77. Ayla

1006 Palavras

As semanas passaram como passam as coisas em Paris: bonitas por fora e sufocantes por dentro. Eu virei especialista em encenar. Em sorrir na hora certa. Em responder "oui" sem que meus olhos respondessem junto. Em sentar em reuniões com gente falando da minha vida como se eu fosse um investimento e não uma pessoa. E eu fiz tudo o que minha mãe pediu. Tudo. Eu fiz check-up. Eu fui na clínica. Eu fingi que aceitei "protocolo". Eu deixei o nutricionista falar como se meu corpo fosse um problema técnico. Eu voltei a vestir roupas que apertavam a cintura e, junto, apertavam a minha cabeça. Eu apareci onde mandaram, no ângulo que mandaram, com o cabelo do jeito que mandaram. Eu não postei nada. Eu não respondi ninguém. Eu virei a Ayla silenciosa e comportada que ela sempre quis. E por fora.

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