Eu nunca erro

325 Palavras
Eu senti o olhar dele nas minhas costas até virar a esquina. E eu sabia que ele não ia me seguir. Homem como ele não corre atrás. Ele observa. E isso só deixa tudo mais interessante. Entrei em casa mantendo a mesma postura de sempre. — Chegou, minha filha? — Cheguei, mãe. Beijo no rosto. Voz calma. Olhar tranquilo. — O culto foi bom? Olhei pra ela por um segundo… e sorri. — Foi lindo. Ela acreditou. Como todo mundo sempre acredita. Subi pro meu quarto e fechei a porta. Aí sim, soltei o ar. Joguei a Bíblia na cama e fui direto pro espelho. A menina da igreja já não tava mais ali. No lugar dela… eu. — Interessante… — murmurei. Ele não tinha sido como os outros. Não caiu fácil. E isso? Isso me deu vontade. No dia seguinte, segui minha rotina normalmente. Mas por dentro… Eu tava esperando. E não demorou. Eu vi ele. Encostado, conversando com outros. Mas quando nossos olhos se encontraram… O mundo ao redor simplesmente parou. Desvie, claro. Mas já era tarde. Ele tinha visto. E eu também. Eu nunca erro quando escolho. Nunca. Até hoje. — Ei. A voz dele veio atrás de mim. Direta. Sem rodeio. Parei devagar antes de virar. — Oi… — Tu sempre foge assim ou é só comigo? — Eu não tô fugindo… Ele deu um passo. — Então por que tu nunca para? Levantei os olhos devagar. — Porque eu não tenho motivo… — E agora tem? Silêncio. Eu podia prender ele ali. Mas jogo bom não se entrega fácil. — Eu tenho que ir… Dei um passo… E ele segurou meu braço. Forte. — Qual é teu nome? Pausa. — Ana. — Eu sou o Davi. Guardei. — Prazer… Virei. — Ana… Olhei por cima do ombro. — Eu vou te ver de novo. Sorri de leve. — Talvez… E fui embora, mas agora… Ele já tava dentro do jogo.
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