Eu acordei antes do despertador tocar, o que quase nunca acontecia, e fiquei alguns segundos deitada olhando para o teto, ouvindo os sons suaves da casa despertando aos poucos — o barulho distante de uma panela sendo colocada no fogão, o arrastar discreto das sandálias da minha mãe pelo corredor, o latido preguiçoso do cachorro do vizinho anunciando que o dia estava oficialmente começando — e, por algum motivo, senti uma estranha vontade de segurar aquele instante como se ele fosse mais importante do que aparentava, como se aquela manhã comum escondesse algum tipo de significado que eu ainda não era capaz de compreender, mas que meu coração pressentia em silêncio.
Levantei devagar, empurrando o cobertor para o lado e sentindo o chão frio sob os pés, caminhando até o espelho com o cabelo ainda bagunçado e o rosto marcado pelo travesseiro, e fiquei ali me observando por um tempo maior do que o normal, analisando cada detalhe como se procurasse alguma mudança invisível que justificasse a inquietação que vinha me acompanhando nos últimos dias; mas tudo parecia igual — os mesmos olhos castanhos curiosos demais para a própria idade, a mesma boca que sorria fácil, o mesmo ar de menina que insistia em coexistir com a vontade urgente de crescer.
Escolhi o uniforme com cuidado, mesmo sendo sempre igual, e prendi o cabelo num r**o de cavalo alto que me dava uma falsa sensação de organização, passei um pouco de hidratante no rosto, um toque leve de gloss, e respirei fundo antes de sair do quarto, como se estivesse me preparando para enfrentar algo muito maior do que apenas mais um dia de aula, quando na verdade eu sabia que o dia provavelmente seria igual a todos os outros — e talvez fosse exatamente isso que me deixava desconfortável, essa repetição constante, essa previsibilidade que parecia confortável demais.
Na cozinha, minha mãe me olhou por cima da xícara de café e sorriu daquele jeito que mistura carinho e expectativa, perguntando se eu tinha dormido bem, se estava preparada para a prova de história, se lembrava que precisava ajudar com algumas coisas em casa mais tarde, e eu respondi automaticamente que sim para tudo, porque era mais fácil manter a imagem de filha organizada do que explicar que minha mente estava longe, perdida em pensamentos que nem eu conseguia organizar direito; peguei uma torrada, dei um beijo rápido na bochecha dela e saí antes que começasse a me atrasar.
O caminho até a escola sempre foi o meu momento favorito do dia, porque era o único em que eu estava sozinha com meus pensamentos, caminhando pelas ruas ainda tranquilas, observando as lojas abrindo, as pessoas se cumprimentando, os ônibus passando apressados, e imaginando como seria minha vida dali a alguns anos, quando eu finalmente saísse daquela cidade pequena que parecia saber demais sobre mim; eu sonhava em estudar fora, em morar num apartamento pequeno com paredes claras e uma estante cheia de livros, em ter uma rotina que fosse só minha, e enquanto caminhava naquela manhã, senti essa vontade de futuro pulsando forte dentro de mim, quase como se fosse um lembrete constante de que eu não queria permanecer igual para sempre.
Quando cheguei ao portão da escola, avistei Bia encostada perto da árvore grande do pátio, mexendo no celular com aquela expressão concentrada que ela fazia quando estava lendo algo interessante demais para ignorar; assim que me viu, abriu um sorriso largo e guardou o telefone, vindo na minha direção com passos rápidos.
— Você está com cara de quem pensou demais antes de sair de casa — ela disse, sem nem me dar bom dia primeiro.
Eu ri, porque ela tinha esse talento irritante de me ler como um livro aberto, e respondi que talvez tivesse sido só a ansiedade da prova, embora soubéssemos que não era só isso; entramos juntas pelo corredor principal, ouvindo o burburinho crescente dos alunos, os armários sendo fechados, as risadas ecoando pelas paredes, e por alguns instantes me deixei envolver por aquela energia caótica que, de alguma forma, sempre me fazia sentir parte de algo maior.
A primeira aula passou lenta, arrastada, e eu me peguei distraída olhando pela janela enquanto o professor explicava datas importantes que eu já tinha decorado na noite anterior; minha mente insistia em vagar por pensamentos aleatórios — o sorriso de Miguel no dia anterior, a conversa sobre o trabalho em grupo que eu teria que fazer naquela tarde, o comentário de minha mãe sobre responsabilidade — e quando o sinal finalmente tocou, senti um alívio exagerado para algo tão simples.
No intervalo, sentei com Bia e as meninas perto da quadra, e a conversa girou naturalmente em torno do trabalho de literatura que precisaríamos entregar na semana seguinte, um projeto em grupo que exigia pesquisa, análise e uma apresentação criativa, o que basicamente significava que passaríamos horas juntas tentando equilibrar produtividade com risadas inevitáveis; decidimos que faríamos o trabalho na casa da Carla naquela tarde, porque os pais dela sempre deixavam a sala disponível e tinham a melhor conexão de internet entre todas nós.
Miguel apareceu alguns minutos depois, aproximando-se com aquele jeito confiante que sempre chamava atenção sem que ele precisasse fazer esforço, e quando ele passou o braço pela minha cintura senti aquela familiar mistura de conforto e eletricidade que me acompanhava sempre que ele estava perto; ele perguntou sobre meu dia, comentou algo engraçado sobre um professor, e me beijou rapidamente, mas com intensidade suficiente para fazer minhas amigas trocarem olhares cúmplices atrás de mim.
Eu gostava da sensação de pertencer a alguém, de ser escolhida, mas ao mesmo tempo começava a perceber que meu mundo não podia se resumir apenas a isso, e talvez fosse por isso que a ideia de passar a tarde com as meninas me animava tanto — havia algo reconfortante na amizade feminina, na cumplicidade leve, na liberdade de falar qualquer coisa sem medo de julgamento.
Depois das aulas, seguimos juntas até a casa da Carla, caminhando sob o sol da tarde que já começava a esquentar mais do que deveria, conversando sobre banalidades que, naquele momento, pareciam assuntos urgentes — quem tinha brigado com quem, quem estava gostando de quem, quais seriam nossos planos depois da formatura — e quando entramos na sala espaçosa da casa dela, espalhamos livros, cadernos e celulares pela mesa como se estivéssemos realmente determinadas a sermos produtivas.
Começamos o trabalho com uma organização quase exemplar, dividindo tarefas, anotando ideias, pesquisando referências, mas não demorou muito para que as conversas paralelas tomassem conta do ambiente, misturando trechos de análise literária com confissões pessoais e risadas altas demais; em determinado momento, Carla perguntou se eu e Miguel estávamos “mais sérios” do que antes, e eu senti minhas bochechas esquentarem levemente enquanto respondia que estávamos bem, que ele era importante para mim, mas que eu ainda estava tentando entender meus próprios limites.
Bia me lançou um olhar discreto, daqueles que dizem “depois a gente conversa”, e eu soube que ela estava guardando aquela resposta para um momento mais íntimo, talvez quando estivéssemos sozinhas; continuei focada no trabalho, sublinhando frases do livro, argumentando sobre o simbolismo da história que estávamos analisando, mas parte de mim estava consciente de que aquelas tardes simples, cheias de risadas e