Renata chamou os seus amigos para verem a nova página do livro. Ela leu:
— "No fim do túnel encontrarão o que precisam, entretanto, um trauma terá que ser superado para obter aquilo que vos libertará do encantamento, ou seja, um de vocês terá que descer."
Ficaram parados, um olhando para a cara do outro, a esperar que alguém dissesse alguma coisa inteligente.
— Lá vem mais traumas — comentou Octávio. — Espero que não seja comigo de novo — ele olhou para o seu braço, virava mármore.
— Temos que descer o túnel, meus amores — comentou Fernanda. — Alguém aqui tem medo de túneis.
— Gente, que túnel? — perguntou Talita.
Assim que ela terminou de fechar a boca, um buraco foi se abrindo no chão diante deles e tiveram que recuar para não caírem.
O buraco era muito grande e tinha um raio de quatro metros, tinha uma rampa que facilitava a descida.
•••
Os jovens ficaram um pouco apreensivos, mas tiveram que descer já que era uma ordem do livro mágico. Quando desceram ao buraco com todas as sacolas de comida e as mochilas nas mãos, ficaram parados diante de um túnel que estava tão escuro que os fazia não se sentirem confiantes, menos ainda seguros.
— Alguém tem trauma de lugares apertados e escuros? — perguntou Demétrio, mas todos responderam que não, na verdade, fizeram caretas. — Deixa eu formular melhor a pergunta: alguém confia em caminhar por este túnel? — negaram essa pergunta também.
— Acho que nem todos nós precisamos ir pelo túnel, apenas o que tem trauma — comentou Fernanda.
— Ou é você, ou o Demétrio — disse Renata —, os únicos que ainda não pegaram uma pedra.
— Eu não tenho medo de túneis, apesar de estar escuro e vazio, e não saber o que se pode encontrar por aí...
— Não, meninas — falou Talita — vocês entenderam errado. Todos têm que atravessar o túnel.
— Mas aqui diz que apenas "um terá que descer" — insistiu Fernanda.
— Descer de algum lugar que não foi explicado, não pelo túnel. Estamos todos aqui agora. O único problema é que está muito escuro.
— Tudo bem, se você está dizendo.
— Gente, cadê as velas e os fósforos que compramos? — perguntou Renata.
— Virou cinzas com a casa, minha filha — respondeu Fernanda e ela se voltou para Demétrio. — Você n******e pegar fogo de propósito para iluminar o nosso caminho não, meu amigo curupira?
— Eu não sei controlar isso, não tem botão de ligar e desligar como você pensa... — De repente, Demétrio começou a pegar fogo e assustou aos seus colegas. Quem mais ficou impressionada foi a Talita, foi a primeira vez que ela viu a magia do livro atuando daquele jeito. — d***a, eu preciso me acostumar com isso.
— Gente, que incrível — comentou Talita. — Isso não te queima, Demétrio? Não incomoda?
— Nem um pouquinho, na verdade, sinto um calor tão confortante.
— Vamos embora, princesa? — falou Fernanda com o Demétrio.
Demétrio foi na frente, o caminho foi iluminado, mas não tinha nada de mais. Era um túnel comum, mas parecia que foi escavado com uma máquina muito avançada.
•••
Passaram-se vinte minutos e eles continuavam a andar.
— Amor — disse Octávio para a sua namorada —, acho que você deveria estar preocupada com a sua vida andando com a gente.
— Como assim? — questionou Talita, porém, já sabia a resposta.
— Olha aonde você veio parar? A gente não sabe o que pode acontecer, e se você se machucar?
— Relaxa, eu sei me virar sozinha.
— Eu sei que você é uma garota muito forte, e determinada, mas é que eu não estou com um bom pressentimento.
— Amor, para com isso, nada de m*l vai nos acontecer, eu tenho certeza. E se o fato de eu ser a única que se lembra de vocês e está vendo tudo acontecer for obra do livro mágico? Eu sei que você acha que eu não deveria estar com vocês por eu não ter estado com vocês na biblioteca e ter sido vítima da maldição do livro, mas isso que está acontecendo comigo pode ter um propósito. Nem a magia da bruxa consegui me afetar, não acho que seja por acaso.
— Tudo bem, eu te entendo, só fique longe do perigo. Tudo bem?
— Certo, eu vou ficar.
— Meu Deus, este buraco não acaba nunca? — reclamou Fernanda. — Parece que andamos a horas e estou com as mãos doendo de tanto carregar estes sacos.
— Vamos dar uma pausa? — sugeriu Demétrio em chamas.
— E se você apagar? — falou Renata. — E se a gente começar a perder oxigênio?
— Fica calma, menina. Acho que estou começando a entender como funciona isso.
— Se está tudo sob controle, então vamos parar um pouco, estou cansada.
Octávio ia atrás com a Talita e viu os seus companheiros pararem de andar e Fernanda e Renata encostaram-se na parede do túnel. Ele apressou os passos.
— Pararam por que, gente? — indagou Octávio. — Vamos continuar andando, quanto mais nos atrasamos, mais demorada vai ficar a nossa situação.
— É ele tem razão gente — confirmou Renata.
— Você é uma vira-folha — disse Fernanda.
Octávio pegou as sacolas do chão e pediu para Demétrio continuar andando. Depois de mais dez minutos, bem de longe avistaram um raio de luz solar, era o fim do túnel, e Demétrio parou de flamejar.
— Nossa, as suas roupas não queimaram? — perguntou Talita ainda admirada. — Não dá para ver direito.
— Pela lógica deveria queimar — disse Demétrio —, mas não queimam. Se queimasse eu ficaria nu toda hora.
— Que lógica? — falou Octávio um pouco irritado com o que o colega havia dito. — Estamos amaldiçoados por uma bruxa via um livro mágico. Agora, se você quiser ficar s*******a, não faço isso na frente da minha namorada.
— Deixa de ser ciumento, cara. Eu não quero tentar seduzir a sua namorada, apesar de ela ser uma gatinha.
— Acho melhor você me respeitar...
— Octávio, calma — pediu Talita. — O que está acontecendo?
Octávio bufou de ciúmes e adiantou os passos na frente arrastando a Talita pelo braço.
— Nada, vamos.
— Eu não mereço — comentou Talita a revirar os olhos.
As outras meninas ficaram apenas assistindo à cena, nem mesmo Fernanda se atreveu a fazer qualquer comentário para não estragar o momento.
•••
No fim do túnel depararam-se com um lugar muito bonito. Estavam diante de uma cachoeira e as suas águas corriam para um penhasco, antes havia uma bacia d'água.
— Que lugar mais lindo — comentou Fernanda, deixaram os seus pertences num canto no chão depois que o túnel atrás deles se fechou. — Me deu até v*****e de tomar um banho.
— Eu também quero — falou Demétrio —, precisando me divertir um pouco.
— O que há de errado com vocês? — reclamou Octávio. — Não tem como a gente se divertir numa situação como essa.
— Lara de ser chato, Octávio. E você não manda em mim.
— Você está muito tenso, amor — disse Talita. — Creio que merecem relaxar um pouco.
— Como vocês conseguiriam relaxar? — ele exibiu o seu antebraço, estava todo em aspecto de mármore e Talita pôs as mãos sobre a boca, ficou surpresa por não notar. — Estou virando uma estátua de mármore e a minha vida depende de vocês agora. Eu escolhi o bem-estar de todos, não me façam esperar pelo pior.
— Gente, é verdade, vamos ver o que temos que fazer, vamos focar no jogo do livro — falou Talita.
— E o que temos que fazer? — perguntou Fernanda.
Então, todos olharam para o penhasco e aproximaram-se para analisarem o tamanho da queda, exceto Demétrio.
— Nossa! Muito alto — falou Talita. Ela se voltou para trás e disse para Demétrio: — Vai descer agora ou vai esperar que eu te empurre?
— O quê? Por que eu? — protestou Demétrio.
— Porque está óbvio que é você. Ficou desconfortável quando viemos até aqui. Você deve ter medo de altura.
— Não precisa ser eu, não vou de jeito nenhum.
Ficaram parados olhando para Demétrio a esperarem alguma coisa acontece, mas não houve nada até então.
— Ai, gente, eu vou — disse Fernanda.
— Não é assim que funciona — disse Octávio. — Tem que ter um trauma em ralação a isso.
— Sim, eu tenho trauma e não vou superar em segundos, não é assim que funciona — disse Demétrio. — Ficaram doidos?
— Sinceramente, se alguém der conselho motivacional para ele eu vou jogar daqui de cima — disse Talita, fazendo todos olharem-lhe surpresos.
— Amor? O que aconteceu com a sua timidez? — disse Octávio.
— Joguei no lixo — Talita se voltou para Demétrio. — Anda logo, desce e procura a pedra.
Demétrio aproximou-se do penhasco e bem devagar foi chegando perto da beirada até estremecer e recuar ofegante.
— Desculpa, gente, eu não posso fazer isso, não dá — após ter dito isso, Octávio sentiu uma forte e efêmera dor no braço que ficou completamente em aspecto de mármore num instante.
— Oh, meu Deus! — Talita segurou o outro braço do seu amado para ajudá-lo a permanecer de pé.
— Demétrio! — gritou Fernanda como se estivesse a repreender o garoto.
— Não vou, já disse, não posso fazer isso — imediatamente, Demétrio olhou para as suas mãos e viu que não estavam a sumir.
Octávio pegou a pedra verde do bolso das suas calças e desejou que a feiticeira Asqueva aparecesse.