Às vezes eu acho que a escola é um teatro.
Todo mundo interpreta alguma coisa. A menina que finge que não liga para ninguém. O rapaz que age como se já soubesse tudo da vida. A amiga que jura que está bem depois de um término. E eu… eu interpretava a garota segura, decidida, apaixonada e absolutamente certa das próprias escolhas.
Naquela manhã, acordei com uma sensação estranha de expectativa. Não era ansiedade exatamente. Era como se o dia prometesse alguma coisa que eu ainda não conseguia identificar. Vesti o uniforme com mais cuidado do que o habitual, passei um pouco de gloss — nada exagerado — e fiquei alguns segundos me olhando no espelho.
Dezessete anos.
Ainda aprendendo a ser mulher.
No caminho para a escola, encontrei Bia na esquina de sempre. Ela estava mastigando um chiclete com expressão desconfiada.
— Você está diferente — ela disse, estreitando os olhos.
— Por que todo mundo anda dizendo isso?
— Porque você está.
Eu ri, mas senti o leve peso da observação.
Entramos pelo portão juntas, atravessando o pátio que já começava a encher. A escola tinha aquele cheiro misturado de perfume adolescente, papel e cantina fritando alguma coisa que ninguém sabia exatamente o que era. O barulho era constante: risadas altas, passos apressados, vozes se sobrepondo.
Eu avistei Miguel quase imediatamente. Ele estava encostado perto das escadas, conversando com dois amigos. Quando me viu, abriu um sorriso que fez meu estômago se contrair do jeito que sempre acontecia. Ainda era novo o suficiente para me afetar.
Ele caminhou até mim sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo, e segurou minha cintura com naturalidade. Aquele gesto simples sempre me deixava consciente do espaço entre nós — ou da falta dele.
— Bom dia, linda — ele murmurou perto do meu ouvido.
Meu coração acelerou um pouco mais do que deveria para algo tão simples.
— Bom dia — respondi, tentando parecer tranquila.
Ele me beijou ali mesmo, no meio do pátio. Não foi rápido. Não foi inocente. Foi daqueles beijos que começam suaves e, quando você percebe, já estão carregados de algo que ultrapassa o público ao redor.
Quando nos afastamos, eu senti meu rosto quente. Não de vergonha, mas de intensidade.
Durante a primeira aula, eu tentei prestar atenção, mas minha mente estava dispersa. Não por causa de alguma grande preocupação — era só aquela consciência constante de que algo entre mim e Miguel estava mudando aos poucos. Não de forma r**m. Só… diferente.
No intervalo, sentei com Bia e as meninas perto da quadra. O assunto era, claro, relacionamentos.
— Eu acho que homem tem medo de mulher decidida — disse Carla, mexendo no cabelo.
— Não é medo. É preguiça — Bia respondeu.
Elas riram.
— E você, Ana? — Carla perguntou. — Como estão as coisas com o príncipe encantado?
Eu hesitei por um segundo.
— Bem.
Bia me olhou como quem diz “só isso?”
— Bem como? — insistiu Carla.
Eu respirei fundo.
— A gente está… mais próximo.
Bia arqueou a sobrancelha.
— Mais próximo quanto?
Eu senti o calor subir pelo pescoço.
— Só mais próximo, Bia.
Elas riram, mas não de deboche. Era aquela curiosidade típica de amigas que compartilham tudo. Mesmo assim, havia coisas que eu ainda guardava só para mim — principalmente o turbilhão silencioso dentro de mim quando Miguel me tocava de maneira diferente.
Eu nunca tinha ido além dos beijos. Nunca tinha ultrapassado aquela linha invisível que separa a menina da mulher. E não era por medo dele. Era por medo de mim. Do que significava crescer rápido demais.
Depois do intervalo, tive aula vaga. Miguel apareceu na porta da sala com aquele olhar que eu já começava a reconhecer.
— Vem comigo.
— Para onde?
— Só vem.
Fomos até o corredor mais vazio do segundo andar, onde quase ninguém passava durante aquele horário. Ele me encostou suavemente contra a parede, aproximando-se devagar, como se estivesse me dando tempo para recuar.
Mas eu não recuei.
O beijo começou lento. As mãos dele deslizaram pela minha cintura, subindo até minhas costas. Meu corpo reagiu antes da minha mente conseguir organizar qualquer pensamento coerente. Havia desejo ali — inegável, crescente, quase assustador na intensidade.
Quando ele aprofundou o beijo, senti minhas pernas ficarem levemente instáveis. Era como se cada toque despertasse algo novo em mim, algo que eu ainda estava aprendendo a reconhecer.
Ele se afastou apenas o suficiente para encostar a testa na minha.
— Você confia em mim, não confia?
A pergunta não era acusatória. Era suave. Mas carregava um peso.
— Confio — respondi.
E era verdade.
Só que confiar nele não significava automaticamente estar pronta.
Minhas mãos estavam apoiadas no peito dele, sentindo o ritmo acelerado da respiração. O coração dele estava tão rápido quanto o meu. Aquilo me tranquilizou um pouco. Não era só eu que estava nervosa.
— A gente não precisa fazer nada que você não queira — ele disse, como se tivesse lido meus pensamentos.
E foi justamente isso que me fez perceber que a decisão não era sobre pressão. Era sobre escolha.
Eu me inclinei e o beijei de novo, mas dessa vez com menos urgência. Mais controle. Como se estivesse dizendo, sem palavras, que eu ainda estava no comando do meu próprio tempo.
Quando voltamos para o pátio, Bia estava nos observando de longe.
— Vocês dois vão acabar incendiando essa escola — ela comentou quando me sentei ao lado dela.
Eu ri, mas por dentro sentia algo mais complexo do que simples paixão adolescente.
Sentia que estava no limite entre duas versões de mim mesma. A que ainda segurava a inocência com cuidado. E a que começava a entender o próprio desejo.
Naquele dia, enquanto caminhava para casa, pensei que crescer não era um evento. Era uma sequência de pequenos momentos como aquele no corredor — decisões silenciosas, quase invisíveis, mas que moldam quem você se torna.
Eu ainda era virgem.
Ainda era filha.
Ainda era a menina cheia de planos.
Mas, pela primeira vez, eu senti que a linha entre o antes e o depois estava ficando cada vez mais tênue.
E eu não sabia, ainda, o quanto isso importava.