Beatriz
Mordi o pastel de carne enquanto ouvia Rafa falar o quanto o Lagarto estava sendo legal com ela nesses últimos dias — e sobre o tamanho da joia naquele anel que ele praticamente roubou pra dar pra ela.
Bebi meu suco e vi o sorriso dela se abrir de orelha a orelha quando a garçonete trouxe a coxinha. Rafa agradeceu e mordeu o salgado, satisfeita.
Rafa: Depois daquele episódio de supostas traições, receber uma aliança desse nível acalma tudo.
Olhei a pedra brilhando sob a luz do sol.
Bea: Uhm. — murmurei, levantando e jogando o papel no lixo.
Rafa: E o pai? Tá como? — arregalei os olhos e sentei novamente de frente pra ela, bebendo o restinho do suco de laranja. — Ele continua o mesmo?
Bea: Me admira você querer saber do nosso pai. Você mesma disse pra mim que não queria mais saber dele, e ainda xingou ele de tudo quanto é coisa.
Ela revirou os olhos, pegando o ketchup.
Rafa: Ele é meu pai ainda, Bea. Eu fui humilhada por ele, mas… ele é meu pai ainda.
Bea: Respondendo à sua pergunta, ele continua o mesmo. Comentei de você pra ele esses dias, e ele fingiu que não ouviu. — ela virou o rosto. — Desculpa falar, irmã… saiu sem querer.
Rafa: Tudo bem, nêga. Saudade eu tenho é da nossa mãe. Ela sim eu tenho muita saudade, e sei que ela também sente de mim… diferente do senhor Roberto. — mordeu a coxinha.
Bea: Ela sente, mas não fala. Você é filha dela. Ficar separada da filha é uma coisa totalmente difícil.
Rafa concordou e pegou o celular quando ele vibrou.
Olhei pra porta da lanchonete — os dois seguranças dela estavam ali. Lagarto colocou dois soldados pra seguirem ela pra todo lado. Rafa diz que não suporta isso.
E, sinceramente, é óbvio. Ser vigiada vinte e quatro horas por dia é uma coisa totalmente desumana.
Ela terminou de comer e foi pagar. Levantamos e saímos da lanchonete juntas, com os seguranças atrás da gente, parecendo dois robôs.
Rafa queria ver nossa mãe, mas como meu pai estava em casa hoje, com certeza ia dar briga. Então ela desistiu.
Rafa: Lagarto tá mandando eu ir pra casa. — disse digitando no celular.
Bea: Desde quando você obedece ele, Rafaela? Você é livre, você sabe muito bem disso, irmã. — ela coçou a cabeça e jogou o cabelo pra trás. — Tô falando sério, Rafaela.
Rafa: Eu tenho que ir, Bea. Não é porque ele mandou, é que eu tenho um monte de coisa pra fazer dentro de casa.
Bea: Não quer ir no culto hoje à noite, não? — ela revirou os olhos.
Rafa: Tem baile hoje… mas outro dia eu vou. — prometeu pela milésima vez. — Vou indo já. Se cuida, mana. Manda beijo pra dona Maira e diz que tô com bastante saudade.
Bea: Tá bom. — ela beijou meu rosto e saiu andando com os seguranças.
Coloquei o cabelo atrás da orelha e segui na direção de casa, onde eu ainda precisava ajudar minha mãe no jantar. Ela tinha dito que meu pai havia convidado o pastor da igreja vizinha.