Depois daquela noite, Luena evitou deixar o seu escritório. Fosse para fugir dos olhares cheios de desprezo dos criados — que certamente odiavam vê-la dando ordens na ausência do Grão-duque — ou fosse para evitar um certo príncipe que insistia em confundi-la.
No entanto, nada mudava o fato de ela ser uma Arbane e Noir ser um Rythorn. Ele era um m****o real, um convidado que deveria ser bem tratado quer ela goste ou não. A fim de evitar qualquer escândalo e mau entendidos, Luena abandonou o seu escritório apenas para jantar com o príncipe e Ecloir na sala de jantar.
Era realmente saboroso ver os dedos de Ecloir se contorcendo sobre a mesa quando Noir dava mais atenção à Luena e a tratando como uma herdeira dos Arbane. A sua decisão não foi errônea, então, certo?
— Para m***r um pouco do tempo, quero interrogar os mercenários que foram presos — Noir ergueu os olhos avermelhados para Luena, a generosidade e respeito mascarando suas verdadeiras intenções — Assim estarei fazendo algo útil também.
Luena cobriu os lábios com um guardanapo, limpando qualquer sujeira antes de voltar-se a ele. Esse seria o seu jeito de avisá-la que pretende caçar informações dentro da mansão? Que adorável.
— Nosso chefe da segurança pode lidar bem com os problemas.
— Me use como desculpa, um m****o da família real estava presente na Mansão Arbane — ele segurou a taça de vinho e a olhou sobre a borda enquanto bebia — Isso não é motivo o suficiente para entregá-los à morte?
Antes que Luena pudesse responder, Ecloir inclinou-se na mesa e a olhou rigidamente.
— Se é a vontade de Sua Alteza, seria um crime recusar o seu pedido. Certo, senhorita?
Luena piscou lentamente e soltou uma risada nasalada, disfarçadamente. Ela concordou com a cabeça.
— Tem razão. Faça como desejar. — Terminando sua refeição, Luena bebeu um gole de água e se levantou da cadeira, olhando para o seu convidado — Se me der licença, preciso me certificar de que uma mensagem tenha sido enviada ao Grão-duque e a Khalid avisando de sua chegada. Pode contar com o Barão Florian se precisar alguma coisa. Boa noite.
A forma como ela colocou o Barão como o seu alicerce iluminou o rosto do dito cujo, mas Luena já estava feliz por ter se livrado de sua companhia.
Sem esperar por uma resposta, ela saiu da sala de jantar, deixando para trás um Príncipe com uma expressão fria e desgostosa em seu rosto, talvez por ter sido abandonado por um belo cisne.
Ele poderia fazer qualquer expressão desprazerosa em seu rosto, Luena iria se deleitar. No fim, era a única a saber cada passo seu naquela mansão. Suas memórias das vidas pregressas ajudavam a manter o perfeito disfarce para encontros… ocasionais.
Na sua segunda vida, quando ela buscava por informações à respeito de sua habilidade na biblioteca da mansão, acidentalmente se deparou com Noir. Fato esse se repetiu na terceira vida. Poderia arriscar sua chance uma terceira vez, só para se certificar.
Por isso, depois daquele jantar, Luena vagou pelos corredores silenciosos da biblioteca. Lá ela conseguia entrar na seção exclusiva, onde teriam livros antigos das quais os ancestrais dos Arbane guardavam com tanto esmero.
Segurando uma lanterna, Luena caminhava lentamente pelos longos corredores escuros. Os olhos estavam atentos nos títulos das obras ali guardadas. Procurava por algo exclusivo.
Fora a luz de uma tela acesa que chamou a atenção de Luena, que imediatamente deslizou o dedo para usar sua digital e abrir o catálogo de livros secretos ali arquivados. Procurando por um exemplar específico, logo encontrou sua localização e, sem fazer barulho, ela foi até a estante mais afastada. Na última prateleira…
Luena parou em frente à estante de livros. O cheiro de folhas antigas e tinta seca preenchiam o ar sem parecer desconhecido. Luena leu os títulos dos livros impecavelmente enfileirados, e somente então encontrou o que queria.
“A guerra de Zargos”.
— Uma nação antiga que já fora destruída por causa de uma guerra entre deuses, certamente parece um mero mito — sussurrou, dando um passo adiante e estendendo a mão para alcançar a prateleira alta — Um grupo de sobreviventes migraram das ruínas e viajaram para o Sul, onde se estabeleceram, dando origem aos Arbane… a origem da nossa lenda.
Os dedos de Luena não alcançavam o livro. A estante era alta demais. Suspirando, ela deixou a lanterna no parapeito da janela, e voltou a se debruçar na estante, ficando nas pontas dos pés para alcançar o livro.
Só conseguia tocar a ponta dos dedos no livro quando uma mão surgiu segurando-o e o puxando para fora da estante. Luena estremeceu ao sentir uma sombra projetando nela, um calor que a envolveu e a aqueceu causando um arrepio.
— História fascinante…
Um braço segurava o livro, o outro se apoiava na estante. Ela estava encurralada, sentindo o calor da presença dele envolver sua pele como brasa. Um cheiro intenso a deixou ansiosa, e por um momento suas pernas tremeram. Luena virou a cabeça lentamente, encontrando aqueles olhos ardentes perfurarem sua alma.
— … Parece que procura por algo interessante, senhorita Arbane.
A voz suave e melódica do príncipe a fez estremecer. Estava prestes a inventar alguma desculpa quando sentiu uma pontada em seu tornozelo. Rapidamente Luena virou-se de frente para ele e pegou o livro de sua mão.
Como esperado, lá estava ele… de novo.
— Está numa área restrita, Alteza. Mesmo sendo da família real, acredito que não deveria estar aqui.
O príncipe a avaliou silenciosamente, inclinando-se para trás escolhendo recuar. Ela suspirou aliviada, podendo se recompor e esconder o rubor de suas bochechas. Ainda era uma tola por ele.
— Temos negócios a tratar, e você tem me evitado. Fico impaciente quando não tenho o que quero.
Então ele percebeu, estava prestando bastante atenção nela. Ao menos os dois estavam na mesma página. Evitá-lo poderia ser um mero plano seu para fazer Noir ficar cada vez mais intrigado com Luena, com os segredos por trás de sua habilidade. Isso se não fosse a pequena voz no fundo da sua mente a repreendendo por estar com medo de presenciar outras mudanças naquele homem.
Não queria, de maneira alguma, que Noir se tornasse uma incógnita incontrolável na sua quarta vida.
— Não estava fugindo, você disse querer informações, e eu não as tenho. Por isso vim procurar.
O príncipe notou o livro que Luena abraçava contra o peito. O título chamativo foi o suficiente para que ele apontasse.
— Gosta de contos de fadas? Ouvi dizer que Zargos é uma nação caída que os arqueólogos buscam incessantemente comprovar sua existência.
Luena abriu o livro, folheando as páginas amareladas.
— É a história da família Arbane. Dizem que somos descendentes dos sobreviventes de Zargos, que migraram para o sul e fundaram o Grão-ducado. Este livro parece contar como foi a última guerra.
— Uma história e tanto, de fato. Mas, pelo que sei, os Arbane não são os únicos a reivindicar essa descendência.
Ele parecia saber bem, o que era esperado. Luena sempre admirou aquele detalhe. Um príncipe que conhecia a história da sua família. Era um tanto quanto confortante ter alguém com quem compartilhar essa experiência.
— Sim, não somos os únicos. Mas somos os únicos abençoados pelos deuses. Segundo este livro, é claro.
O príncipe cruzou os braços, o ceticismo presente em seu semblante.
— Uma benção? Ha… claro, um povo precisa de histórias fantásticas para se destacarem. Apenas terem contribuído para a história do Império e serem recompensados com posses e terras não é o suficiente para o orgulho dos Arbane.
— Não é o mesmo com a família real, que dizem ser o escolhido do deus sol para iluminar o caminho do seu povo para a prosperidade? — ela alfinetou de volta.
Um sorriso divertido surgiu nos lábios, os olhos brilhando com a malícia que ele encontrou nas suas entrelinhas. Luena virou o rosto, fingindo ler o livro. Deslizou os dedos pela página amarelada.
— Touché. Talvez seja da nossa cultura legitimar nossa existência com contos de fadas e deuses imaginários. Somos todos loucos, dignos de um manicômio por acreditarmos em tais delírios.
— Que rígido — ela zombou, fechando o livro — Talvez devesse usar esse delírio ao invés de contar carneirinhos, e tentar dormir um pouco, Alteza.
Ela o ouviu rir, um riso baixo e cheio de zombaria. Luena segurou a lanterna e virou-se para ir embora. No entanto, o príncipe não parecia pronto para deixá-la ir.
— Ao menos fico aliviado que o Grão-duque tenha uma filha tão devota à família. Mesmo que ele a esteja mantendo em segredo.
Luena parou imediatamente.
Bastardo maluco! Ele realmente queria deixá-la surpresa ao revelar que sabia quem ela era. Olhando sobre o ombro, o seu rosto ficou sombrio,
— O que quer dizer, Alteza?
Encostando-se na estante do outro lado do corredor, ele cruzou os braços completamente relaxado.
— O Grão-duque nunca se casou e repentinamente adotou o próprio sobrinho, o treinando para assumir as atividades dos Arbane. Porém, nunca fez o anúncio oficial. Mas dentro de suas paredes ele esconde uma garota…
O coração de Luena tremeu forte em seu peito. Os olhos cinzentos como a lua se arregalaram sutilmente. O príncipe sustentou o seu olhar, com seriedade.
— Filhos fora do casamento não são incomuns, muitos nobres tem. Mas é bem estranho que mesmo tendo o sangue de um Arbane, você não é reconhecida como tal.
Um arrepio passou por todo o seu corpo a deixando fraca. A última coisa que gostaria que acontecesse era dele jogando na sua cara o quão menosprezada ela era por meros criados.
Uma vergonha e uma apunhalada em seu orgulho.
— De onde tirou isso, Alteza?
— Suas roupas são ultrapassadas e esfarrapadas. Os criados não respondem à sua ordem de imediato, inclusive você parece hesitar em dar ordens a eles — o príncipe inclinou a cabeça e continuou a falar mesmo percebendo o horror surgindo no semblante dela — E ainda por cima, desde a invasão… o Barão Florian parece ansioso para evitar nos encontrarmos.
O livro caiu no chão, os seus dedos tremendo no ar.
O príncipe se desencostou da prateleira, inclinando-se para pegar o livro do chão e tirar a poeira de sua capa dura.
— Não é minha intenção te assustar, senhorita Arbane. Mas o fato de você ter o sangue nobre, mesmo que parcialmente, é o suficiente para legitimar a sua existência. — ele devolveu o livro a ela e aproximou o rosto de seu ouvido, onde sussurrou — Ele pode fingir que você é como Khalid, uma sobrinha distante que está em seus cuidados. Mas você carrega os traços de Khait Arbane.
E assim ele deixou a biblioteca, pensando ter deixado para trás uma mulher surpresa e ansiosa para ser vista. No entanto, Luena Arbane tocou a própria orelha, vermelha e quente, e com um sorriso no rosto.
— Ha… francamente. Você nunca joga limpo, Noir.