Capítulo IV

1040 Palavras
Naquela manhã eu acordei com a sensação de que algo estava prestes a acontecer, embora eu não soubesse exatamente o quê, e passei alguns minutos encarando o teto enquanto o ventilador girava lentamente acima de mim, espalhando um vento morno que não era suficiente para afastar o calor, mas servia como desculpa para eu continuar deitada fingindo que tinha tempo de sobra, quando na verdade minha mente já estava desperta demais, repassando detalhes do dia anterior, especialmente o jeito como Miguel tinha me olhado antes de se despedir, como se houvesse uma pergunta suspensa no ar entre nós dois, algo que não foi dito mas ficou implícito. Levantei mais devagar do que o habitual, tomando banho com aquela sensação estranha de consciência sobre o próprio corpo, como se cada gesto fosse novo, como se eu estivesse aprendendo a ocupar meu espaço dentro de mim mesma, e enquanto a água caía sobre meus ombros eu pensei no quanto crescer era silencioso, no quanto ninguém te avisa que em algum momento você vai começar a sentir as coisas de forma mais intensa, mais física, mais confusa, e ainda assim vai precisar continuar fingindo que está tudo sob controle. Na escola, o movimento parecia mais agitado do que o normal, talvez porque a semana estivesse avançando e todos já demonstrassem sinais de cansaço acumulado, mas quando atravessei o portão e vi Miguel encostado na parede perto da escada, senti aquele conhecido aperto no estômago que misturava conforto e expectativa, e foi inevitável sorrir antes mesmo que ele percebesse que eu estava ali. Ele veio até mim com passos firmes, segurou minha mão e entrelaçou nossos dedos como se fosse a coisa mais natural do mundo, e talvez fosse, mas o jeito como seu polegar fazia pequenos movimentos sobre minha pele não parecia inocente, não parecia distraído, parecia intencional, e isso me deixava consciente demais de cada centímetro entre nós. — Você ficou estranha ontem à noite — ele comentou enquanto caminhávamos pelo corredor. — Estranha como? — perguntei, tentando manter o tom leve. — Distante. Eu parei por um segundo, porque não tinha percebido que ele tinha notado. — Eu só estava cansada. Ele me olhou de lado, analisando minha resposta como se tentasse decidir se acreditava nela ou não, e por um instante eu senti medo de que ele enxergasse mais do que eu estava pronta para mostrar. Durante a aula, eu me peguei distraída novamente, mas dessa vez não era apenas inquietação vaga; era a consciência crescente de que nossa relação estava caminhando para um ponto de definição, como se estivéssemos nos aproximando de uma fronteira invisível que exigia decisão, maturidade e coragem, e eu ainda não tinha certeza se possuía tudo isso na medida certa. No intervalo, Bia me puxou para um canto mais reservado do pátio, longe dos ouvidos curiosos das outras meninas. — O que está acontecendo com você e o Miguel? — ela perguntou diretamente. Eu respirei fundo antes de responder, porque não queria dramatizar, mas também não queria mentir. — Nada está acontecendo. Ou talvez esteja… eu não sei. Ela cruzou os braços, esperando que eu continuasse. — Parece que estamos sempre à beira de alguma coisa — admiti. — E eu não sei se estou pronta. Bia suavizou a expressão. — Você não deve nada a ninguém, Ana. Nem tempo, nem pressa. Eu sabia disso. Sabia racionalmente. Mas existia uma diferença enorme entre saber e sentir. Quando as aulas terminaram, Miguel me chamou para caminhar até a praça antes de eu ir para casa. Aceitei, porque parte de mim queria prolongar aquela conversa silenciosa que ainda não tínhamos tido de verdade. Sentamos num banco afastado, sob uma árvore grande que fazia sombra suficiente para nos proteger do sol da tarde, e por alguns minutos ficamos apenas observando as pessoas passando, crianças correndo, vendedores ambulantes chamando clientes, como se o mundo estivesse acontecendo normalmente enquanto nós dois vivíamos algo mais delicado. — Eu sinto que você está com medo de mim — ele disse de repente. Virei o rosto rapidamente. — Não estou. — Então do que você está com medo? A pergunta ficou entre nós, pesada. Eu demorei para responder, porque precisava organizar meus pensamentos antes de deixá-los sair em voz alta. — Não é de você, Miguel. É de mudar. De crescer rápido demais. De fazer coisas que eu ainda não sei se estou pronta para fazer. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo minhas palavras, e depois segurou meu rosto com cuidado, como se eu fosse algo frágil demais para ser tratado com descuido. — Eu nunca quis que você se sentisse pressionada. Eu acreditei nele. Acreditei porque o olhar dele não carregava impaciência, apenas desejo misturado com algo mais profundo — talvez expectativa. Ele se inclinou e me beijou, devagar, dando tempo para que eu pudesse recuar se quisesse, mas eu não recuei. O beijo foi diferente dos outros, não mais intenso, mas mais consciente, como se estivéssemos testando limites invisíveis, como se cada segundo fosse uma pergunta silenciosa. Quando ele deslizou a mão pela minha cintura e a manteve ali, firme, senti meu corpo reagir antes que minha mente conseguisse organizar qualquer pensamento coerente, e por um momento tudo que existia era a sensação da proximidade, do calor, do coração dele batendo contra o meu. Mas então eu me afastei alguns centímetros, apenas o suficiente para recuperar o fôlego. — Eu preciso de tempo — sussurrei. Ele encostou a testa na minha. — Eu posso esperar. Aquelas palavras deveriam ter me tranquilizado completamente, mas, em vez disso, despertaram uma responsabilidade nova dentro de mim, porque esperar também era uma forma de expectativa, e eu sabia que em algum momento teria que decidir qual versão de mim mesma eu queria ser. Caminhei para casa com o coração pesado e leve ao mesmo tempo, como se estivesse carregando algo precioso demais para deixar cair, e naquela noite, enquanto me deitava na cama e revivia cada detalhe do dia, percebi que crescer não era apenas sobre descobrir o próprio desejo, mas sobre aprender a dizer sim e não com a mesma segurança. Eu ainda era virgem. Ainda estava aprendendo. Ainda estava tentando entender o que significava amar alguém sem perder a mim mesma.
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