Nosso jogo

730 Palavras
Os dias seguintes foram pura tortura. Pra ele, claro. Eu fazia questão de aparecer. De andar pelo morro, de cumprimentar todo mundo, de cantar no coral da igreja com a voz doce… e toda vez que eu passava por ele, eu olhava. Olhava como se nada tivesse acontecido. Como se ele não fosse nada. E isso matava ele mais do que qualquer tapa. Eu sabia que ele tava furioso. Via ele cochichando com os amigos, apontando pra mim, falando m*l, tentando jogar a real: “Ela não é o que parece”, “Ela é dissimulada”. Mas ninguém acreditava. Todo mundo achava que ele era só um homem rejeitado, amargurado, que não aceitou um não. Perfeito. Eu tinha selado o destino dele. Até que uma tarde, eu tava sozinha na pracinha, esperando… não esperava ninguém, mas sabia que ele viria. E veio. Davi chegou de uma vez, me pegou pelo pulso e me puxou pra dentro de um beco, sem dó, sem cerimônia. Me encostou na parede com força, prendendo eu com o corpo dele. — Chega! — gritou baixo, os olhos brilhando de ódio. — Tu acha que pode brincar comigo quanto tempo quiser? Tu acha que eu sou teu cachorro pra tu ficar fazendo o que quer? Eu não me assustei. Pelo contrário. Soltei um riso debochado, passei a mão livre devagar pelo peito dele, subindo até o rosto dele, tocando a barba dele como quem acaricia um animal selvagem. — Você é meu sim, Davi… — falei baixinho, com a voz cheia de mel e veneno. — Todo mundo aqui é meu. Você mais do que ninguém. — EU NÃO SOU SEU! — empurrou minha mão, mas não saiu de cima de mim. — Eu te odeio, Ana. Odeio esse teu jeito de santa, odeio esse vestido, odeio como tu me olha como se eu fosse um nada. — Mas você corre atrás, né? — aproximei o rosto, roçando o nariz no dele, sentindo ele tremer de raiva e vontade. — Você me odeia, mas não consegue ficar longe. Você me odeia, mas dorme pensando em como seria ter essa “santa” toda sua. Ele travou o maxilar. A respiração dele batendo quente no meu rosto. — Eu vou te destruir… — rosnou. — Destrói então. — desafiei, chegando ainda mais perto, colando meu corpo no dele, sentindo ele duro, tenso, todo meu. — Mas antes, me beija. Porque eu sei que é isso que tu mais quer no mundo. Esquece o ódio, esquece a vergonha, esquece tudo… e me beija como se tu fosse me comer viva. Silêncio. Ele olhou pra minha boca. Olhou pros meus olhos. E eu vi ele perdendo a batalha de novo. A mão dele subiu com raiva, agarrando meu cabelo, puxando minha cabeça pra trás, expondo meu pescoço. — Tu é o d***o encarnado… — murmurou. — E você é quem caiu no meu laço… — sussurrei de volta. E ele veio. Dessa vez não teve beijo de cinema. Teve mordida, teve força, teve tudo que a gente vinha segurando. Ele me beijou como quem queria me destruir, me consumir, acabar comigo ali mesmo. E eu deixei. Eu correspondi com a mesma intensidade, puxando ele, enroscando as pernas, fazendo ele sentir que ali, naquele cantinho, eu era só dele. As mãos dele apertavam minha cintura, subiam, desciam, com raiva, com desejo, sem controle. Eu soltei um gemido baixo de propósito. E ele parou. Congelou. Afastou a boca devagar, me olhando ofegante, perdido. — Pronto… — falei, ofegante também, mas com um sorriso pequeno, vitorioso, no canto da boca. — Agora tu sabe. Agora tu sente. Apertei a camisa dele com as duas mãos, olhando fundo nos olhos dele. — Tu pode falar m*l de mim, tu pode me odiar, tu pode tentar fugir… mas enquanto tu respirar, tu vai lembrar desse gosto. E tu nunca mais vai querer outra. Empurrei ele devagar, me soltando dos braços dele, arrumei meu vestido, passei a mão no cabelo e voltei a ser a menina doce. — Agora deixa eu ir, Davi. Que eu tenho oração pra ir. Virei as costas e saí do beco, deixando ele lá, parado, com a mão na boca, sentindo meu gosto, com a cabeça explodindo e o coração na mão. Ele me odeia. Ele me quer. Ele é meu. E o jogo? Tá só esquentando.
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