Rachaduras

808 Palavras
A porta bateu e o barulho ecoou pela casa. Eu continuei ali, encolhida nos braços da minha mãe, soluçando baixinho, deixando ela passar a mão nas minhas costas e dizer que tudo ia ficar bem. — Calma, minha filha. Esquece esse homem. Eu já sabia que ele não tinha cara de bom. Homem que entra na igreja com aquele olhar, só quer uma coisa. Eu levantei o rosto, com os olhos vermelhos e o nariz escorrendo. Atuação perfeita. — Eu achei que ele era diferente, mãe… Eu achei que ele me quisesse bem. — Ele queria é bagunçar tua cabeça, menina. Ainda bem que eu apareci. Agora vai pro quarto, lava esse rosto e esquece que esse ser existe. Subi as escadas devagar, e só quando fechei a porta do quarto e tranquei… o rosto mudou. As lágrimas secaram na hora. A boca tremeu num sorriso largo, vitorioso. — Nossa, Ana… — sussurrei pro espelho. — Tu manda muito bem. Ele ficou lá fora, com certeza. Bateu o pé, praguejou, deve ter quebrado alguma coisa na raiva. Mas que se danasse. Eu tinha conseguido o que queria: agora ele sabe que eu não sou brinquedo fácil, e ao mesmo tempo, eu deixei ele com a pulga atrás da orelha. Ele sabe que eu quero. Ele sentiu. Mas ninguém acredita nele. E isso é o melhor tipo de tortura. No dia seguinte, eu sabia que ia ter confronto. E eu tava pronta. Saí de casa com o vestido mais rodado que tinha, cabelo solto, batom leve… a imagem da pureza em pessoa. Caminhei pelo morro devagar, sentindo o clima mudar quando eu passei. Os cochichos, os olhares. Ele já devia ter espalhado que eu era uma dissimulada, mas quem liga? Eu sou a Ana da igreja. Eu sou intocável. E lá estava ele. Encostado no mesmo lugar de sempre. Mas dessa vez, o olhar dele não era mais de desejo. Era de ódio. De fúria. Ele veio andando duro, empurrando as pessoas na rua, e parou na minha frente, bloqueando meu caminho. — Tu é uma cobra, Ana. — cuspiu as palavras, baixo, mas com veneno. — Uma cobra de duas cabeças. Tu me provocou, tu me quis, tu me chamou pra entrar… e depois fez eu parecer o monstro da história. Eu me encolhi um pouco, baixei a cabeça, fingi medo de novo, mas levantei os olhos devagar, piscando os cílios. — Eu não entendo o que você tá falando, Davi… — minha voz saiu doce, melosa, provocante mesmo fingindo medo. — Eu só fui educada. Tu que invadiu minha casa, tu que perdeu a linha. Eu não tenho culpa se você tem problemas na cabeça e não sabe controlar o que sente. — EU NÃO SINTO NADA! — gritou, perdendo o controle. — Eu só quero desmascarar você! Todo mundo aqui vai saber que tu não é santa nenhuma! Que tu usa esse vestido pra esconder o que tu realmente é! Ele segurou meu braço com força, me puxando pra perto, me prendendo contra o muro. — Eu vou mostrar pra todo mundo quem tu é de verdade. Eu não me debati. Não gritei. Pelo contrário. Eu sorri. Pequeno. Malvado. Cheguei o rosto perto do dele, tão perto que nossos narizes se tocaram. Senti a respiração quente e raivosa dele. — Então mostra, Davi… — sussurrei, roçando a boca na dele sem beijar, só provocando. — Vai falar o quê? Que eu te beijei com os olhos? Que eu te fiz querer me comer vivo? Que tu dorme pensando em mim? Apertei a camisa dele com as duas mãos, puxando ele contra mim, colando meu corpo no dele mesmo ele me segurando com raiva. — Fala! Porque todo mundo vai rir de você. Vão dizer que o Davi é fraco, que caiu na lábia da menina, que não consegue me esquecer. E você? Você vai ficar aí, morrendo de vontade de me ter… mas sabendo que eu nunca vou ser sua. Ele travou o maxilar, os olhos brilhando de raiva e desejo misturado. Ele queria me bater? Queria me beber? Ele mesmo não sabia. — Eu te odeio… — rosnou. Eu ri baixo, soprando o ar na boca dele. — Ódio é só amor com vergonha, meu bem… E eu sei que tu me quer mais do que tudo nessa vida. Empurrei ele devagar, me soltando do aperto dele com facilidade, arrumei meu vestido como se nada tivesse acontecido, e passei por ele roçando o ombro. — Se comporta, Davi. Ou eu vou ter que contar pra todo mundo que tu segue me perseguindo mesmo depois de eu ter te dispensado. E fui andando, mexendo a cintura de propósito, sentindo o olhar dele queimando minhas costas. Ele me odeia. Ele me quer. Ele me tem medo. E isso? Isso é poder. E o jogo tá só começando.
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