O ar ficou pesado, quente, impossível de respirar. Ele tava ali, colado em mim, o corpo todo tenso, a mão dele subindo devagar pela minha cintura, apertando, como se já tivesse certeza de que eu era dele.
— Tu não tem ideia do quanto eu esperei por isso… — rosnou baixo, já fechando os olhos, já se inclinando pra me beber.
Eu deixei ele chegar perto. Muito perto. Deixei ele sentir meu cheiro, deixar ele imaginar tudo.
E na hora que a boca dele ia tocar a minha…
— ANA!
A voz da minha mãe cortou o ar vindo da sala.
Eu não pensei duas vezes. O corpo mudou num piscar de olhos. Dei um passo pra trás rápido, me afastei dele com força, como se ele tivesse me atacado, e abri os olhos grandes, cheios de surpresa e medo.
— Mãe?! — minha voz saiu doce, assustada, exatamente como eu ensaiei.
Davi ficou parado no meio da cozinha, com a mão no ar, o rosto todo perdido, sem entender a mudança de cena. A confusão tomou conta dele. Ele olhou pra mim, olhou pra ela, sem saber se era sonho ou pesadelo.
Minha mãe apareceu na porta, olhando de um pro outro.
— O que tá acontecendo aqui, minha filha? Por que essa cara de susto?
Eu baixei a cabeça, encolhi os ombros, fingi vergonha, e aponhei pra ele com o dedo tremendo.
— É que… o Davi veio aqui pra perguntar sobre a bíblia, mãe. Mas daí ele… — parei, engoli seco, como se doesse falar — ele ficou muito próximo, né? Eu pedi pra ele se afastar, mas ele não quis ouvir. Eu tava com medo dele me forçar a algo…
Silêncio mortal.
Davi arregalou os olhos.
— O QUÊ? Ana, tu tá louca? Nós dois…
— Nós o quê? — eu o interrompi, levantando o rosto com lágrimas nos olhos, fingindo indignação pura. — Você que entrou na minha casa, Davi! Você que veio se chegando! Eu sempre fui educada, sempre te tratei bem, e você vem com essa falta de respeito comigo e com a minha casa?
Eu virei pra minha mãe, toda chorosa.
— Eu não sabia que ele era desse jeito, mãe. Ele parecia tão bom rapaz na igreja…
Ela olhou pro Davi. E o olhar dela? De reprovação total. De nojo.
— É verdade isso, moço? — a voz da minha mãe ficou seca. — Você veio aqui pra assediar minha filha?
Ele ficou branco. Roxo. Sem palavra.
— Dona… eu não… eu juro que não foi isso. Ela… ela tava me provocando! Ela quis!
— EU QUIS O QUÊ?! — gritei, levando a mão na boca, horrorizada. — Como você tem coragem de dizer isso, Davi? Eu sou uma menina direita! Eu tenho nome pra zelar! Você que é sem vergonha, que não consegue controlar a cabeça e quer botar a culpa em mim!
Eu me joguei nos braços da minha mãe, chorando de verdade agora, mas de rir por dentro.
— Tira ele daqui, mãe. Por favor. Eu me sinto tão suja…
Davi me olhou. E eu vi ali. Raiva. Ódio. E principalmente… a certeza de que ele tinha sido feito de i****a.
Ele viu a máscara. Finalmente viu. Mas era tarde. Não tinha prova nenhuma.
— Você vai pagar por isso, Ana… — sussurrou ele, baixo, só pra mim.
Eu limpei uma lágrima, e por cima do ombro da minha mãe, eu sorri. Pequeno. Malvado.
— Pagar o quê, meu bem? Eu só fui a vítima… — murmurei de volta, quase sem som. — E você? Agora é o tarado da história.
Ele saiu batendo a porta com força.
E eu fiquei ali, abraçada com minha mãe, sendo consolada, sendo a coitada, sendo a santa…
Mas por dentro?
Eu tava em festa.
Mais um. Mais um que caiu. Mais um que eu usei e joguei fora.
E o melhor de tudo?
Ele não ia embora. Porque homem orgulhoso como ele não aceita perder. Agora ele ia ficar, ia lutar, ia querer me destruir… sem saber que é exatamente isso que eu quero.
Porque quanto mais ele briga, mais ele entra no meu jogo.
E eu… eu nunca perco.