Depois daquele encontro no Jardim Branco, Luena sonhou. Um sonho doce e precioso a qual jamais se esqueceria.
— Uma flor pode conter espinhos, e muitos pensarão que se trata de uma beleza inalcançável. Mas no fim é apenas um teste para saber o quanto de dor um homem pode aguentar para manter a sua bela flor viva.
Noir disse aquelas palavras enquanto segurava uma rosa cheia de espinhos. Os seus dedos estavam arranhados por tentar arrancá-la da roseira, ainda assim ele segurava o seu calor com força, rejeitando qualquer ideia de abandonar a flor.
E assim ele a estendeu para ela.
Luena segurou a rosa e sentiu o seu coração acelerar como uma tola. Os seus olhos, que já estavam inchados e avermelhados de tanto chorar, se encheram de lágrimas mais uma vez. Dessa vez, a tristeza perdeu a batalha para uma emoção nova, que fazia cócegas no peito de Luena.
— Alteza… Por que me faz sentir como se eu fosse a mais bela de todas? Isso é tão injusto… eu não aguento esse sentimento.
A mão dele tocou o rosto dela, suave e delicadamente. Noir enxugou suas lágrimas, e assistiu a jovem esfregar a bochecha na palma de sua mão. Um terno sorriso surgiu em seu rosto, que trouxe um calor suave para uma vida acostumada com o frio invernal.
— Me chame pelo meu nome, Luena. Sabe o que isso significa, certo?
O coração dela acelerou novamente, e sua mão trêmula segurou a de Noir, mantendo o seu calor contra seu rosto. A ganância a fez desejar jamais abandonar aquela mão. A fez orar para que jamais perdesse o calor que finalmente conquistara.
Aquele belo homem, de olhos flamejantes e cabelos brancos, com expressão afiada e ternura no olhar… que aquele homem jamais desviasse os olhos dela. Pois no instante em que ele entregou a rosa para ela, Luena sabia que havia se apaixonado por ele.
Abrindo os olhos, ela sentiu a lágrima solitária deslizando por seu rosto. Encarando o teto por um momento, ela demorou algum tempo para compreender a situação, mas o nome ainda escapou dos seus lábios.
— Noir…
Aquele foi o momento em toda a sua vida mudou, para girar em torno daquele homem. Um riso escapou dos seus lábios quando Luena esfregou os olhos para enxugar as lágrimas.
— No final das contas me tornei o pior tipo de mulher… a que se agarra a um homem e implora por sua atenção — sentando-se na cama, Luena checou a hora em seu celular. Mesmo depois de acordar, ela ainda sentia aquela cócega em seu peito. Abraçando suas pernas, ela suspirou pesado — Para não me sentir tão patética, eu deveria te fazer vir até mim dessa vez?
Sem tempo para se perder em memórias, Luena obrigou-se a levantar da cama. Precisava se certificar de que seu plano desse certo, pois ainda não conquistou a confiança de Noir. Ao invés de tentar esconder a sua habilidade de Noir, optou por abrir o jogo logo de início. Precisava fazê-lo acreditar que ela era a peça fundamental no seu jogo político.
Precisava fazer com que Noir se tornasse dependente dela e somente dela.
E assim ficaria satisfeita e vingada.
Luena ligou o computador e procurou pela lista de nobres mais influentes no Império e na Capital. Não era uma informação difícil de se conseguir, já que os sites de fofocas sempre o faziam para aumentar suas visualizações. Além dos furos de reportagens quando acontecia alguma investigação policial sobre corrupções.
A lista era grande, alguns nomes Luena recordava-se de tê-los encontrado em suas vidas passadas quando foi para a Capital com Khalid. Na verdade, foi a sua segunda vida que lhe ensinou sobre os nobres. O casamento com outro homem influente a permitiu estar dentro da alta sociedade por um bom tempo.
— Mas naquela vez a maioria dos nobres que se mantinham neutros optaram por apoiar o Segundo Príncipe… Seria bom mantê-los em mente para fazê-los mudar de ideia — Luena murmurou pensativa, escrevendo em seu caderno uma lista de nomes.
Imersa em seus pensamentos, ela não percebeu quando a criada entrou no escritório, carregando uma bandeja.
— Senhorita, trouxe um pouco de café.
Cuidadosamente ela colocou a xícara sobre a mesa, a criada ergueu os olhos curiosos para sua mestra. Percebendo que ela parecia hesitar em perguntar algo, Luena pegou a xícara.
— Diga, Meliara. Sei que algo está se passando nessa sua cabecinha de vento.
A criada arregalou os olhos turquesas, e abraçou a bandeja com receio. Mas então ela se aproximou e inclinou-se sobre a mesa para sussurrar.
— Senhorita, as criadas estão fofocando a seu respeito de novo.
— Isso deveria soar como uma novidade? O que há de preocupante?
Meliara torceu os lábios suavemente.
— É claro que é preocupante, estão falando sobre a sua vida pessoal, senhorita! Dizem ter visto o Barão Florian resmungando sobre como tem tentado seduzir a Sua Alteza.
O café desceu pelo canal errado, e Luena inclinou-se tossindo. Meliara rapidamente deu a volta na mesa e deu leves batidinhas nas costas da moça.
— Senhorita, calma! Respire fundo, isso…
— Por que eles acham isso? — reclamou enxugando os lábios com um lenço.
Meliara usou um pedaço de pano para enxugar a mesa, e serviu mais um pouco de café na pequena xícara de porcelana.
— Alguns servos a viram ontem no jardim com Sua Alteza. Disseram tê-la visto se ajoelhando e se declarando fervorosamente a ele. E desde o ataque tem sempre sorrido e sendo gentil com ele…
Incrédula, Luena sentiu suas bochechas ficarem quentes. Não era mentira dizer que estava sendo cortês com Noir, o que faria os criados da mansão estranharem. Só que isso não significa que gostaria de ouvi-los fofocando a seu respeito tão descaradamente!
— Haa… ignore os comentários, Meliara. — suspirou a moça, voltando a esfregar os dedos na testa.
— Como poderia? Estão dizendo coisas horríveis a seu respeito, quando está apenas tentando ser uma boa anfitriã — Meliara reclamou, cerrando os punhos ao lado do corpo. — É a primeira vez que te vejo tão contente, e por isso fico preocupada que a Sua Alteza possa entender errado as suas intenções.
Luena queria cavar um buraco e enterrar-se até tudo passar. Apesar dos comentários distorcidos, era verdade que sua intenção envolvia seduzir Noir. Mas não imaginava que sua imagem seria tão desesperada assim.
— Você acha que ele pode ter ouvido os rumores e me entendido errado? — questionou curiosa.
Meliara franziu a testa.
— Isso explicaria o motivo dele tê-la ignorado no jantar ontem à noite. Deve ser realmente incômodo ser alvo de fofocas.
Bem… realmente houve uma tensão durante o jantar. Luena agiu como sempre e foi cortês com ele, mas Noir parecia fechado e não lhe deu atenção. Não tinha pensado muito sobre, era nítido que ele ficou bastante surpreso por ela revelar sua habilidade, e agora era hora dele analisar as cartas em mãos e decidir se iria aceitar a proposta de Luena.
Mas agora… com o jeito que Meliara falou sobre os rumores, a situação poderia ser facilmente m*l interpretada.
Apoiando os cotovelos sobre a mesa, Luena suspirou pesado.
— Estou fazendo papel de boba…
Meliara relaxou os ombros e se inclinou abraçando a sua senhorita. Fora um ato inesperado para Luena, mas que ainda assim foi reconfortante.
— Senhorita, seja honesta, por acaso ele é um homem que te agrada aos olhos?
— Você tem um jeito muito peculiar de me perguntar se estou atraída por aquele rostinho, Meliara — Luena riu levemente, e ergueu os olhos para a criada — Mas devo admitir que Sua Alteza é atraente, sim. Fica difícil não olhar em sua direção quando está presente.
— É… o príncipe é realmente muito bonito. Apesar de me parecer assustador.
Talvez ela estivesse tão acostumada com Noir, que se esquecera de como ele parecia intimidador para os demais. Numa primeira impressão, Noir sempre iria avaliar as outras pessoas silenciosamente. E quando o faz, ele tem uma expressão fria no rosto, como uma sombra cobrindo-o e apenas aqueles olhos quentes brilhando intensamente. É como se ele estivesse te amaldiçoando silenciosamente.
— Mesmo parecendo assustador, isso não é melhor? — murmurou Luena perdida em pensamentos.
Meliara franziu a testa em horror.
— Senhorita! Não me diga que o seu gosto para homens…
Luena a encarou inocentemente, percebendo a expressão confusa e indignada de sua criada pessoal. Um fino sorriso surgiu em seus lábios.
— O meu gosto para homens é tão estranho? Bem, nunca se sabe o que uma fera pode esconder.
— Senhorita, devo rezar por você? Ainda há esperanças…
Luena riu. Não se lembrava de Meliara ser tão preocupada assim. Na verdade, nunca prestou atenção nela. Luena sempre ignorou os criados da mansão, pensando que ninguém sentiria a sua ausência.
Contudo, agora estava mais ciente da presença de Meliara. Talvez fosse por estar mais sensível em seu quarto retorno, mas Luena percebeu que sua criada conhecia bem os seus gostos, atendendo suas necessidades prontamente. Uma mulher silenciosa e carinhosa, sempre com um sorriso gentil no rosto.
Não seria r**m confiar em Meliara, seria?
— Sim, por favor reze por mim. Quem sabe as coisas boas que podem me acontecer dessa vez.
— Então realmente deseja… cortejá-lo?
Como poderia a sua criada pessoal ser tão adorável? Luena percebia apenas agora aqueles olhos brilhantes e inocentes, o rubor sutil nas bochechas que a tornavam quase numa adolescente fanática por romances. Apesar da pouca diferença de idade entre elas, Meliara ainda tinha uma inocência charmosa ao falar palavras tão rebuscadas.
Deveria conversar mais com Meliara. Aqueles poucos minutos havia tirado um grande peso dos seus ombros.
— Se está se referindo a me tornar próxima dele e tentar flertar… sim. — Luena encostou-se na cadeira e cruzou os braços — Seria uma pequena aventura durante a ausência do meu pai e do meu irmão. Além disso, eu poderia tirar Ecloir de perto de mim.
Meliara fez uma careta desgostosa à menção de Ecloir, sendo completamente transparente à sua aversão ao homem. Logo o seu repúdio fora substituído por uma animação pueril, agachando-se ao lado da cadeira de Luena e segurando o seu braço gentilmente.
— Nesse caso, senhorita, não deveria fazer como aquelas protagonistas de romance? Se um homem não demonstra interesse, finja não ter interesse também.
Cética, Luena inclinou a cabeça.
— Tenho minhas dúvidas se isso realmente funciona.
— Na minha opinião, a senhorita combina muito mais como uma mulher fria e distante, mas que sabe ser sensual e elegante. Agir feito uma mulher perdidamente apaixonada e desesperada não combina com você.
O conselho de Meliara tinha um enorme peso, pois Luena se sentiu envergonhada por parecer desesperada na frente do príncipe. Porém, era inevitável negar a excitação só de pensar que fingir estar longe do alcance de Noir só para vê-lo desesperado atrás dela.