O ônibus sacolejava descendo em direção à praia, e Letícia não parava de falar, como sempre. Estava animada, contando piadas, rindo alto com os meninos que iam junto. Maria, no entanto, sentia o coração acelerado. Não era por estar saindo Milena tinha deixado claro que dois seguranças estariam sempre por perto, mesmo disfarçados, de olho nela. O que pesava de verdade era o fato de estar de biquíni debaixo da roupa.
— Relaxa, Mari — disse Letícia, dando um tapinha no ombro da amiga. — Ninguém vai morder, não.
Maria riu sem graça.
— Você fala como se fosse fácil…
O grupo desceu e logo o cheiro de maresia invadiu o ar. A areia clara refletia o sol, e as ondas quebravam num barulho que misturava paz e energia. Os meninos correram para armar uma roda de frescobol, algumas meninas tiravam selfies com o mar ao fundo. Maria respirou fundo, tentando se convencer de que era só mais um dia.
Tirou a saída de praia devagar, revelando o biquíni azul marinho que contrastava com a pele alva e realçava os olhos verdes. De imediato, sentiu os olhares pesarem sobre ela. Uns de admiração, outros de inveja. As meninas cochicharam entre si, e Maria se encolheu, ajeitando os fios negros de cabelo.
— Amiga, para de se esconder — Letícia repreendeu, sorrindo orgulhosa. — Tá maravilhosa! Se eu tivesse esse corpo, já tava desfilando na areia.
Maria corou, sem saber o que responder. E foi nesse momento que ela o viu. Guilherme estava sentado de pernas abertas na areia, cercado por dois garotos, mas o olhar dele estava fixo nela. Não riu, não comentou, não fez piada. Só observou, de um jeito que fez o estômago dela revirar.
Ela quis virar o rosto, mas não conseguiu. O peito largo dele brilhava de suor misturado com água salgada, os cabelos escuros molhados caíam sobre a testa. E aquelas cicatrizes antes motivo de estranhamento agora pareciam parte de uma história que deixava o corpo dele ainda mais marcante.
Letícia percebeu a troca de olhares e soltou uma risadinha baixa.
— Ih, Mari… acho que alguém tá te devorando com os olhos.
Maria deu um t**a leve no braço da amiga, tentando disfarçar o rubor.
— Cala a boca, Lê.
O grupo decidiu entrar no mar, e Maria, mesmo tímida, seguiu. A água gelada bateu nas pernas, e ela deixou escapar um grito abafado. Guilherme estava logo atrás, rindo junto com os outros, mas sempre mantendo aquele olhar que parecia acompanhar cada passo dela.
Em certo momento, quando uma onda maior veio, Maria se desequilibrou e quase caiu. Antes que percebesse, uma mão firme segurou sua cintura.
— Calma aí, Branca de Neve — a voz de Guilherme soou perto do ouvido dela. — Não vai se afogar logo no primeiro mergulho.
Maria sentiu a pele arrepiar no exato lugar onde ele a segurava. Virou o rosto rápido, tentando recuperar o equilíbrio, mas o olhar dele já estava preso ao dela. Intenso. Sem pressa.
— Eu não preciso da sua ajuda — murmurou, mais para esconder o nervosismo do que por orgulho.
Guilherme sorriu de canto, soltando devagar a cintura dela.
— Pode até não precisar… mas gostou.
Maria engoliu seco, desviando rápido, mergulhando na onda seguinte para fugir daquela sensação que queimava por dentro. Quando voltou à superfície, Letícia já estava rindo e gritando com os meninos, mas Maria só conseguia pensar no toque firme, no olhar penetrante e na certeza incômoda de que Guilherme mexia com ela mais do que deveria.
O sol já queimava forte quando o grupo saiu da água e se espalhou pela areia. Toalhas estendidas, garrafas de refrigerante abertas, sacos de biscoito passando de mão em mão. Aquele clima de zoeira fazia Maria se sentir, pela primeira vez em muito tempo, parte de algo normal.
As meninas que antes cochichavam agora se aproximavam, curiosas.
— Você é amiga da Letícia, né? — perguntou uma delas, com tranças longas e sorriso aberto. — Sou a Camila.
— E eu sou a Jéssica — completou outra, ajeitando os óculos de sol.
Maria sorriu tímida, mas foi recebida com naturalidade. Logo estavam rindo juntas de uma piada b***a de Letícia, que gesticulava toda empolgada contando uma história da escola. A roda ia crescendo, e Maria percebia que, aos poucos, aquele muro invisível que a separava dos outros começava a cair.
Enquanto conversavam, Maria deixou o olhar escapar para o lado. Guilherme estava deitado na areia, mãos atrás da cabeça, olhos semicerrados por causa do sol. Mas, ainda assim, ela sabia: ele reparava em cada movimento dela. Quando os olhares se cruzaram, um frio percorreu a espinha dela.
Ele sorriu de canto, daquele jeito que parecia ler pensamentos, e Maria tratou logo de desviar, voltando para a conversa com as meninas.
— Ô, Mari — chamou Camila, rindo. — Você nunca fica vermelha desse jeito, não? Tá parecendo que pegou muito sol.
Letícia, que não perdia uma, emendou:
— Sol nada, é outra coisa que tá deixando ela vermelha…
Maria deu um t**a na amiga, e todas caíram na risada.
O tempo passou rápido entre histórias, cochichos e brincadeiras. Quando viram, já estavam deitadas de barriga pra baixo, tomando sol e trocando confidências. Era estranho, mas bom. Pela primeira vez, Maria não se sentia só no meio daquela comunidade.
Mais adiante, a galera começou um jogo de altinho. Letícia foi puxada, e logo estava no meio, mostrando que também sabia brincar com a bola. Em dado momento, um dos meninos, o João, parou o jogo e ficou só com ela, rindo e trocando olhares.
Maria observava de longe, sorrindo. Letícia parecia à vontade, feliz, sem medo de ser quem era. E quando eles se beijaram, no meio da zoeira, a galera inteira gritou e bateu palma, aumentando ainda mais a bagunça.
— Essa Letícia não perde tempo — murmurou Guilherme, aparecendo do nada ao lado de Maria.
Ela se assustou com a proximidade.
— Você sempre chega assim, de repente? — perguntou, tentando soar firme.
Ele deu de ombros, olhando de canto.
— É que gosto de ver sua reação. Você se entrega fácil, sabia?
Maria bufou, fingindo indiferença, mas por dentro o coração estava acelerado. O calor do sol parecia nada comparado ao que queimava dentro dela toda vez que Guilherme se aproximava.
Deitada na areia, olhando o mar e ouvindo as risadas ao redor, Maria sentiu que aquele dia tinha mudado algo. A praia não era só diversão: era também descoberta. Do corpo, das amizades… e dessa atração que crescia, irresistível, entre ela e Guilherme.