Eu não olhei pra trás.
Nem uma vez.
Mas senti.
Senti o olhar dele me seguindo, pesado, atento… diferente de todos os outros. Não era só desejo. Era interesse. E isso, pra mim, sempre foi mais perigoso.
Cheguei em casa como se nada tivesse acontecido.
— Demorou hoje, minha filha — minha mãe comentou, mexendo na panela.
— Tinha muita gente na rua…
Respondi no automático, largando a sacola na mesa.
Mais uma meia verdade.
Sempre funciona melhor assim.
Subi pro meu quarto e fechei a porta. Dessa vez, não encostei nela como antes. Fui direto pro espelho.
E fiquei me olhando.
— Davi… — falei o nome baixo, testando o gosto dele.
Nome forte.
Combina com ele.
Mas nome não diz nada. O que importa é o que ele faz… e o que ele pode se tornar no meu jogo.
Passei a mão pelo cabelo, devagar.
— Você não é burro…
Murmurei.
E isso muda tudo.
Porque homem burro é fácil.
Agora homem que observa?
Esse dá trabalho.
Mas também… dá mais satisfação.
Sorri sozinha.
Os dias seguintes foram silêncio.
E isso não foi por acaso.
Foi escolha.
Minha.
Porque depois do primeiro contato, o erro de muita gente é insistir. Aparecer demais. Forçar presença.
Eu não.
Eu desapareço.
Deixo o vazio trabalhar.
Deixo a dúvida crescer.
“Será que ela vem hoje?”
“Por que sumiu?”
“Será que fez de propósito?”
Sim.
Sempre faço.
No terceiro dia, voltei pra igreja.
Mesmo horário.
Mesmo vestido comportado.
Mesmo cabelo preso.
Mesma “Ana” de sempre.
Entrei sem olhar pros lados, cumprimentei as mesmas pessoas, sentei no mesmo lugar.
Mas por dentro… eu já sabia.
Ele tava ali. Não vi.
Mas senti.
E quando o culto começou, não demorou muito pra confirmação vir.
— Posso sentar aqui?
A voz.
Baixa.
Perto demais.
Meu coração deu uma batida mais forte… e eu precisei de um segundo pra responder. Não porque eu tava nervosa.
Mas porque até reação… eu controlo.
Levantei os olhos devagar.
E lá estava ele.
Mais arrumado do que da última vez. Mas ainda com aquele ar que não combina com nenhuma igreja.
Olhar direto.
Sem vergonha.
Sem pedir desculpa.
Hesitei.
Claro que hesitei.
Faz parte.
— Pode…
Ele sentou ao meu lado como se sempre tivesse sido o lugar dele.
E por alguns minutos…
Ficamos em silêncio.
O pastor falava, as pessoas respondiam, o culto seguia…
Mas nada ali importava.
Porque o que realmente tava acontecendo…
Era ali.
Entre eu e ele.
— Tu some… — ele murmurou, sem olhar diretamente pra mim.
Sorri de leve, ainda olhando pra frente.
— Eu venho sempre.
— Eu não te vi.
— Talvez você não tenha procurado direito…
Repeti.
De propósito.
Ele soltou uma risada baixa.
— Eu procurei.
Virei o rosto um pouco, só o suficiente pra encontrar o olhar dele.
E sustentei.
Dessa vez, sem recuar tão rápido.
— E achou?
Silêncio.
Pesado.
Carregado.
— Tô achando agora.
Aquilo…
Aquilo foi diferente.
Não foi cantada.
Não foi joguinho.
Foi direto.
E por um segundo, só um segundo…
Eu senti.
Não controle.
Não cálculo.
Mas algo que eu não gosto.
Imprevisível.
Quebrou rápido.
Desviei o olhar, como se aquilo tivesse ido longe demais.
Como se eu ainda fosse a menina que todo mundo acredita.
— A gente não devia conversar aqui…
Falei baixo.
Ele se inclinou um pouco mais perto.
— Por quê? Tem medo de quê?
Respirei fundo.
E olhei pra frente de novo.
— Do que as pessoas vão pensar…
Mentira.
Eu nunca tive medo disso.
Mas ele não precisava saber.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
E então disse, mais baixo ainda:
— Ou do que tu pode acabar querendo?
Aquilo me acertou.
Direto.
Virei o rosto na hora.
E pela primeira vez…
Não foi totalmente atuação.
— Você não me conhece.
Minha voz saiu mais firme.
Menos doce.
Ele não recuou.
— Então me deixa conhecer.
Silêncio.
Longo.
Perigoso.
Eu podia encerrar ali.
Podia sair.
Podia voltar pro controle total.
Mas…
Inclinei levemente o rosto, chegando um pouco mais perto.
O suficiente.
— Cuidado com o que você quer…
Sussurrei.
E me afastei.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se eu ainda fosse…
A santa.
Mas por dentro?
O jogo tinha mudado.
Porque dessa vez…
Ele não tava só entrando.
Ele tava chegando perto demais.