A entrada do Jardim Branco era simples, com estruturas de pedras medianas indicando o início do caminho. Ali ele parou e olhou em volta, um pouco surpreso pelo silêncio naquela parte. Não dava para ouvir os funcionários martelando nos fundos, ou os murmúrios dos seguranças comentando sobre a invasão. Apenas uma calmaria sem igual.
Ele diminuiu o ritmo dos seus passos. Noir enfiou as mãos no bolso do seu casaco preto e com confiança ele seguiu o seu disfarce.
— Ha… um jardim assombrado escondido sobre a beleza é a cara do Grão-duque.
— Parece conhecer bem o gosto do Grão-duque.
A voz baixa não o assustou. Noir olhou sobre o ombro, percebendo a mulher sentada de pernas cruzadas e atenção "focada" no livro. Não seria a primeira vez que a via ‘intacta’, mas, por alguma razão, o coração dele respondeu antes da mente. Um reconhecimento silencioso, como se já tivesse a visto sorrir daquele jeito em outro tempo.
Para começar, o pescoço alvo que fazia os seus fantasmas sussurrarem feito loucos dentro de sua mente. Nem mesmo os cabelos pretos e o cachecol pesado parecia cobrir aquele pequeno pedaço de pele. Lembrou-se, inclusive, da sensação de ter o fino pescoço dela entre seus dedos, quando a viu pela primeira vez.
Sem perceber, os seus dedos cerraram em punho dentro do bolso do seu casaco.
Certo… o que ele veio fazer aqui mesmo?
A demora da resposta dele fez com que Luena erguesse os olhos para os Noir. Lembrando-se de respondê-la, virou-se lentamente e arqueou a sobrancelha tentando disfarçar o seu incômodo.
— Cuidado e delicadeza a detalhes não são do feitio dele. E nem dos homens no geral.
Luena soltou um riso baixo, fechando o livro após marcar a página. O som de sua risada o pegou um pouco desprevenido, pois não achou que teria dito algo realmente engraçado.
— Se um homem diz isso, quem sou eu para negar? — deixando os braços sobre o livro, Luena inclinou a cabeça o encarando inocentemente — Ainda assim, você está aqui admirando a beleza e delicadeza. Imagino que os homens não são imunes a tal.
Noir deu um passo próximo, gesticulando para o espaço vazio no banco. Ela apenas concordou com a cabeça e ele sentou-se ao seu lado, tendo um espaço respeitável entre eles. Noir ficou completamente relaxado no banco, observando em volta do jardim percebendo os seguranças escondidos mantendo a guarda alta com a sua presença.
Possua!
Toque-a!
Clame aquilo que sempre te pertenceu!
Engoliu em seco, tentando focar nas finas pétalas das flores. Mas era como tentar conter fogo com as mãos. As vozes não falavam apenas — elas queimavam sob sua pele. Uma urgência em desviar sua atenção se espalhou no seu corpo, como se fosse perder o controle caso não o fizesse. Os dedos se fecharam ainda mais em seu bolso, restringindo o súbito desejo que aquele fantasma trazia.
Mas a garota também não ajudava.
Até mesmo o jeito como ela falava soava misterioso. Noir não sabia explicar o que estava acontecendo consigo para não tirar os olhos dela. Ia além de prestar atenção numa conversação. Pois ele observou como suas mãos se moviam suavemente ao falar, num gesticular ponderado e delicado. Ou então na forma como ela o olhava garantindo que tinha sua atenção.
— Veio para o jardim admirar as flores depois de terminar com suas investigações? — ela perguntou, tentando esconder falhamente a sua curiosidade — Ou… veio verificar se estou fazendo a minha parte do nosso acordo?
Perigosa e esperta. Ela o observava como se pudesse ver através dele — e isso, mais do que qualquer provocação, o desarmava. Não era medo o que sentia. Era reconhecimento. Uma sensação perigosa de que aquela mulher o compreendia demais. Noir encontrou um pouco de alívio nas perguntas dela. Era nítido que ela queria alguma coisa dele,
Um vento gelado passou por eles, e Noir ajeitou a gola do seu casaco para se esquentar. O mero enroscar dos seus próprios dedos em seu pescoço o surpreendeu, pois sua mão estava quente demais.
Espiando-na pelo canto dos olhos, Noir percebia a proximidade entre eles. Em que momento ela tinha chegado perto? Ele não saberia dizer. Porém, não a afastaria já que estava curioso para saber o que ela pretendia.
— Não me provoque, senhorita Arbane — Noir inclinou-se na direção dela, murmurando rouco. Ele percebeu o leve estremecer dela, satisfazendo um pouco do seu orgulho — Minha impaciência, afinal, nunca foi uma de minhas virtudes.
— Nesse caso, me permita fazer uma uma nova proposta — Luena ficou séria repentinamente. Seus olhos cinzas claros brilharam como diamantes para Noir, o que o intrigou sobre o que poderia deixá-la tão séria. — Ao invés de conseguir o afeto do Grão-duque, há outra coisa a qual desejo ainda mais. E que apenas você pode me dar.
Algo que somente ele poderia dar… aquelas palavras soaram bem aos ouvidos de Noir. Apoiando o queixo sobre a palma da mão, o príncipe deu a ela o seu interesse no assunto.
— E o que seria? Riquezas? Algum território?
— Sua p******o, não apenas a mim, mas para toda a minha família.
Um sorriso surgiu nos lábios de Noir.
— p******o? Ha… hahaha… Considerando a força militar dos Arbane, a última coisa que precisam é da minha p******o.
Ela sorriu em resposta, talvez também achando engraçado o próprio pedido. Luena levantou-se do banco e deu alguns passos pelas pedras, que só tinham uma leve camada de neve. A ponta do seu dedo tocou suavemente uma pétala de flor.
— Você quer obter o segredo dos Arbane e usar para si mesmo. Porém, nada garante que nos manteremos seguros no futuro. Já que, em tese… você não sabe como usar as armas que tem em mãos.
Os olhos de Noir se cerraram e a diversão de antes só aumentava.
Aquele belo cisne estava se revelando um verdadeiro monstro.
Como ela sabia? Por acaso a renegada filha do Grão-duque tinha seus meios? Ou era tudo uma fachada para enganá-lo? Noir poderia pintar diferente cenários, mas nenhum deles parecia ser a resposta certa.
Ele veio até ela para arrancar verdades e informações. Se tivesse sorte, a usaria. Só que agora o jogo virou de um jeito interessante e inesperado.
— Duvidando da minha capacidade, isso certamente fere o meu orgulho. — Noir cruzou os braços sobre o peito, e inclinou-se para trás — Pois bem. Mas é claro, se não for grandes coisas isso o que esconde, então nem perderemos tempo com essa negociação.
Luena girou cuidadosamente para encará-lo. Dando meros passos, parou diante dele e se agachou diante de suas pernas. A proximidade o fez congelar, a tormenta interior apenas aumentando quando podia sentir o cheiro do seu shampoo.
— Apenas Khalid e o Grão-duque sabem disso. Ninguém mais sabe… mas estou disposta a contar para você, Alteza. Porque confio em você.
— Decisão horrorosa — ele murmurou com um sorriso de canto, inclinando-se para perto dela, como se quisesse testar os próprios limites — Conte-me.
Luena ficou em silêncio por um instante, apenas o vento invernal balançando os cabelos lisos e pretos, espalhando seu perfume entre eles. Noir chegou a pensar que ela poderia querer hipnotizá-lo, mas quando os lábios avermelhados se abriram, ele ficou incrédulo.
— Trata-se de uma habilidade ancestral. Eu posso voltar no tempo.
Apenas o som do vento passou por eles, e Noir fez uma careta entediada.
— Misericórdia, o exílio e o inverno não fez bem para ti, não é?
Ela riu docemente, sem sair de sua pose.
— Você foi levado para o Vale de Ébano por ter quase matado o seu meio-irmão, o príncipe Haeron. Você sabia que era uma armadilha, e mesmo assim escolheu tentar matá-lo—… AGH!!!
Os dedos de Noir se prenderam ao redor do pulso de Luena. Seu braço chegava a tremer e a esquentar com o pulso acelerado. Os olhos de Noir estavam arregalados ameaçadoramente.
— Está zombando de mim? Como raios você sabe sobre isso?
Luena se debateu sob o seu toque, tentando se livrar do aperto em seu pulso. Ela ergueu os olhos furiosamente para Noir, escolhendo enfrentá-lo.
— Foi você mesmo quem me contou sobre ter hesitado.
Os dedos dele se apertaram ainda mais.
Como ela sabia?
Por acaso Khait Arbane tinha espiões na capital? Teria calculado erroneamente alguma coisa? Estava sendo zombado e usado por aquela garota? A sua cabeça calculava diferentes respostas que justificassem qualquer erro cometido.
— Alteza…
Deveria matá-la por zombar dele.
Devore-a!
Possua!!!
Os dois se olhavam nos olhos, e por um instante ele viu algo ali. Como se um ponteiro de um relógio estivesse dentro do olho direito de Luena. Ele a soltou chocado, franzindo a testa sem saber se o que vira era real ou uma peça pregada por sua mente.
Luena acariciou o pulso dolorido. Seus ombros tremiam, e Noir recriminou-se por perder o controle contra uma simples garota.
Ele se levantou rapidamente do banco. Precisava sair dali o quanto antes. Aquela voz ficou silenciosa agora, mas se voltasse a tormentá-lo, poderia acabar segurando bem mais que um simples pulso.
— O que raios está acontecendo comigo? — murmurou Noir, esfregando a mão no rosto em uma expressão sombria.
Dando alguns passos para ir embora, ele foi impedido quando Luena agarrou o seu braço. Novamente ele a olhava, surpreendendo-se com a determinação mesmo depois do que aconteceu.
— Me solte. Não estou com paciência…
— Não existe ninguém nesse mundo, além de mim, que sabe o que acontece no futuro. Em todo futuro que presenciei, em nenhum deles você se sentou no trono. Tudo porque falhou em usar… em me usar.
Do que raios aquela garota estava falando? Por acaso realmente queria perder a vida com baboseiras como aquelas? Só que ao mesmo tempo Noir não poderia se dar o luxo de perder peças para aquele jogo.
Estava entre a cruz e a espada. E ambos eram segurados por aquela garota.
No silêncio que se seguiu, algo frio e sólido se assentou em Noir. Aquele sentimento não era apenas surpresa — era um reconhecimento desconcertante de que alguém lhe dizia a verdade sobre algo que, até então, ele julgava incomunicável. Noir passou os dedos pelos cabelos brancos, num ato de impaciência.
— Se está mentindo, vou arrancar cada palavra de sua boca — disse ele, voz baixa. — Se está dizendo a verdade… então há utilidade nisso.
Luena deu um passo a frente, e segurou o casaco dele. Ela se colocou no caminho dele, o pulso com um leve hematoma não foi o suficiente para abalar a determinação dela.
— Alteza, em troca de manter os Arbane vivos, eu te ensinarei absolutamente tudo sobre essa habilidade ancestral. Te tornarei no homem mais poderoso deste Império, e o trono será seu.
O coração de Noir acelerou diante daquela mulher tão misteriosa. Determinação inabalável, sem nenhum medo ou receio. Uma mulher que não iria se prostrar ao chão e implorar por algo, mas negociar com ele mesmo depois do que aconteceu.
Então, pela primeira vez, ele pensou que ao invés de capturar um cisne, ele acabou sendo capturado pelo próprio tempo.