Eu fechei a porta devagar, sentindo meu coração bater mais forte… não de nervoso.
De alerta.
Davi dentro da minha casa era um risco, mas também…
Era tentador.
— Senta, meu filho — minha mãe falou, toda simpática, apontando pro sofá.
Ele sentou como se estivesse confortável demais ali.
Como se já fizesse parte.
— Você é da igreja? — ela perguntou, curiosa.
Antes que ele respondesse, eu me aproximei.
— Ele apareceu lá esses dias…
Minha voz saiu doce.
Controlada.
Mas meus olhos?
Presos nele.
— Tô… tentando ir mais — ele respondeu, olhando pra mim, não pra ela.
Mentiroso.
E eu quase sorri.
Minha mãe ficou toda feliz.
— Que bom! É tão difícil ver jovem querendo coisa boa hoje em dia…
— Eu tô aprendendo… — ele disse.
E dessa vez, o tom…
Mudou.
Baixo, arrastado.
Carregado.
— Tem gente que ensina bem.
Aquilo não era pra minha mãe.
Era pra mim.
E eu senti.
Na hora.
Inclinei levemente a cabeça, como se não tivesse entendido.
— Ensinar o quê?
Perguntei, inocente, mas meu olhar…
Desafiou.
Ele sustentou.
Sem pressa.
— A ter paciência.
Meu estômago deu um leve aperto.
Ah…
Então ele tava jogando também.
— Paciência é importante mesmo — respondi, caminhando até a mesa, fingindo normalidade.
— Nem tudo vem na hora que a gente quer.
— Eu sei… — ele falou.
Pausa.
Pesada.
— Mas quando vem… vale a pena esperar.
Silêncio.
Minha mãe não percebeu nada.
Continuou dobrando roupa, tranquila.
E a gente ali…
Se dizendo tudo sem dizer nada.
— Você aceita um café? — ela perguntou.
— Aceito sim, dona.
Ela foi pra cozinha.
E aí…
Ficamos sozinhos.
O ar mudou na hora.
Pesado.
Quente.
Perigoso.
— Tu é mais cara de p*u do que eu pensei… — falei baixo, cruzando os braços.
Ele deu um sorriso de lado.
— E tu é mais difícil do que parece.
Dei um passo mais perto.
Devagar.
— Você não devia ter vindo aqui.
— Por quê?
Ele também levantou.
Agora a distância entre a gente…
Quase não existia.
— Porque aqui… — sussurrei — não é o seu lugar.
Ele inclinou o rosto levemente, chegando mais perto.
— Ou será que é o único lugar onde tu não consegue fugir?
Aquilo me pegou.
Forte.
Mas eu não recuei.
Nunca recuo.
— Cuidado… — murmurei — você tá começando a se achar demais.
Ele chegou ainda mais perto.
O suficiente pra eu sentir a respiração dele.
— E tu tá começando a gostar disso.
Meu coração acelerou.
Mas meu rosto?
Calmo.
Sempre.
— Você não me conhece.
Repeti.
Ele olhou direto pra minha boca.
Depois pros meus olhos.
— Eu tô começando a conhecer.
Silêncio.
Pesado.
Quente.
E perigoso demais.
— Aqui o café!
A voz da minha mãe quebrou tudo.
Na hora.
Eu me afastei primeiro.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se eu ainda fosse…
A menina da igreja.
— Obrigada, mãe.
Peguei a xícara, tranquila.
Controle de volta.
Máscara no lugar.
Mas por dentro?
Nada tava no lugar.
Ele pegou o café, mas não tirou os olhos de mim.
Nem por um segundo.
— Você pode voltar lá em casa quando quiser — minha mãe disse, sorrindo.
Eu quase engasguei.
Ele não.
— Eu volto sim, dona.
E aí olhou pra mim.
Com aquele meio sorriso.
— Com certeza.
Aquilo não foi educação.
Foi promessa.
E pela primeira vez…
Eu senti.
Não controle.
Não jogo, mas perigo de verdade.
Porque agora…
Ele não tava mais só entrando.
Ele tava ficando confortável.
E homem confortável…
Não vai embora fácil.