Capítulo 13

2020 Palavras
A Mansão Arbane estava em plena reparação. Criados corriam de um lado a outro, substituindo janelas estilhaçadas e reparando portas danificadas. O som dos martelos, o arrastar de móveis, o tilintar do vidro novo sendo instalado preenchiam os corredores com um ritmo inquieto que tentava devolver ordem ao lugar. Os passos de Noir soavam suaves pelo piso, quase inaudíveis, mas cada servo interrompia o trabalho para inclinar-se diante dele. Ele não respondia, ignorando-os ao passar de queixo erguido arrogantemente, até que chegasse a seu quarto. Sua mente trabalhava com as informações que conseguiu, planejando seus próximos passos com cuidado. Fechando a porta, Noir alongou o pescoço aliviando a tensão, quando percebeu a presença de Forak mexendo em um notebook. Os dedos do rapaz digitavam rapidamente, o som das teclas ecoando suavemente pelo cômodo, parando apenas quando Noir se aproximou. O príncipe m*l respirou para começar a falar quando foi bombardeado. — Você a viu? Como foi? Ela estava ferida? A ansiedade de Forak era um entretenimento à parte. O canto dos lábios de Noir se ergueram em uma provocação maliciosa. — Não sangrou, se é o que quer saber. Só escorreu um pouco de dignidade. Então podemos dizer que sua raposa está ótima… para alguém que foi presa por bisbilhotar os documentos secretos do Grão-duque. — Noir se aproximou da mesa para se servir com uma dose de conhaque, o gosto forte e quente descendo rasgando por sua garganta — Talvez espionagem não seja o ponto forte dela. Forak franziu a testa, desviando os olhos para a tela do computador ignorando o tom sarcástico do príncipe. — Poderia não colocá-la em riscos desnecessários, por favor? Se precisa de informações eu mesmo posso conseguir para você. — Você a protege demais — Noir deu de ombros quando Forak lançou um olhar afiado. Bebericando o conhaque, Noir optou por deixar suas provocações de lado… por ora — Ela encontrou a certidão de nascimento da garota. Contém o selo de Thuleorana nele. Cruzando os braços sobre o peitoral, Forak inclinou-se contra a cadeira. — Thuleorana? Não acho que isso seja algum problema. Só ouvi falar sobre o templo… — É um território dentro de Islerus, mas que é independente. Temos um acordo de paz, eles fornecem ajuda com os mais pobres e nós fornecemos segurança. Não são uma ameaça politicamente falando. — Então isso seria uma pista por que…? Percebendo que Forak não seguia a sua linha de raciocínio, Noir deixou o copo vazio sobre a mesa e se aproximou dele. Apoiando-se no encosto da cadeira, o príncipe inclinou-se para baixar sua voz. — Porque Khait Arbane não teria motivos para esconder uma jovem de uma nação aliada. A menos que o problema não seja a filha, e sim… a mãe. Uma expressão de realização surgiu no rosto de Forak. Imediatamente ele virou-se para o computador, abrindo arquivos sobre o Grão-duque. O PDF contendo suas informações compiladas se abriu na tela, e Forak deslizou procurando algo específico. — Mesmo que legalmente ele jamais tenha se casado, deveria haver pelo menos rumores sobre o seu envolvimento com mulheres. Mas nunca consegui algo sobre. Na verdade, os informantes sempre falam a mesma coisa, que o Grão-duque não dá a******a para as mulheres que se atrevem a se aproximar. — A garota não veio de uma cegonha. Ela é filha biológica dele. Se ela nasceu em Thuleorana, então lá deve conter registros da mãe — Noir afagou o ombro de Forak — Tente seguir essa linha e busque algo. Um arrepio subiu nas costas de Forak, como se uma péssima sensação de possível ameaça o avistasse de longe. — Por que você mesmo não procura, Alteza? — Tenho servos leais para isso. Se não quiser, tudo bem — Noir caminhou até a janela, onde encostou-se na parede ao lado e cruzou os braços — Posso pedir para Khaos. — Eu faço!!! — Forak respondeu prontamente, largando-se contra a cadeira. — Alteza, poderia não nos tratar como seu garoto de recados? Sabe Deus até onde terei que procurar por essa informação. Mas você também não deveria se esforçar um pouco? Não é justo que apenas jogue os problemas em nossos colos. — Não ficarei parado também, se é isso o que te preocupa. Olhando sobre o ombro, Noir tinha a visão do Jardim Branco da Mansão Arbane. Sim, ele também tinha que averiguar algo. Algo que somente ele poderia fazer. Ainda era um mistério como aquela voz surgiu tão repentinamente desde o momento em que ouviu sobre aquela garota pela primeira vez. Toda vez que a encontrava na mansão, a voz fantasmagórica surgia na sua mente, repetindo ordens que pareciam tomar o controle do seu corpo. Ordenando que a tomasse. Dificilmente era um homem que se importava com mulheres. A menos que fosse para conseguir algo que fortalecesse a sua posição como príncipe, nem perderia seu tempo com frivolidades. Mas aquela garota… ela tinha algo intrigante que o irritava. — O que você descobriu com os empregados da mansão — perguntou Noir, sua voz saindo mais grave do que esperava. Forak o observou pelo canto dos olhos, desviando-os de volta para a tela do computador, onde continuava a digitar. — É uma bastarda renegada, carente de atenção. Disseram que costuma se prostrar aos pés do Grão-duque e implorar pela sua atenção. E parece que ele sequer a deixa cuidar dos negócios da família, assim como restringe suas saídas. Os dedos de Noir se fecharam em punho inconscientemente. O olhar vagueava pelo jardim branco, perdido em pensamentos. E como se o ar gelado tivesse moldado a sua silhueta só para atormentá-lo, como se fosse uma miragem criada pela voz fantasmagórica, Luena Arbane surge no jardim branco. Por causa do clima invernal do Sul, floresciam ali espécies raras de plantas capazes de suportar as temperaturas mais cruéis. O solo coberto de branco não matava sua beleza, mas a moldava em algo singular. O jardim branco da Mansão Arbane era um espetáculo de arbustos carregados de espinhos que guardavam flores de pétalas tão finas que pareciam prestes a se dissolver no ar frio. Lá embaixo, Luena Arbane caminhava entre os arbustos. Havia algo de fantasmagórico em seus movimentos, a ausência de som quando seus pés tocavam o chão, a aura etérea que parecia preencher o espaço. Ela se sentou em um banco afastado, abrindo um livro no colo. Tome-a!! Tum-tum! Possua!! O seu coração batia forte em seu peito, de um jeito que jamais sentira antes. Chegava a doer quando a via, e sua mente ficava confusa. Desde o momento em que pôs os olhos nela durante o ataque, Noir tinha vontade de capturá-la e destruí-la, só para se livrar daquela sensação tão agonizante. A voz do desejo ficou presente mais uma vez, sussurrando no fundo de sua mente como tentando-o. Uma rajada de vento balançou os cabelos da senhorita, expondo o pescoço alvo. Noir sentiu sua garganta se fechar e os dedos apertarem em seu braço. — Sinto que estou caçando um raro cisne — murmurou Noir, sem desviar os olhos do lado de fora. A tentação de seduzi-la não vinha de desejo, mas da sensação de que ela guardava algo que poderia ser útil. Afastando-se da janela, Noir foi até o cabideiro e pegou seu sobretudo e o vestiu, passando a passos pesados por seu amigo — Vou sair um pouco, Forak. Se ela é uma tola carente de afeto, não será difícil arrancar alguma coisa. Seu movimento era final, o contraste entre a calma aparente e a fúria em seu peito visível apenas na maneira como ajeitou o sobretudo, com uma precisão quase violenta. — Vou sair um pouco, Forak. Se ela é uma tola carente de afeto, não será difícil arrancar alguma coisa. Forak finalmente ergueu o rosto do computador, uma ruga de preocupação entre as sobrancelhas. — Alteza, tome cuidado. O Grão-Duque a mantém isolada por um motivo. Não a subestime, mesmo que ela pareça um "cisne" assustado. Noir abriu a porta do quarto com um estrondo silencioso, o metal frio da maçaneta pressionado sob seu aperto. Ele olhou por cima do ombro, e seus olhos avermelhados encontraram os de Forak em uma promessa sombria. — Eu não subestimo nada, Forak. Mas sei que o silêncio dela guarda um segredo que vale mais que todas as joias do palácio. E eu o terei. O príncipe saiu, mas parou abruptamente na porta. Isso porque ele se deparou com alguém que o irritava. Aquele homem de vestes bem passadas e cabelo meticulosamente penteado para trás se aproximava de peito estufado. A arrogância estampada em cada passo seu já era o suficiente para Noir não gostar de Ecloir Florian. Principalmente porque ele era um sem vergonha que não escondia a própria prepotência. — Alteza, eu estava prestes a chamá-lo. Finalizei as primeiras investigações que sugeriu, e devo admitir que realmente houve uma imensa falha entre nossos guardas. Cruzando os braços, Noir ergueu a sobrancelha incrédulo. — É mesmo? Então os "seus" guardas realmente deixaram um intruso ficar e colher informações? Percebendo a falha em suas palavras, Ecloir pigarreou e baixou seu tom de voz. — Já notifiquei o jovem mestre Khalid, que deve chegar em breve na mansão. Um pente fino está sendo passado entre os seguranças para encontrarmos o espião, mas já temos uma suspeita presa, então acredito que não correremos mais riscos. Uma suspeita… Noir tinha a impressão que se referiam a Khaos. Era uma boa notícia que eles não a ligaram com ele, caso contrário seria uma verdadeira dor de cabeça. Além disso, logo ela escaparia da prisão, então o assunto se daria por encerrado. O que significa que o segundo espião, provavelmente a mando do Duque Ivorak ou da Rainha Ravena, ainda perambulava a mansão. Só que isso não o incomodava mais do que o homem parado na sua frente. Como poderia irritá-lo o suficiente para que se recolha na sua insignificância? — Bom trabalho, Barão Florian, continue assim. Aliás… poderia me dizer onde está a senhorita Arbane? Imediatamente o semblante de Ecloir estremeceu. O canto do seu olho tremeu, o que satisfez Noir. Ele sabia reconhecer um falso sorriso. — A senhorita? Receio que ela deva estar no escritório estudando os materiais que dei a ela. Sabe como é, uma aluna muito dedicada para conseguir elogios do seu mestre. — Claro. Mas como ela é uma Arbane, gostaria de me encontrar com ela para discutir alguns assuntos. Noir passou por Ecloir, mas o homem foi insistente em segui-lo apressadamente. — Alteza, talvez seja melhor esperar pelo jovem mestre Khalid. O secretário dele disse que seu avião já pousou e… Parando os seus passos, Noir mirou os olhos avermelhados para o barão. Uma mensagem clara e direta para não tentar a sua sorte. Ecloir estremeceu e piscou levemente surpreso, já que NOir disfarçou a ameaça com um sorriso amigável segundos depois. Foi uma ameaça tão rápida e silenciosa, que Ecloir se questionou se foi real ou não. — Obrigado pelos seus serviços, barão. Pode voltar aos seus afazeres, que eu mesmo encontrarei a senhorita Arbane. Noir não esperou pela resposta. Ele continuou a caminhar, deixando Ecloir paralisado no corredor, mastigando o insulto velado. O príncipe sentia o peso daquele olhar invejoso nas suas costas, mas aquilo apenas alimentava seu senso de superioridade. O Barão Florian era irritante, mas útil. Sua tentativa óbvia de protegê-la — ou, mais provável, de guardar a garota para si, como um mestre guarda sua aluna — confirmava que Luena era uma peça valiosa. Noir desceu a escadaria principal. Seus passos não pararam até atingir as portas de vidro que davam para o Jardim Branco. Ele a viu sentada no banco, absorta na leitura. A voz voltou, mais forte, mais urgente: Possua-a! Ele precisava se aproximar. Precisava entender por que sua racionalidade, tão afiada, estava sendo corroída por essa obsessão irracional. Ecloir havia tentado impedi-lo, Khait tentava escondê-la, e sua própria mente o estava traindo. Não era mais apenas sobre a coroa; era sobre silenciar o caos que ela despertava em sua cabeça. Noir abriu as portas e, ignorando o frio cortante do inverno, caminhou em direção ao seu alvo.
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