O sol já se escondia atrás dos prédios distantes quando o grupo começou a juntar as coisas para ir embora. Toalhas cheias de areia, garrafas quase vazias e corpos cansados depois de tanto mar e risada. Maria ajudava a dobrar a canga de Letícia quando sentiu alguém puxar o elástico do seu cabelo.
Virou rápido, e lá estava ele. Guilherme, rindo de canto, com a cara de quem tinha acabado de aprontar.
— Cuidado, Branca de Neve. O vento pode te levar — disse, soltando o fio entre os dedos.
Maria estreitou os olhos.
— Você não cansa de encher?
— Não. — Ele respondeu simples, ainda sorrindo, antes de se afastar.
Letícia chegou logo em seguida, carregando a mochila nas costas e com aquele sorriso malicioso estampado.
— Eu vi, tá? — cutucou Maria na cintura. — Esse olhar de vocês dois tá cada dia mais descarado.
— Para, Lê! — Maria tentou disfarçar, mas o rubor no rosto entregava tudo.
— Ah, Mari, só tô falando o óbvio. Você acha que ninguém percebe? — Letícia riu alto, já andando na frente.
No ônibus da volta, a bagunça continuava. Alguns dormiam, outros cantavam pagode desafinado. Maria conseguiu um lugar na janela, olhando a cidade passar. A brisa misturada com o cheiro de maresia ainda grudava na pele.
De repente, sentiu um peso no banco ao lado. Guilherme tinha sentado ali, de novo sem pedir licença.
— Tá pensativa. — Ele falou, com o tom baixo, diferente da zoação de antes. — Tá lembrando de alguém?
Maria mordeu o lábio, surpresa com a mudança no jeito dele.
— Só tô cansada.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, depois apoiou o braço no encosto, inclinando-se levemente na direção dela.
— Você devia se olhar mais, sabia? Passou o dia inteiro se escondendo, como se não tivesse noção do que causa nos outros.
O coração dela disparou.
— Do que você tá falando? — murmurou.
Ele deu aquele meio sorriso, o mesmo que a deixava sem chão.
— Você sabe.
Antes que ela respondesse, Letícia apareceu do nada, jogando a mochila no colo de Maria.
— Vamos, princesa, já já é nossa parada.
Guilherme se recostou, disfarçando o sorriso, enquanto Maria tentava controlar a respiração. Aquele fim de tarde tinha sido leve, divertido, cheio de risadas. Mas, no fundo, ela sabia: o que mais ia levar pra casa não eram as lembranças da praia… e sim o jeito como Guilherme a fazia sentir.
A porta da casa se fechou atrás de Maria com um estalo seco. O cheiro de comida ainda pairava no ar, mas ela m*l notou. Jogou a mochila no canto do quarto e suspirou, aliviada por estar finalmente em casa depois do dia longo na praia.
— Mari? — chamou Milena da sala, sem se virar. — Chegou bem?
— Cheguei, mãe. — A voz saiu mais baixa, carregada de cansaço, mas com um sorriso que tentava disfarçar tudo.
Milena apareceu na porta do quarto, cruzando os braços. O olhar dela era penetrante, do tipo que parecia enxergar através da alma.
— Você tá diferente — disse, com um tom que misturava curiosidade e autoridade. — Mais leve… mas ao mesmo tempo… sei lá. Tem algo no seu jeito.
Maria engoliu seco. Ela sabia que não conseguiria mentir.
— Foi só um dia divertido na praia, mãe — disse, tentando soar casual. — A gente brincou, riu… nada demais.
Milena caminhou até a janela, apoiando uma mão no parapeito e olhando para o horizonte, antes de se virar para a filha.
— Maria, eu sei que você tá crescendo. Vejo isso no jeito que você olha pra algumas pessoas, no jeito que se move, no jeito que se protege e ao mesmo tempo se deixa ver. — Ela se aproximou, parando a poucos passos de Maria. — Quero que saiba que você pode confiar em mim. Sempre.
Maria sentiu o peito apertar. A sinceridade e a autoridade misturadas de Milena eram assustadoras e reconfortantes ao mesmo tempo.
— Eu sei, mãe… é só que… — começou, sem saber como colocar em palavras. — O dia foi diferente, e… algumas pessoas mexem comigo de um jeito que eu não sei explicar.
Milena franziu levemente a testa, avaliando cada gesto da filha.
— Mexem como? Quem é esse alguém que te deixou assim? — perguntou, direta, sem rodeios.
Maria engoliu seco.
— Ele… é só um amigo, mãe. Guilherme.
O nome caiu no ar como uma nota suspensa. Milena sorriu de leve, mas o olhar permanecia firme, perscrutador.
— Eu conheço o Guilherme — disse, quase como se confirmasse uma suspeita. — Sei do passado dele, do que passou, e sei também que não é um menino qualquer. Quero que você saiba que ele pode ser intenso, Maria. Mas se ele te respeita, se ele se importa… tudo bem. — Pausa. — Mas se ele te colocar em perigo ou te magoar, você me procura imediatamente. Entendeu?
— Entendi, mãe — murmurou Maria, sentindo o peso da responsabilidade, mas também um certo alívio.
Milena se aproximou, pousando a mão no ombro da filha.
— Crescer aqui não é fácil. Mas eu vejo você aprendendo, lidando com as pessoas, com os olhares… e isso me deixa orgulhosa. Ela sorriu, um pouco mais suave. — Só lembre: beleza, atenção, olhares… podem ser armadilhas. Mas eu sei que você sabe se cuidar.
Maria olhou para a mãe e sorriu, mais relaxada do que há dias. A tensão do dia na praia, os olhares de Guilherme, a zoeira com Letícia… tudo ainda estava fresco na mente dela, mas agora havia também a segurança de saber que podia contar com a mãe.
E, por um instante, a mistura de autoridade e carinho de Milena fez Maria perceber que, mesmo com todo o caos do Morro do Alemão, ela não estava sozinha.