Entre linhas

598 Palavras
Eu fechei a porta devagar, sentindo meu coração bater mais forte… não de nervoso. De alerta. Davi dentro da minha casa era um risco, mas também… Era tentador. — Senta, meu filho — minha mãe falou, toda simpática, apontando pro sofá. Ele sentou como se estivesse confortável demais ali. Como se já fizesse parte. — Você é da igreja? — ela perguntou, curiosa. Antes que ele respondesse, eu me aproximei. — Ele apareceu lá esses dias… Minha voz saiu doce. Controlada. Mas meus olhos? Presos nele. — Tô… tentando ir mais — ele respondeu, olhando pra mim, não pra ela. Mentiroso. E eu quase sorri. Minha mãe ficou toda feliz. — Que bom! É tão difícil ver jovem querendo coisa boa hoje em dia… — Eu tô aprendendo… — ele disse. E dessa vez, o tom… Mudou. Baixo, arrastado. Carregado. — Tem gente que ensina bem. Aquilo não era pra minha mãe. Era pra mim. E eu senti. Na hora. Inclinei levemente a cabeça, como se não tivesse entendido. — Ensinar o quê? Perguntei, inocente, mas meu olhar… Desafiou. Ele sustentou. Sem pressa. — A ter paciência. Meu estômago deu um leve aperto. Ah… Então ele tava jogando também. — Paciência é importante mesmo — respondi, caminhando até a mesa, fingindo normalidade. — Nem tudo vem na hora que a gente quer. — Eu sei… — ele falou. Pausa. Pesada. — Mas quando vem… vale a pena esperar. Silêncio. Minha mãe não percebeu nada. Continuou dobrando roupa, tranquila. E a gente ali… Se dizendo tudo sem dizer nada. — Você aceita um café? — ela perguntou. — Aceito sim, dona. Ela foi pra cozinha. E aí… Ficamos sozinhos. O ar mudou na hora. Pesado. Quente. Perigoso. — Tu é mais cara de p*u do que eu pensei… — falei baixo, cruzando os braços. Ele deu um sorriso de lado. — E tu é mais difícil do que parece. Dei um passo mais perto. Devagar. — Você não devia ter vindo aqui. — Por quê? Ele também levantou. Agora a distância entre a gente… Quase não existia. — Porque aqui… — sussurrei — não é o seu lugar. Ele inclinou o rosto levemente, chegando mais perto. — Ou será que é o único lugar onde tu não consegue fugir? Aquilo me pegou. Forte. Mas eu não recuei. Nunca recuo. — Cuidado… — murmurei — você tá começando a se achar demais. Ele chegou ainda mais perto. O suficiente pra eu sentir a respiração dele. — E tu tá começando a gostar disso. Meu coração acelerou. Mas meu rosto? Calmo. Sempre. — Você não me conhece. Repeti. Ele olhou direto pra minha boca. Depois pros meus olhos. — Eu tô começando a conhecer. Silêncio. Pesado. Quente. E perigoso demais. — Aqui o café! A voz da minha mãe quebrou tudo. Na hora. Eu me afastei primeiro. Como se nada tivesse acontecido. Como se eu ainda fosse… A menina da igreja. — Obrigada, mãe. Peguei a xícara, tranquila. Controle de volta. Máscara no lugar. Mas por dentro? Nada tava no lugar. Ele pegou o café, mas não tirou os olhos de mim. Nem por um segundo. — Você pode voltar lá em casa quando quiser — minha mãe disse, sorrindo. Eu quase engasguei. Ele não. — Eu volto sim, dona. E aí olhou pra mim. Com aquele meio sorriso. — Com certeza. Aquilo não foi educação. Foi promessa. E pela primeira vez… Eu senti. Não controle. Não jogo, mas perigo de verdade. Porque agora… Ele não tava mais só entrando. Ele tava ficando confortável. E homem confortável… Não vai embora fácil.
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