Capítulo 12

1611 Palavras
As celas subterrâneas da Mansão Arbane eram úmidas e escuras, lembrando em muito o sombrio Vale de Ébano — exceto pela arquitetura reforçada e pelos modernos sistemas de segurança. O ar cheirava a ferro oxidado e pedra molhada; o silêncio, denso como um véu, só era quebrado pelo gotejar insistente da água que escorria pelas fendas das paredes. Noir caminhava com as mãos nos bolsos da calça social, os passos cadenciados, os sapatos impecáveis produzindo um som abafado sobre o chão de pedra. Havia um deleite sutil na forma como atravessava aquele corredor sem algemas nos pulsos, mas com autoridade soberana. Era como um eco distorcido das vezes em que estivera do outro lado da grade — agora, ele podia saborear o contraste. Atrás dele, Ecloir mantinha a postura rígida, os ombros erguidos, o orgulho intacto. Completamente indisposto em deixar o príncipe sozinho. Quando se aproximaram da maior cela, o segurança que os acompanhava inclinou-se respeitosamente, abrindo a grade antes de entrar. O rifle em sua mão foi erguido, mirando os prisioneiros reunidos num amontoado de corpos maltratados. Homens de rostos sujos, olhos injetados e feridas m*l cicatrizadas, que reagiam com uma mistura confusa de medo e ódio. — Olha só… até que é divertido estar do outro lado dessa vez — Noir murmurou, aproximando-se de um deles. O homem de cabelos desgrenhados ergueu o rosto com esforço, revelando um olho roxo e inchaços no maxilar. — Você… O sorriso de Noir foi uma lâmina afiada. Ele se agachou, descendo ao nível do prisioneiro. Não havia necessidade de erguer a voz — sua mera presença parecia bastar para impor obediência. E, de fato, bastou um segundo de contato visual para o bandido estremecer, desviando os olhos. — Não esperava me encontrar, não é? — Noir disse com falsa leveza. — Isso… me magoa. O homem apertou a mandíbula e manteve-se calado. Um dos guardas se impacientou e, com um gesto brusco, pressionou a arma contra o queixo do prisioneiro, forçando-o a erguer o olhar. Noir, indiferente, apoiou o cotovelo sobre a própria coxa e o queixo na palma da mão, como se assistisse a um espetáculo medíocre. — Vamos cortar as formalidades. Quem lhes deu a ordem de atacar a Mansão Arbane? O silêncio foi respondido com o estampido seco de um disparo. O projétil atravessou a mão do bandido, que gritou de dor e contorceu-se no chão. Noir suspirou, erguendo-se e estalando os dedos, como quem perde a paciência com um joguete gasto. — Se não quiser falar… podemos brincar de outra forma. Ele se voltou para outro prisioneiro, mais jovem, o suor escorrendo pelo rosto pálido. O rapaz tremeu só de ver o destino do companheiro. Noir aproximou-se devagar, segurando-lhe o queixo com um gesto quase delicado, forçando-o a encará-lo. — Você me parece mais razoável. Então, diga: quem os contratou? E o que estavam procurando? O silêncio durou alguns segundos, quebrado apenas pela respiração acelerada do rapaz. Seus olhos se moveram para o companheiro ferido, depois voltaram, hesitantes, para Noir. — N-Nós só… só recebemos a ordem de encontrar uma pessoa… Ecloir arqueou uma sobrancelha, soltando uma risada seca. — Uma pessoa? Vocês invadem um dos territórios mais poderosos do sul, cercado pelo exército mais temido depois do imperial… só para procurar uma pessoa? — S-Só seguimos ordens! — o jovem respondeu apavorado. — O contratante disse que… que podíamos pegar o que quiséssemos, contanto que encontrássemos uma mulher. O interesse de Noir acendeu-se em seus olhos. — Que mulher? O rapaz hesitou, mas a pressão da arma sobre o companheiro ferido arrancou-lhe a verdade. — A suposta filha do Grão-duque… Um sorriso perigoso se desenhou no rosto de Noir. — Que fascinante… — murmurou, antes de voltar-se para Ecloir. — Parece que os segredos do seu mestre estão se espalhando. Talvez seja hora de verificar se não há um traidor entre vocês. — Está falando sério? A incredulidade no rosto de Ecloir divertiu Noir, como se fosse algo absurdo. Isso era ainda mais risório, considerando que eles sofreram um ataque tão ridículo. Justo o território que tem o exército mais forte depois do exército imperial. O príncipe deu de ombros. — Por que não? Um mero bandido como ele sabe sobre. E é bem nítido que vocês estão tentando mantê-la escondida aqui. Ecloir franziu a testa, mas não contrariou a ordem de um príncipe. Rapidamente ele virou-se para ir conversar com o chefe da segurança, e até mesmo entrar em contato com o Grão-duque. Estando sozinho, Noir virou-se para os prisioneiros e afastou a arma apontada. O rapaz torturado suspirou aliviado, mas tremeu diante dos olhos flamejantes do príncipe. — Muito bem. Agora que estão sozinhos, o nosso amigo aqui pode ouvir cada informação que você tem para nos contar — Noir tocou o ombro do segurança, e inclinou-se para sussurrar em seu ouvido — Não se segure, quero que eles abram a boca antes que o Khalid volte. — Sim, Alteza. Deixando a cela ouvindo o clamor pela misericórdia, Noir olhou em volta se certificando que somente o seu pessoal estava naquele corredor. Um dos seus guardas acenou com a cabeça, apontando com o queixo numa certa direção, e foi para lá que Noir seguiu. Caminhando calmamente para o mais fundo da prisão, ele precisou descer mais um lance de escadas para chegar onde queria. Para o seu desprazer, alguns soldados dos Arbane mantinham suas guardas. Assim que o viram, se inclinavam em uma reverência. A coroa em sua cabeça tinha mil e uma utilidades no fim das contas. — O Barão Florian precisa da ajuda de todos os seguranças — Noir parou no corredor, enfiando as mãos no bolso de sua calça — Vão auxiliá-lo na busca pelo traidor que está vazando informações. Os seguranças trocaram olhares preocupados, provavelmente questionando a ordem do príncipe. Noir os encarou seriamente, completamente relaxado como se aquilo fosse nada demais, ao mesmo tempo que não abria espaço para argumentações. Levemente frustrado, Noir suspirou e apontou para cima do próprio ombro, onde no fim das escadarias vinha seus próprios guardas. — O meu pessoal cobrirá seus postos. Vão. — S-Sim, Alteza. Hesitantes, os seguranças deixaram seus postos. Satisfeito, Noir atravessou o corredor até chegar na penúltima cela, onde encontrou uma mulher sentada no chão com os olhos fechados. Correntes prendiam seus tornozelos e pulsos, apesar de não parecer restringir demais os seus movimentos. Parecia dormir serenamente, mas nem mesmo sua respiração era possível de ouvir. — Forak ficaria horrorizado se a visse desse jeito. A voz de Noir soou baixa, mas o suficiente para a mulher ouvir. Ela não se moveu, o que intrigou o príncipe. Cruzando os braços sobre o peito, Noir encostou-se na barra da cela. — Então? Devo fingir estar interessado no motivo de você ter sido pega ou posso saber a fonte de suas informações… Khaos? Lentamente a mulher abriu os olhos. O tom rubro e a pupila dracônica poderia causar arrepios a qualquer um, mas não em Noir. Afinal, eram parecidos. Inexpressiva e distante, uma mulher misteriosa que era confiável para cumprir tarefas secretas. Não havia nada em Khaos que Noir odiasse. — Uma cópia autenticada de uma certidão de nascimento. Encontrei nos documentos do escritório do Grão-duque. A sobrancelha de Noir se arqueou levemente. Direta como sempre. — Com o nome daquela garota? — Khaos assentiu e Noir levou os dedos ao queixo, enquanto ponderava as informações — Então, Luena Arbane é realmente filha biológica de Khait? Isso me é surpreendente. Se há uma certidão de nascimento, isso significa que é uma informação que qualquer um pode adquirir. Tentar escondê-la é fútil. Sua mente girava. Mesmo que houvesse motivo para esconder a garota, qualquer um com acesso moderado aos registros imperiais poderia confirmar o parentesco. A Rainha Ravena não desperdiçaria recursos com algo que pudesse ser descoberto tão facilmente. Khaos o encarou silenciosamente. Como se fosse capaz de ler sua mente, ela continuou o seu relatório. — A certidão não foi emitida pelo nosso governo. O selo é do Templo de Thuleorana. Arregalando os olhos, Noir encarou Khaos incrédulo. — O templo? Então, Khait teve uma filha fora da jurisdição imperial? E quanto a mãe? Khaos balançou a cabeça. — Não consegui ir a fundo nas informações, a equipe pessoal de segurança do Grão-duque me pegou na hora. Droga, a estranheza e o absurdo da situação era o suficiente para deixar qualquer um intrigado. Documentos bem escondidas, uma existência camuflada… o que raios a Rainha queria fazer com tudo isso? De que forma isso ajudaria Haeron a conseguir a coroa? Tentar pensar nessas possibilidades, mesmo que parecessem insignificantes, eram essenciais para Noir. Principalmente por ele querer aquele trono tanto quanto Haeron. — De toda forma, confirmamos a identidade da garota. — Noir suspirou, passando a mão pelos cabelos brancos. Fez um sinal discreto, e um de seus homens lhe entregou uma chave antiga. Ele a jogou dentro da cela, o som metálico ecoando pelo corredor. — Darei continuidade ao plano aqui. Você deve retornar à capital. Verifique se há registros desse nascimento no Palácio Imperial. Khaos abaixou o olhar para a chave caída a poucos centímetros do pé. O som do metal no chão pareceu mais alto do que deveria. — Sabe que informações têm preço, não é? — murmurou, a voz baixa, quase cortante. — Já estou pagando — Noir respondeu, seco. — Mantendo você longe do Forak. Noir acenou e a deixou sozinha. A decisão de fugir ou não seria totalmente dela, mas Noir já sabia a resposta. Agora que confirmou as suas suposições, estava na hora de pensar nos próximos passos para atrair um cisne para o seu lado daquele jogo.
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