surpreso, observando o floco cair sobre sua mão enluvada. A sua vistoria ocorreria apenas na região onde aconteceu aquela batalha. Haeron conversou com os soldados, visitou os feridos, certificou que havia provisões para todos. A realidade bateu forte ao se dar conta de que uma guerra poderia trazer cenários ainda piores do que aqueles. Ver a neve manchada de sangue, corpos caídos trouxe um choque a Haeron. A coroa que almejava carregar poderia ser tão pesada por causa daquela visão. — Precisa se apressar, Alteza. A neve está piorando e a temperatura está caindo — avisou um dos seguranças. Na medida em que o sol se punha e a noite chegava, as luzes dos postes se acendiam. Contra luz Haeron via os flocos de neve caindo, e mais uma vez ele esfregou os braços ao sentir sua pele se arrepiar. — Tem razão. Vamos verificar a última muralha. Seguiu o caminho até uma das muralhas menores. Alguns soldados estavam recolhendo os estandartes e verificando o estado das torres de vigília. Quando Haeron tentou se aproximar, algo mudou. O som, antes abafado, pareceu desaparecer. O vento cessou. Então veio o estalo! O gelo sob seus pés cedeu um pouco. Ele olhou para baixo, mas não teve tempo de reagir. O chão desabou num golpe s***o, lançando-o numa vala estreita coberta por neve artificial. Era uma armadilha de caça, feita para enganar até mesmo os drones de vigilância. E a queda não foi o pior — o frio ali dentro era cortante, úmido, vivo. O ar parecia se mover, sugando-lhe o fôlego. — Alteza!! Está ferido? — um segurança perguntou, e Haeron percebeu que não fora o único a cair, todos da sua comitiva estavam ali. — Estou bem, e vocês? Se não estiverem feridos, vamos encontrar uma maneira de sair. Haeron tentou subir, mas o gelo se partia sob os dedos, e o frio começava a entrar pelos pulsos, devorando a pele. Foi então que ouviu o estalo de passos pesados se aproximando — e uma voz conhecida, firme como o aço: — Parece que o Imperador não ensinou essa lição aos seus filhos. O sul não perdoa arrogantes. Khait estava na borda da vala, olhando-o de cima. O vento fazia a capa branca se agitar como asas de neve. Havia um brilho perigoso em seu olhar, nada de piedade. Haeron engoliu em seco, se dando conta de que sua conversa anterior pode ter acendido um lado rancoroso do Grão-duque. — Senhor Arbane… Sabe muito bem que não tive a intenção de ser arrogante, e que fui genuíno em minha preocupação. — Se a sua vontade é sentar naquele trono sob o lugar mais quente, então deve aprender a não morrer congelado em cinco minutos. Khait estendeu a mão, sem pressa, como quem oferece ajuda apenas para observar se o outro a aceitaria. Haeron o encarou, sem fôlego e sem palavras. Era um óbvio aviso de que aquele homem amaldiçoado era o único capaz de dominar o selvagem sul, independente de quem se tornasse o novo Imperador. Como se inimigos que são incapazes de sobreviver ao mero clima do sul, seriam incapazes também de derrotá-lo através de sua fraqueza. O frio já fazia seus lábios arderem. E, mesmo sabendo que aquele gesto carregava um tom de provocação, agarrou a mão do Grão-duque. Khait o puxou com um só movimento firme, e o arrastou para fora da vala. — Espero que transmita estas mesmas palavras para qualquer um da capital.
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