Andaram por um bom tempo para o leste da cachoeira, e apesar de o caminho ter sido tranquilo, ficaram com medo de aparecer algum animal selvagem e atacá-los e decidiram não pararem por enquanto. Mas eles faziam ideia do que os aguardava.
Seguiram caminho por entre as árvores, estavam em silêncio, cada um pensando numa coisa diferente, mas todos com o mesmo foco. Tentaram ficar felizes por estarem a ir ao encontro do fim do jogo do livro mágico, porém, faltava uma componente do g***o, e não ficariam bem enquanto ela não estivesse com eles.
O jogo não era muito previsível, então não dava para saber se alguém ficaria para trás, poderiam ser pegados de surpresa no final do jogo, e não estavam preparados para o pior, não se sentiam preparados para nada, só contavam com a esperança de que consigam sair daquilo ilesos.
— Tem certeza que aqui é leste? — perguntou Andrei, pois, estava com pressa para encontrar logo o ponto final e há muito tempo que caminhavam.
— Da cachoeira? — indagou Talita. — É sim. Você não tem um bom senso de direção?
— Eu compreendo o Andrei, Talita, é que está demorando muito de chegar — reclamou Renata. — Vai escurecer, não quero ter que dormir no meio do mato e estou com fome.
Andrei sorriu.
— Já estava esperando a Fernanda fazer um comentário m*****o, ela faz falta.
— Faz mesmo.
— Não dá para descansarmos só um pouquinho? — perguntou Demétrio.
— Disse o atleta — falou Andrei. — Você é atleta mesmo?
— E faço natação, o meu negócio é usar os braços, e as pernas também, mas as exigências é com os braços.
— Vocês têm certeza que querem parar aqui? — questionou Octávio a mostrar o lugar de maneira dramática com o seu braço de mármore. — Não parece seguro.
Sem mesmo responderem, Renata já havia retirado um lençol de dentro da mochila de Fernanda e Andrei a ajudou a estendê-lo no chão, retiraram os seus sapatos, pegaram as sacolas e deliciaram-se com o que tinha para comer. Em seguida, Demétrio fez o mesmo e por fim, o casal, se curvou à pressão dos colegas.
— Pensei que estavam com pressa — disse Talita sentada ao lado de Octávio. — Vocês são tão confusos.
— Agora pouco estavam reclamando da demora — disse Octávio. — E o que vocês fazem? Demoram mais ainda.
— É só uma pausa — justificou Renata —, daqui a pouco vamos embora.
— E voltarão a reclamar — disse Talita —, o livro não poderia ter escolhido pessoas mais complicadas.
— Em dez minutos a gente vai embora — disse Demétrio.
— Assim espero — falou Octávio.
Depois disso, apenas esperaram o tempo passar para retomarem a caminhada.
•••
Os dez minutos passaram-se, nada aconteceu, nem mesmo o livro mandou uma mensagem.
— Vida, não era para você estar aqui com a gente — falou Octávio para Talita.
— Já vai começar de novo com essa discussão, Octávio?
— Olha aonde você veio parar. É bem provável que você não vá voltar para casa hoje. O que os seus pais vão pensar?
— Não se preocupe com isso, o jogo logo vai acabar e eu quero estar na hora para ver tudo. Eu me lembro de vocês, eu não pude esquecer, isso deve significar alguma coisa. Sei que não vou dormir em casa hoje. Que seja! Eu nunca fui tão feliz em toda a minha vida como estou sendo agora, não pela situação, mas por sentir prazer em fazer parte disso tudo e poder ajudá-los.
— Poxa! Você tornou tudo melhor agora… — Octávio nem pôde desfrutar do amor por Talita que o seu braço latejou e a magia tornou em mármore a sua mão cerrada e também o ombro, chegando bem perto do pescoço, tomou até mesmo o seu peito.
Talita ficou preocupada e levantou-se imediatamente.
— Gente, acabou o tempo, vamos logo embora.
— Por quê? — perguntou Renata.
— Porque Octávio está virando uma estátua de mármore por causa de vocês. Chega de moleza, levantem.
— Quando foi que você ficou tão mandona? — perguntou Renata um pouco intimidada com Talita.
— Sim! Quem te colocou como líder? Você nem faz parte do "Clube do Livro" — falou Demétrio fazendo com que Renata e Andrei dessem risadas.
Talita se estressou, cerrou um punho e com a outra mão segurou bem forte pela gola da camisa de Demétrio. Ela ameaçou-o com um soco.
— Se você não levantar esta "b***a mole" daí eu vou quebrar esse seu nariz gigante que você finge não se incomodar porque se acha lindo demais.
Talita não era uma garota violenta, porém, a preocupação com o seu namorado a fez tomar atitudes que normalmente não tomaria, e tudo tem a sua primeira vez. Demétrio fingiu não ter se importado com a ameaça, mas, na verdade, ele ficou com medo dela.
Não demorou muito para os outros se levantarem às pressas e arrumarem as suas coisas para a partida. Octávio abraçou a sua namorada por trás com o braço são e disse-lhe que ela era a melhor pessoa do mundo.
Arrumaram as coisas e voltaram a caminhar. Talita olhava para trás sempre que tinha um pressentimento, ela sabia que era a bruxa que os seguia e os vigiava de longe. Ela tentou ignorar, mas era a única que via coisas, e não podia compartilhar.
•••
O que os fazia ter a certeza de que permaneciam a andar para o leste era que bem de longe dava para ver a cachoeira correr, agora parecia ser uma miniatura. Chegaram a um momento em que as árvores começaram a atrapalhar a vista.
O sol estava se pondo aos poucos e a noite estava prestes a anunciar a sua chegada com o crepúsculo. Teriam que se apressar antes que a noite caísse e eles ficassem no escuro da floresta, a menos que Demétrio pegasse fogo outra vez.
— Será que vamos ter que dormir na floresta? — questionou Renata. — Não sei se vou suportar.
— Deus queira que não, ia ser h******l — disse Andrei.
— Já dormiu numa floresta?
— Não, mas nesses dias, não tenho dormido direito. Aqui eu nem pregaria o olho.
— Vocês não têm o direto de reclamar — falou Octávio. — Vocês quiseram parar a cada oportunidade.
Depois da correção do rapaz, os outros não tiveram nem coragem para respondê-lo. Decidiram falar sobre outras coisas para quebrar o clima tenso.
Enquanto conversavam sobre voltarem para as suas casas e para as suas famílias e os seus aconchegos, de longe, no pico do barranco, Talita avistou alguém andar por entre as árvores até perceber que não se tratava de alguém, mas de algo.
— Gente! — ela sussurrou estatelada e fez todos pararem de andar para encararem-na.
— O que foi, amor? — perguntou Octávio.
— Shhh! — exclamou? — Fala mais baixo — ela apontou com o dedo. — O que é aquilo ali?
Todos olharam na direção, a criatura ambulante estava nua, parecia ter alopecia de tão careca, exceto por alguns pelos espalhados em locais específicos, a sua pele era flácida, murcha, o seu corpo era envergado e a sua pele era banca azulada, o seu rosto era desfigurado, não humano, lembrava um morcego bem doente e as suas orelhas eram pontudas. Ele envergava-se tanto que parecia andar sobre as quatro patas, os seus braços estavam pesados devido às suas enormes garras.
O pessoal sentiu um enorme calafrio. Correram todos para uma f***a no solo causada por uma erosão e esconderam-se.
— O que é aquilo? — sussurrou Renata desesperada.
— Deve ser mais alguma criatura do livro — respondeu Demétrio.
— O livro alertou algumas coisas sobre ele? — questionou Talita.
— Não, mas podemos checar — disse Octávio.
— O que é aquilo, meu Deus? — Renata não conseguia se controlar, estava prestes a entrar em pânico.
— Gente, vamos ficar aqui até ele ir embora — sugeriu Demétrio.
— O problema é que ele continua ali, está procurando alguma coisa — disse Octávio.
Eles espiavam a criatura com as cabeças acima do solo.
— Está procurando comida, tenho certeza — disse Talita. — Parece um vampiro.
— Se for um vampiro então estamos encurralados — disse Andrei.
— Não seja pessimista — repreendeu Octávio ofegante. — A gente precisa sair dessa. Chamem a bruxa.
— Gente, vamos ficar tranquilos — disse Talita. — Quanto menos chamarmos atenção, melhor será para a gente sair dessa… — ela própria interrompeu-se ao perceber que Demétria fumegava. — Desliga essa fumaça, garoto.
— O quê? — até então, Demétrio não havia percebido que saía fumaça do seu corpo. — Não estou controlando isso.
— Fique calmo, Demétrio está muito nervoso, vai acabar pegando fogo… — falou Octávio, porém, tarde.
Demétrio pegou fogo, não havia como a criatura não ter notado, chamou atenção na hora. A criatura viu a fogueira ambulante, urrou e correu na direção deles.
— Não! — gritou Renata e chorou a dizer que morreriam.
Demétrio tomou a atitude mais corajosa e pediu que eles permanecessem juntos, subiu à f***a e foi enfrentar a criatura.
O mostro parou de correr e diminuiu os passos, Demétrio tentou espantá-lo com gestos dos braços em chamas, mas a criatura não fugiu, apenas sibilou para ele de longe. Demétrio não sabia o que fazer, até que os pingos de fogo atingiram o monstro que recuou.
Demétrio olhou para as mãos e pensou se poderia soltar bolas de fogo, então, e se posicionou e tentou soltar uma quantidade considerável contra o bicho, gesticulou os braços como se fosse um personagem de Dragon Ball Z, porém, o fogo apagou-se totalmente do seu corpo.
— Ops! — exclamou antes de correr e voltar para a f***a, para os seus amigos, muito desesperado para salvar a sua vida. — Sempre comigo — gritou consigo próprio.
A criatura urrou e correu em direção a Demétrio, no entanto, nenhum dos seus colegas tiveram a coragem de correr e deixá-lo para trás, nem mesmo Renata.
Quem sabe, Fernanda já estivesse em fuga.
Assim que Demétrio se jogou para a f***a, como se ali fosse o lugar mais seguro do mundo, uma bola de raio cósmico atingiu a criatura nos pés e ela voou para longe. De repente, Asqueva apareceu voando com a sua capa e o seu bastão brilhante. O pessoal comemorou, não pela presença da bruxa, mas por estarem salvos do perigo.