O silêncio no quarto ainda carregava o peso do que tinha acabado de acontecer.
Patrícia estava sentada na cama, ainda abalada, as mãos tremendo levemente. O som dos tiros já tinha parado… mas dentro dela, tudo ainda ecoava.
Cristiano estava de pé, perto da porta, passando a mão no rosto, tentando sair daquele estado de alerta.
Mas não conseguia.
Porque agora… não era mais sobre inimigos.
Era sobre ela.
Ele respirou fundo e se aproximou devagar, parando na frente dela.
— Patrícia…
Ela levantou o olhar.
Os olhos ainda vermelhos.
Cheios de medo… e sentimento.
Ele se agachou na frente dela, ficando na mesma altura.
— Eu te amo — disse, direto, sem rodeio.
Ela fechou os olhos por um segundo, sentindo o impacto daquelas palavras naquele momento tão caótico.
— Mas… — ele continuou, a voz mais pesada agora — esse é o meu mundo.
Silêncio.
— Isso não avisa quando vai acontecer — disse ele, firme — não tem hora, não tem dia, não tem controle.
Ela engoliu seco.
Porque agora… ela tinha visto.
Sentido.
— Eu juro que eu não queria que você presenciasse isso — continuou ele, mais baixo — Eu tentei te proteger de tudo isso o máximo que eu pude.
Ele passou a mão pelo rosto, frustrado consigo mesmo.
— Eu sei que é demais pra sua cabeça… — disse ele — pra qualquer pessoa que não vive isso desde sempre.
Patrícia respirou fundo, tentando se manter firme.
— É demais… — respondeu ela, sincera — Eu tive medo, Cristiano. Muito medo.
Ele assentiu.
— Eu sei.
— Eu achei que você não ia voltar… — a voz dela falhou — e isso me destruiu.
Aquilo apertou o peito dele.
— Eu sempre volto pra você — disse ele, firme.
Ela olhou direto nos olhos dele.
— E se um dia não voltar?
Silêncio.
Pesado.
Cristiano não respondeu na hora.
Porque não tinha resposta que fosse justa.
Ela abaixou o olhar, respirando fundo.
— Eu te amo… disse ela, com a voz mais baixa mas eu não sei se eu sei viver com esse medo.
Aquilo atingiu ele mais forte que qualquer tiro.
Ele se aproximou um pouco mais, com cuidado.
— Eu não vou te prender nisso, Patrícia — disse ele, sincero — Se você quiser ir… eu vou entender.
Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo.
— Você tá me pedindo pra ir embora?
— Não — respondeu ele na hora — Eu tô te dando a escolha que eu não te dei antes.
Silêncio.
Ela levantou, ficando de frente pra ele.
— E se eu ficar…?
Ele segurou o olhar dela.
— Se você ficar… vai ter risco. Vai ter medo. Vai ter noites como essa.
Mais um segundo de silêncio.
— Mas também vai ter eu — completou ele — cuidando de você, protegendo você… do jeito que eu puder.
Ela respirou fundo.
O coração dividido.
Entre o medo…
e o amor.
— Eu não quero te perder — disse ela, com lágrimas — mas eu também não quero me perder nisso tudo.
Ele se aproximou, segurando o rosto dela com cuidado.
— Então a gente aprende junto — disse ele, mais suave — no seu tempo. Do seu jeito.
Ela fechou os olhos, encostando a testa na dele.
Silêncio.
Dessa vez… cheio de decisão.
O silêncio que ficou depois da conversa já não era pesado como antes.
Ainda havia medo.
Dúvidas.
Incertezas.
Mas também havia… eles.
Patrícia respirou fundo, enxugando as lágrimas com as costas da mão. O corpo ainda estava cansado, a mente exausta de tudo que tinha acontecido naquela noite.
Ela olhou pra Cristiano, mais vulnerável agora, a voz baixa:
— Eu só quero dormir…
Ele manteve o olhar nela, atento.
Ela deu um pequeno passo mais perto.
— Agarrada em você, tá?
Aquilo desmontou qualquer resto de tensão dentro dele.
Cristiano assentiu devagar.
— Tá… vem.
Sem pressa, ele puxou ela com cuidado, envolvendo o corpo dela no dele. Patrícia se encaixou ali como se fosse o único lugar seguro que existia.
Eles deitaram.
Ela se aconchegou no peito dele, ouvindo o coração dele bater forte, constante… vivo.
O braço dele envolveu a cintura dela, firme, protetor, como se dissesse sem palavras que ela estava segura ali.
— Eu tô aqui… — murmurou ele, perto do cabelo dela.
Ela fechou os olhos.
— Eu sei…
O corpo dela ainda tremia levemente, resquício do medo, da adrenalina, da noite que parecia não ter fim.
Cristiano percebeu.
Apertou ela um pouco mais.
— Ninguém vai encostar em você… — disse baixo — nunca.
Ela não respondeu com palavras.
Só se apertou mais nele.
E, aos poucos…
a respiração dela foi acalmando.
O corpo relaxando.
A mente desacelerando.
Até que o cansaço venceu.
Cristiano, porém…
demorou mais pra dormir.
Ficou ali, olhando o teto no escuro, sentindo o peso dela sobre ele… e o peso do mundo lá fora.
Sabia que aquela paz…
era frágil.
Mas mesmo assim…valia tudo.
E ali, no meio do caos que era a vida dele…
Patrícia se tornou o único lugar onde ele ainda encontrava paz.