A semana seguiu seu ritmo normal no Morro do Alemão. As aulas, os olhares discretos de Guilherme, as provocações silenciosas entre nós dois… tudo parecia uma dança complicada. Ele me provocava, eu respondia com meio sorriso ou olhar de canto, e a tensão permanecia, quase elétrica.
Mas tudo mudou na segunda-feira. O assunto que circulava pelos corredores não era outra coisa senão o baile do fim de semana. Eu nunca ia a bailes. Sempre achei aquele tipo de muvuca de gente barulhenta, música alta e bebida demais insuportável. Mas mesmo assim, todos pareciam falar nisso, como se fosse o evento mais importante do ano.
Durante o intervalo, sentei com Letícia perto da quadra. Ela estava animada, comentando sobre quem ia com quem, quem tinha dançado com quem na última festa, e, de repente, a conversa tomou um rumo que eu não queria ouvir.
— Maria, você viu quem o Guilherme ficou no baile da semana passada? — Letícia perguntou, rindo com a voz baixa.
Meu coração apertou. Eu tentei disfarçar, fingindo interesse em outra coisa.
— Não… quem?
Letícia me olhou com aquela expressão cúmplice, e foi quando ouvi a voz de Luana, da minha sala, perto demais. Ela falava com uma amiga, mas, por descuido, ouviu tudo:
— E no baile… ele ficou comigo. Foi no fundo do ginásio, quase ninguém viu… a gente até saiu no final da noite juntos…
O mundo parecia ter congelado por um instante. Fiquei parada, as mãos apertando a mochila. Guilherme… com outra. Eu sabia que ele não era mais virgem, mas ouvir os detalhes, mesmo que não explícitos, era diferente. Eu não queria formar essa imagem dele na minha cabeça, ainda mais depois de tudo que sentia por ele.
Letícia percebeu meu desconforto e cutucou meu braço:
— Mari… você tá bem?
— Sim… — murmurei, mas a voz saiu quase falha.
Guilherme estava do outro lado da quadra, conversando com os amigos, sem perceber que eu ouvira a confissão de Luana. Ele riu de algo que alguém disse, completamente alheio ao efeito que aquelas palavras tiveram em mim.
Fiquei pensando no que significava tudo aquilo. Ele era humano, tinha vontades, escolhas, e eu não podia ficar tentando encaixá-lo numa imagem que não existia. Mas, ao mesmo tempo, meu coração doía de um jeito que eu não conseguia entender completamente.
O resto da aula passou arrastado. Cada vez que ele olhava na minha direção, meu corpo reagia de forma inesperada: frio na barriga, calor no rosto, mãos suando. Eu queria me afastar, mas também queria estar perto, mesmo sabendo que a realidade dele não era mais aquela que eu imaginava.
Quando a escola acabou, segui para casa com Letícia ao lado, tentando rir das bobagens da turma, mas minha mente estava presa àquela cena no baile. Guilherme… com Luana. Eu precisava processar aquilo, entender meus próprios sentimentos, antes que eles se tornassem mais complicados do que já eram.
E naquele momento, percebi que a tensão entre nós dois não era só provocação ou curiosidade. Era algo mais profundo, algo que mexia comigo de uma maneira que eu ainda não sabia nomear.
Cheguei em casa ainda com o peso das palavras que ouvi no intervalo. Guilherme… com Luana. Cada detalhe que escapou da conversa delas queimava na minha mente como fogo. Era estranho: eu sabia que ele tinha vida própria, que não podia ser “meu” de jeito algum, mas o ciúme apertava, misturado com aquela sensação estranha que sentia sempre que ele estava perto.
Sentei na cama, tentando organizar os pensamentos, mas tudo parecia confuso. Guilherme me provocava o tempo todo, com olhares, com palavras soltas, e eu sempre respondia com meio sorriso ou com indiretas. Mas agora, sabendo que ele tinha ficado com outra, tudo mudava.
— Ele… realmente ficou com ela — murmurei para mim mesma, mordendo o lábio. — E eu… sinto isso como se fosse comigo.
O coração doía de um jeito novo. Não era só raiva, não era só tristeza. Era desejo, ciúme, curiosidade, confusão. Cada lembrança do toque dele na praia, cada provocação silenciosa, parecia ganhar um novo significado.
Fechei os olhos e imaginei como seria se fosse ele ali comigo, e me senti corar sem controle. Guilherme era intenso, intenso demais para alguém como eu, que ainda tentava entender seu próprio corpo, suas próprias vontades. Eu não queria pensar nisso, mas não conseguia evitar.
Letícia sempre dizia que ele era misterioso, que carregava dor, que não era como os outros. Eu sabia disso. Mas agora sabia também que ele não era um garoto inocente — e, de repente, isso me deixava ainda mais… viva. Mais alerta. Mais presa a cada gesto, cada olhar, cada provocação dele.
— Por que ele mexe tanto comigo? — perguntei baixinho, quase como um segredo para mim mesma. — Por que dói pensar nele com outra e ao mesmo tempo meu corpo reage como se fosse… comigo?
O dia passou arrastado. Cada mensagem que recebia de Letícia ou do grupo da escola, cada barulho do morro, parecia me lembrar dele. Eu tentava me concentrar nos estudos, mas Guilherme ocupava minha mente sem esforço.
E então percebi algo: aquela tensão, aquele ciúme, aquela descoberta do desejo — tudo isso não era fraqueza. Era parte de crescer, de sentir e de aprender que as emoções podiam ser confusas, mas intensas.
Quando me deitei, olhando para o teto, respirei fundo. Guilherme não era meu, mas havia algo ali que eu não podia negar. Algo que estava apenas começando. E, por mais que fosse perigoso, tentador, confuso… eu queria entender até onde isso iria.
O coração ainda acelerado, eu sabia que os próximos encontros com ele não seriam simples. Cada olhar, cada provocação, cada toque quase acidental seria carregado de tensão. E eu, pela primeira vez, estava pronta para sentir isso plenamente, sem tentar fugir.