Pré-visualização gratuita Capítulo I
Eu sempre achei que a minha vida era simples demais para virar história. Não daquelas que as pessoas leem até de madrugada, nem daquelas que fazem alguém suspirar ou chorar no autocarro fingindo que é alergia. A minha vida era comum. Previsível. Acordar cedo, reclamar do despertador, prometer que ia dormir mais cedo naquela noite e nunca cumprir. Eu tinha dezassete anos e acreditava, com a arrogância inocente de quem nunca enfrentou nada realmente grande, que sabia exatamente o que queria do mundo.
Acordava todos os dias às cinco e quarenta e cinco da manhã, não porque gostasse, mas porque a escola ficava longe o suficiente para me obrigar a sair de casa antes do sol decidir aparecer. O quarto ainda ficava mergulhado numa penumbra azulada quando eu esticava o braço para desligar o despertador, e durante alguns segundos eu ficava ali, olhando para o teto, imaginando como seria morar numa cidade maior, onde as luzes dos prédios nunca se apagam completamente e onde ninguém conhece o nome da sua mãe antes mesmo de saber o seu.
Eu morava numa cidade pequena demais para guardar segredos. Aqui, se você espirra na rua principal, alguém pergunta à sua tia se você está gripada antes do almoço. Crescer ali era como viver numa vitrine constante. Todo mundo sabia quem você era, com quem você andava, quais notas tirava e se tinha brigado com o namorado na noite anterior. Às vezes eu me sentia presa, mas ao mesmo tempo havia um conforto estranho na previsibilidade daquele lugar.
Minha mãe dizia que eu tinha pressa demais. “Ana, você quer viver tudo de uma vez só”, ela falava enquanto mexia o café na caneca como se estivesse tentando dissolver minhas inquietações junto com o açúcar. Talvez fosse verdade. Eu tinha pressa. Pressa de crescer, de sair, de estudar fora, de ter meu próprio apartamento com janelas grandes e plantas na sala. Eu queria um futuro que não coubesse nas ruas estreitas da minha cidade.
Na escola, eu não era invisível, mas também não era o centro das atenções. Eu tinha minhas amigas, meu grupo fixo no intervalo, minhas risadas altas demais que sempre chamavam atenção do professor de matemática. Eu gostava de estudar, principalmente literatura. Havia algo quase íntimo em ler palavras que alguém escreveu há anos e ainda assim sentir que falavam diretamente comigo. Talvez fosse por isso que eu mantinha um caderno escondido na última gaveta da escrivaninha, onde escrevia pensamentos que nunca teria coragem de dizer em voz alta.
Meu namorado, Miguel, estudava na mesma escola que eu. Ele era do tipo que todos cumprimentavam pelos corredores, não porque fosse o mais inteligente ou o mais rebelde, mas porque tinha aquele carisma fácil que fazia as pessoas se sentirem incluídas. Quando começamos a namorar, eu senti que estava vivendo uma daquelas histórias adolescentes que parecem simples demais para dar errado. Ele segurava minha mão no intervalo, me deixava usar o casaco dele quando o vento ficava mais frio e dizia que eu era diferente das outras meninas — e naquela época eu achava que isso era a coisa mais romântica do mundo.
Nossos dias eram compostos de pequenas rotinas que pareciam eternas. A caminhada até o ponto de autocarro depois da aula. As mensagens trocadas à noite, mesmo depois de termos passado o dia inteiro juntos. Os planos exagerados sobre o futuro, como se fosse fácil manter promessas quando o mundo ainda não tinha nos testado. Ele dizia que iríamos estudar na mesma cidade, dividir um apartamento pequeno, adotar um cachorro. Eu ria e fingia acreditar que tudo era tão simples assim.
Mas, se eu for completamente honesta, havia momentos em que eu sentia uma inquietação que não sabia explicar. Não era sobre ele exatamente. Era sobre mim. Era como se, por trás dos meus planos organizados, houvesse uma voz sussurrando que a vida raramente respeita roteiros. Eu ignorava essa voz. Eu era jovem demais para levar presságios a sério.
Em casa, as coisas seguiam um ritmo diferente. Meu pai trabalhava o dia inteiro e quase sempre chegava cansado, com as mãos marcadas pelo esforço e o olhar distante. Minha mãe equilibrava tudo — contas, comida, conselhos e silêncios. Eu era filha única, o que significava que todas as expectativas da casa repousavam sobre mim de uma maneira quase invisível. Não era uma cobrança declarada, mas eu sentia. Sentia quando meu pai dizia que eu iria “ser alguém grande”. Sentia quando minha mãe comentava sobre como eu era a esperança da família.
Eu carregava sonhos que não eram só meus. E talvez por isso eu tivesse tanto medo de errar, mesmo antes de saber que erros podem chegar sem aviso.
Meu dia a dia parecia organizado em blocos seguros: escola, casa, estudos, Miguel, mensagens de madrugada, planos sobre o futuro. Eu acreditava que tinha controle. Que bastava querer muito alguma coisa para que ela acontecesse. Eu acreditava que amor era suficiente para sustentar qualquer promessa. Eu acreditava que responsabilidade era algo distante, uma palavra que pertencia ao vocabulário dos adultos.
Havia tardes em que eu me sentava na varanda de casa, observando o movimento da rua, e imaginava minha versão futura olhando para aquela cena com nostalgia. Eu pensava que sentiria saudade daquela tranquilidade, das conversas simples, da segurança de saber exatamente como o dia seguinte começaria. Eu não sabia que sentiria saudade da ingenuidade.
Se alguém me perguntasse naquela época quem eu era, eu diria: “Ana, dezassete anos, cheia de planos.” Eu não mencionaria medos, porque achava que não tinha. Eu não mencionaria dúvidas, porque fingia que não existiam. Eu não mencionaria fragilidade, porque ainda não tinha sido forçada a encará-la.
A verdade é que eu vivia como quem anda por uma ponte acreditando que ela nunca vai tremer. E talvez tenha sido isso que tornou tudo mais assustador depois — a queda não veio acompanhada de aviso. Não houve música dramática, nem um momento específico que eu pudesse apontar e dizer: foi aqui que tudo começou a mudar.
Naquela fase da minha vida, eu só sabia de uma coisa com certeza absoluta: eu queria mais. Mais mundo. Mais amor. Mais futuro.