Larissa
Sabia que minha mãe viria, mas não sabia quando e me surpreendi quando a vi atravessando a porta do apartamento. Mas a surpresa maior foi saber que minha mãe e o pai de Matheus se conheciam, isso nem passava por minha cabeça.
Vejo todos estagnados diante o reconhecimento de meu sogro. Mas também queria saber por que minha tia a trouxe sem me avisar, o de ontem não conta, ela disse que viria não que a traria aqui. Não teremos quarto para mais um, já que o outro quarto está ocupado com as coisas do bebê e não há uma cama lá, somente o berço e a poltrona de amamentação.
O sorriso no rosto de minha mãe é intrigante, mas quero quebrar este clima logo, depois procurarei as respostas para as minhas perguntas.
— Não sabia que chegaria hoje, mamãe! – Atravessei a sala indo em sua direção. Ela abre os braços e um sorriso largo para mim.
— Oh, minha filha, está linda com essa barriga enorme.
— Estou um barril. – Disse a abraçando.
— É assim mesmo, e vai piorar até o nascimento. – É sério que minha mãe disse isso? Nem sei o que responder. – Não fique espantada, querida, ninguém diz a verdade: os pés ficam cada vez mais inchados, as costas doem e você não vai ter posição nem pra dormir. Os chutes se tornam mais doloridos, parece que vai quebrar as costelas e...
— A senhora gostaria de um suco, uma água... – Matheus interrompeu sua lista interminável de coisas horríveis sobre a gravidez.
Era verdade que eu estava quase do modo que ela descreveu, mas dito daquela forma... me pareceu muito agressivo. Agradeci internamente pela intromissão de meu futuro marido. Ele a levou para a cozinha tagarelando sobre a quantidade imensa de frutas que havia na cozinha e que ela deveria escolher com qual ele faria seu suco. O que era apenas uma desculpa para afasta-la e deixa-la por lá durante um tempo. Ando meio sensível, e por isso meus olhos nadaram em lágrimas.
— Larissa. – Minha tia falou chamando minha atenção. – Você disse que ia me mostrar o quartinho do Breno. – Ela veio em minha direção, provavelmente para me tirar dali, pois minha mãe voltaria em breve.
— Eu também quero ver o quarto do meu neto. – Minha sogra falou e eu sorri para ela levando as duas para o quartinho do meu filho.
Tinha ficado pronto semana passada e eu já fiquei babando no lugar durante muito tempo, sei que agora as duas que ficarão babando. Entrar ali era como entrar em um novo mundo, um mundinho só do meu pequeno e ter minha sogra e minha tia ali comigo era muito bom, me sentia bem dividindo esse mundinho com as duas.
— Que lindo. – Minha sogra falou logo que atravessou a porta do quarto, enquanto minha tia ficou calada observando cada cantinho e detalhe até falar algo.
— Está a sua cara. – Falou finalmente ao pegar um bichinho de pelúcia na prateleira. – Você sempre gostou de elefantinhos, e o quarto está cheio deles.
— Eu não me lembrava desse detalhe. – Ela veio com um elefantinho azul na mão.
— Mas eu me lembro. Uma vez você se encantou por um e foi aí que descobri que você gostava deles, te dei vários e você amou todos.
Me lembrei vagamente de fotos de quando era criança, e de fato tinham alguns desses bichinhos nelas. Sorri com a lembrança.
— Me lembrei agora.
— Adorei a combinação do azul com o verde, ficou lindo. O papel de parece também é lindo. – Disse minha sogra. – Já tem roupinhas? – Sorri com a pergunta.
— Claro, vou abrir o guarda roupas.
De um lado tinham vários pacotes de fraldas, lencinhos e todos esses acessórios de bebês. Do outro lado, nas prateleiras, estavam os cobertores, mantas e coisinhas do berço. As gavetas logo abaixo estavam recheadas de roupinhas.
Elas começaram a pegar os conjuntinhos, macacões e outras coisinhas. Eu já tinha pego e cheirado cada uma delas várias vezes, imaginando meu filho ali dentro.
Não dava para adiar o reencontro com minha mãe por muito tempo, e saí daquela bolha linda quando houve uma batida na porta do quarto e vi o rosto de Matheus com seus olhos implorando por desculpas e minha mãe logo atrás dele.
Não havia motivos para culpa-lo por aquilo. Ela entrou e se juntou as outras que ainda analisavam cada coisinha de Breno. Matheus se aproximou e me abraçou por trás espalmando suas mãos na minha barriga.
— Está tudo bem?
Confirmei com um gesto de cabeça e ergui meu rosto para que ele me beijasse.
Depois da indisposição com minha mãe, as coisas não foram tão ruins. Ela disse que ficaria na minha tia, o que notei que foi um alívio para todos, conversou educadamente e nos parabenizou pelo bebê, pareceu feliz por ser vovó e disse que veio especialmente para meu casamento. Depois ela se levantou, agradeceu a recepção e se foi.
Ao vê-la ir embora desabei no sofá ainda com sentimentos conflituosos: saudade, tensão, medo, raiva, alegria, tristeza... Suspirei e senti Matheus segurar minha mão.
Seus pais estavam sentados à nossa frente ainda presos em uma conversa, mas me lembrei que tinha minha última prova do vestido. Quase esqueço devido ao dia de hoje, que ainda tão cedo já tinha acontecimentos para dois dias.
— Matheus. – O chamo. – Vou ligar para Rebeca. Minha prova do vestido é daqui a pouco.
— Eu não posso ir mesmo? – Reviro os olhos.
— É claro que não.
— Eu quero ver minha nora em seu vestido de noiva. – A mãe de Matheus diz.
Minutos depois de eu ligar, Rebeca chega e vamos nós três para minha última prova do vestido.
Matheus
Vejo minha mulher sair e me estico no sofá. Esses dias não fui ao escritório devido ao meu casamento estar próximo, e se algo estivesse errado, Henrique, um jovem administrador muito talentoso e confiável, já teria me ligado.
— Onde vão passar a lua de mel? – Perguntou meu pai.
— Caribe. – Respondi todo pomposo, orgulhoso de ter pensado no melhor para minha mulher, ela iria amar a praia e todo luxo da pousada que reservei.
— Achei que viajariam aqui pelo Brasil mesmo, afinal ela está com a gravidez avançada. Não tiveram problemas com a autorização para o embarque dela?
— Autorização? – Me sentei bruscamente.
— É, Matheus, autorização. – Ele se reclinou para frente apoiando as braços nos joelhos. – Vai me dizer que não pegou o papel da autorização e nem a levou a um obstetra?
— Ela fez sua consulta do pré-natal, mas só isso. Nada relacionado a viagem. – Meu pai balançou a cabeça em reprovação e eu começava a ficar nervoso.
— Você é um i****a, Matheus. Ainda bem que estou aqui para ajudar, ligue agora mesmo para a empresa aérea.
Fiz o que meu pai disse no mesmo instante. Liguei para a empresa, olhando para as passagens em minhas mãos.
A conversa com a atendente não foi das melhores, pois ela confirmou o que meu pai havia dito, mas exigiu saber o tempo exato de gestação de minha mulher.
— Senhor, para lhe dar a informação corretamente, preciso saber de quantas semanas a sua esposa estará no momento do embarque tanto da viagem de ida quanto a de volta.
— Ela está de oito meses. – Respondi com o máximo de informação que tinha pela segunda vez. Ela suspirou do outro lado da linha.
— Acima de 30 semanas a sua mulher deverá apresentar um atestado médico, junto com os dados de embarque de ida e volta da viagem, a idade gestacional, a estimativa do nascimento do bebê... – Meu cérebro já não registrava mais nada a essa altura. Por que as pessoas estavam tão empenhadas em fazer listas nos últimos dias para mim?
— Ok! Você pode mandar todas essas exigências pelo e-mail? – Ela suspirou novamente do outro lado.
— Claro, senhor. Me informe seu e-mail, por favor.
Passei meu e-mail para a mulher e quando ia desligar, ela solta mais uma bomba.
— Lembrando que se ela estiver de 36 semanas em um dos embarques, é necessário o preenchimento do formulário MEDIF, que está disponível no site da empresa.
Mais essa para minha mente processar, como eu não sabia disso tudo? É claro, i*****l, você nunca viajou com uma gestante antes. Respondi ironicamente para mim mesmo.
— É claro, obrigado. – Respondo desanimado. Como vou resolver tudo isso agora sem falar para ela sobre a viagem?
— O que a atendente disse? – Meu pai quis saber.
— Que com sei lá quantas semanas de gestação, ela tem que pegar um atestado médico junto com um monte de coisa que não me lembro mais, e se ela estiver com mais de... – Pensei por dois segundos. – sei lá mais quantas semanas ela só pode viajar apresentando um formulário lá que baixa no site da empresa aérea.
Meu pai levantou as sobrancelhas para mim.
— Eu não acredito que você ligou para nada.
— Como para nada? Acabei de saber que não posso fazer a surpresa que queria para Larissa.
— Mas não se lembra dos detalhes mais importantes das informações.
— Ela vai mandar tudo para meu e-mail, pai.
— Pelo menos isso. – Bufou ele.
— Como vou fazer para ela não desconfiar de nada?
— Ligue para o obstetra dela e converse com ele.
— A obstetra, pai. Acha que ia deixar qualquer um olhar... a minha mulher?
— Sabe que na hora do parto não tem isso, não é. Você não escolhe, simplesmente os médicos e enfermeiros estão lá.
Bufei pensando que minha mulher ficaria exposta para um monte de t****o que não cansa de ver v*****s na vida e ainda vão ficar olhando a da minha mulher.
— Matheus, deixa de ser i****a. – Ele me repreende, mas meu cérebro não processa isso como idiotice e sim como cuidado.
— Eu vou entrar, quero ver quem vai ficar olhando minha mulher com desrespeito.
Ele esfrega os cabelos em sinal de impaciência.
— Liga logo para a obstetra. – Ordena ele, e lá vamos nós novamente.
Explico tudo para a doutora que agenda uma consulta. Ela me prometeu não contar a ela se não achasse necessário, foi o melhor que consegui. Assim que desligo o telefone e informo ao meu pai que pelo menos essa parte está resolvida, o silêncio reino na sala e então me lembro.
— Pai. – Chamei-o. Continuei quando ele desviou seus olhos do celular e olhou para mim. – Como você sabia o nome da mãe de Larissa, se nem eu sabia?
Ela suspirou.
— Não toca nesse assunto perto da sua mãe.
— Por quê? – Ele me olha sério e então eu entendo. – c****e, pai.
— Olha a boca, Matheus.
— Nem é palavrão, pai, e você sabe. Pior é você que colocou chifres na mamãe...
— Cala essa boca, moleque! – Ih, pronto, agora deu r**m. Esquentei o velho. – Não traí a sua mãe, não fale daquilo que não sabe.
— Então como a conhece? – Inquiri.
— A conheci em uma das minhas viagens para cá, antes de conhecer sua mãe. Foi só... nada importante. E nunca imaginei encontra-la novamente.
— Creio que mamãe não saiba disso.
— Não, nem tem motivos para saber, é coisa do passado.
— Sabe que ela ficaria p... pra morrer de tanto ódio. – Mudo o que iria dizer, antes que meu pai me chame a atenção novamente.
— Sei, mas nem teria motivos para isso.
Escuto o som da porta se abrindo, e o assunto se encerra. Fico todo b***a quando vejo minha mulher entrando com um sorriso todo feliz e acariciando nosso filho em seu ventre.