Quase

904 Palavras
O dia seguinte amanheceu quente e abafado, típico do Morro do Alemão. Maria estava a caminho da escola, mochila pendurada no ombro, mas a cabeça parecia longe. Ela ainda sentia o calor da praia, o toque do sol na pele e, inevitavelmente, os olhares de Guilherme queimando dentro dela. Quando entrou na viela próxima à escola, ouviu aquela voz familiar. — Ei, Branca de Neve! Maria se virou e encontrou Guilherme encostado no muro, braços cruzados e aquele sorriso provocador no rosto. — Guilherme… — murmurou, meio surpresa, meio corada. — Você já tá aqui de novo? — Sempre — respondeu ele, dando dois passos na direção dela. — Alguém tem que te vigiar, não é? Não quero que alguma onda te leve de novo. Maria bufou, tentando esconder o rubor. — Eu não sou tão frágil assim. Ele riu baixo, um riso que parecia mais íntimo do que qualquer outra coisa. — Frágil não. Mas distraída… e eu gosto de ver. Ela estreitou os olhos, mas não conseguiu evitar que o coração disparasse. Guilherme tinha esse efeito sobre ela: a cada palavra, a cada olhar, ele deixava uma marca, uma tensão que Maria ainda não sabia lidar. Durante o caminho até a escola, os dois caminharam lado a lado. Não falavam muito, mas cada silêncio carregava peso. Guilherme jogava olhares rápidos e calculados, e Maria sentia que precisava se controlar para não reagir. Quando chegaram, Letícia surgiu do nada, empurrando Maria de leve. — Ô, olha quem tá aí! — disse, piscando para Guilherme. — Tá de conversinha? — Só andando — respondeu Maria, tentando soar indiferente. — Ah, sei… — Letícia deu de ombros, sorrindo. — Mas eu sei que tem coisa aí. Vocês dois tão trocando olhares há um tempão, hein? Maria lançou um t**a leve no braço da amiga, tentando disfarçar. — Cala a boca, Lê. Guilherme apenas riu, e Maria percebeu como aquela risada fazia seu coração acelerar. Ele parecia saber exatamente o efeito que causava, e isso deixava tudo ainda mais intenso. Na sala, a dinâmica seguiu. Maria se sentia estranhamente nervosa com cada movimento dele. Guilherme sentou um pouco afastado, mas os olhos nunca saíram dela. Quando precisava entregar algo ou pegar um caderno, cruzavam-se acidentalmente, e cada toque, cada olhar, parecia carregar uma promessa silenciosa. No intervalo, Letícia se aproximou novamente. — Mari… você tá derretendo por ele, admito. Mas cuidado. Ele é intenso. — piscou — E eu sei que você gosta disso. Maria suspirou, olhando para Guilherme do outro lado do pátio. Ele sorria para algum amigo, mas não sem antes lançar um olhar para ela, rápido, cheio de provocações silenciosas. E ali, no meio do barulho da escola, entre risadas e passos apressados, Maria percebeu que aquele jogo de olhares, provocações e tensão silenciosa só tinha começado e que ela não queria que acabasse tão cedo. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de laranja e rosa, quando Maria saiu da escola mais cedo. Letícia estava ocupada com alguns amigos, e ela decidiu cortar caminho pelo beco que levava à rua principal do morro. A brisa fresca trazia cheiro da fumaça de churrasco de algum ponto da comunidade. — Olha só quem resolveu andar sozinho — disse uma voz familiar, surgindo atrás dela. Guilherme vinha logo atras, camiseta do colegio, o olhar tão fixo nela que Maria sentiu uma mistura de nervosismo e calor subir pelo corpo. — E você está sempre me esperando por aqui? — perguntou Maria, tentando soar indiferente, mas a voz saiu trêmula. — Só quando sei que posso encontrar você — respondeu ele, aproximando-se mais, devagar, calculando cada passo. — Hoje você parece… diferente. Maria desviou o olhar, tentando esconder o rubor, mas Guilherme deu um passo ainda mais perto, reduzindo a distância entre os dois. — Guilherme… — sussurrou, quase sem fôlego. Ele inclinou a cabeça, e por um instante tudo parecia congelar: o barulho da rua, as pessoas passando, o calor do entardecer. Maria sentiu o coração disparar quando ele passou a mão rapidamente pelo cabelo dela, quase um toque, mas intenso o suficiente para que o corpo dela reagisse. — Você fica tão… perto de mim, e mesmo assim parece tão distante — murmurou ele, os olhos fixos nos dela. Maria abriu a boca para responder, mas não saiu nada. O ar parecia pesado, carregado de eletricidade. Guilherme se inclinou, aproximando o rosto do dela, o cheiro de suor misturado com terra e maresia envolvendo Maria. Ela fechou os olhos por um instante, sentindo a proximidade, a tensão que os dois compartilhavam. E então, quase que por reflexo, ele encostou a testa na dela. O calor entre eles era quase insuportável. Maria sentiu o corpo reagir de forma inesperada, coração acelerado, respiração presa. — Isso é… demais — sussurrou ela, os olhos ainda fechados. Guilherme sorriu de lado, divertido, e recuou lentamente, deixando apenas a lembrança daquele toque no ar. — Cuidado, Branca de Neve. Uma hora desses você vai se acostumar comigo — disse, piscando antes de se afastar. Maria ficou parada, respirando fundo, o coração disparado, sentindo que algo tinha mudado de verdade entre eles. Aquela tensão não era apenas brincadeira, era uma mistura de curiosidade, desejo e atração que ela ainda não sabia lidar. Enquanto caminhava para casa, as mãos ainda tremendo levemente, percebeu que precisava organizar os próprios sentimentos antes que Guilherme se tornasse ainda mais impossível de ignorar.
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