Capítulo V

1227 Palavras
Depois que eu disse que precisava de tempo, o ar da sala mudou de densidade. Não ficou pesado de forma r**m, mas ficou real. Pela primeira vez naquela noite, não éramos apenas dois adolescentes guiados pelo desejo e pela curiosidade; éramos duas pessoas conscientes de que qualquer passo a mais carregava um significado que ultrapassava o momento. Miguel se afastou apenas o suficiente para me olhar direito. Eu conseguia ver o conflito nos olhos dele — não de frustração, mas de contenção. Ele estava segurando algo. Talvez impulso. Talvez expectativa. Talvez medo de me perder se pressionasse demais. — Eu posso colocar um filme — ele sugeriu, tentando devolver leveza à noite. Eu assenti, agradecida por aquela tentativa silenciosa de reorganizar as coisas. Enquanto ele mexia no controle da televisão, eu observei a sala com mais atenção. As luzes estavam baixas, apenas o abajur no canto iluminava o ambiente com um tom amarelado que deixava tudo mais íntimo do que eu tinha previsto. O sofá era grande demais para nós dois, mas ainda assim parecia pequeno quando estávamos tão próximos. Sentei novamente, mas dessa vez mantendo uma distância mínima, quase imperceptível, como se meu corpo ainda estivesse recalibrando limites. Ele voltou com duas latas de refrigerante e sentou ao meu lado, não colado como antes, mas perto o suficiente para que nossos joelhos se tocassem. O filme começou, mas eu não prestei atenção na história. Minha mente estava ocupada demais revivendo cada segundo de minutos atrás. O jeito como minhas mãos tinham tremido. O calor subindo pelo meu pescoço. A facilidade assustadora com que eu quase tinha deixado tudo acontecer. Eu não tinha medo dele. Eu tinha medo do depois. Medo de acordar no dia seguinte diferente. Medo de sentir que tinha atravessado uma fase sem estar preparada. Medo de carregar uma maturidade que talvez ainda não coubesse em mim. Em algum momento, Miguel entrelaçou nossos dedos novamente. Dessa vez não havia urgência. Havia calma. Ele fazia pequenos círculos com o polegar na minha mão, como se estivesse dizendo sem palavras: eu ainda estou aqui. Eu me inclinei e encostei a cabeça no ombro dele. A respiração dele estava mais estável agora. O coração já não batia tão descompassado quanto antes. Aos poucos, o silêncio entre nós deixou de ser tensão e virou conforto. — Você acha que a gente está crescendo rápido demais? — perguntei de repente, mantendo os olhos na televisão. Ele demorou a responder. — Eu acho que a gente está crescendo. E crescer nunca é confortável. Aquilo ficou ecoando dentro de mim. Crescer nunca é confortável. Talvez fosse exatamente isso que eu estivesse sentindo. Não medo do amor. Não medo dele. Mas desconforto da transição. O filme avançava, cenas passando sem que eu registrasse quase nada. Eu estava consciente demais do meu próprio corpo, da proximidade dele, do fato de que bastaria um gesto pequeno para que tudo recomeçasse de onde tinha parado. E a parte mais assustadora era que eu queria. Eu queria saber como seria. Queria entender o que tanto mudava depois daquela linha invisível. Queria provar para mim mesma que era madura o suficiente para lidar com o que viesse. Mas querer não é o mesmo que estar pronta. Em determinado momento, ele virou o rosto na minha direção. Eu senti antes mesmo de olhar. — Eu não quero que você pense que eu só te chamei aqui por isso — ele disse em voz baixa. Eu levantei o rosto. — Eu sei. E eu realmente sabia. Havia desejo, sim. Mas também havia carinho, história, construção. Não éramos um acaso. Éramos meses de mensagens de madrugada, risadas no intervalo, promessas feitas no banco da praça. — Eu só… às vezes sinto que todo mundo já passou por isso menos a gente — ele continuou. Eu entendi. A comparação silenciosa. A pressão social que ninguém admite sentir, mas que está sempre ali. Comentários de amigos. Histórias exageradas nos corredores. A ideia de que maturidade se mede por experiências acumuladas. — Eu não quero fazer nada porque “todo mundo já fez” — respondi, firme. Ele assentiu. — Eu também não. Mas a frase veio com uma leve hesitação. Pequena demais para ser acusatória. Grande demais para passar despercebida. Ficamos em silêncio novamente. O tipo de silêncio que não é vazio, mas cheio de pensamentos paralelos. Eu me levantei para ir até a cozinha pegar água, precisando de alguns segundos sozinha para reorganizar a mente. Enquanto enchia o copo, encarei meu reflexo no vidro da janela escura. Eu parecia a mesma. Mas por dentro, algo estava diferente. Eu estava começando a entender o peso das escolhas. Quando voltei para a sala, Miguel estava sentado mais relaxado, mas o olhar dele suavizou quando me viu. — Vem cá — ele disse, abrindo espaço. Sentei novamente, dessa vez me acomodando de lado, de frente para ele. Nossos joelhos se tocaram. Ele levou a mão até meu rosto com cuidado, como se estivesse lidando com algo precioso. — Eu não quero ser um ponto de pressão na sua vida, Ana. A frase me desmontou um pouco. Porque, no fundo, eu sabia que ele também estava aprendendo. Também estava inseguro. Também tinha medo de errar. Eu segurei a mão dele. — Você não é. Eu só preciso que você entenda que quando acontecer… eu quero que seja porque eu estou inteira na decisão. Ele assentiu, sério. — Eu quero que seja assim também. Ficamos ali, conversando por muito tempo depois disso. Sobre planos. Sobre faculdade. Sobre sair da cidade. Sobre como imaginávamos nosso futuro. Era estranho perceber como conseguíamos falar de morar juntos em outra cidade com tanta facilidade, mas travávamos diante de uma decisão imediata. Talvez porque o futuro pareça distante o suficiente para não assustar. O presente não. Quando olhei no relógio, já estava tarde demais para continuar fingindo que o tempo não tinha passado. Eu precisava ir embora. Ele me acompanhou até a porta. O clima entre nós estava diferente agora. Não pesado. Mas consciente. Antes que eu saísse, ele me puxou pela cintura mais uma vez. O beijo foi lento. Profundo. Não urgente. Um beijo que dizia: a gente ainda está aqui. Quando me afastei, senti o coração bater forte de novo. Mas dessa vez não era só desejo. Era maturidade nascendo devagar. — Eu vou esperar — ele disse. Eu sorri, mas dentro de mim eu sabia que aquela espera também tinha prazo invisível. Não imposto por ele. Mas pelo próprio ritmo da vida. Caminhei de volta para casa sentindo o vento da noite bater no meu rosto, tentando organizar o que aquela noite tinha significado. Eu quase atravessei a linha. Quase deixei o impulso decidir. Quase troquei a dúvida por ação. Mas voltei para casa ainda sendo a mesma menina — com um pouco mais de consciência, um pouco mais de responsabilidade, um pouco mais de noção de que o amor não é só sobre sentir, mas sobre escolher. Quando deitei na cama, o silêncio do meu quarto parecia diferente do silêncio da casa dele. Aqui era seguro. Familiar. Infantil até. E eu percebi que talvez meu maior medo não fosse crescer. Talvez fosse crescer e perder a leveza. Fechei os olhos revivendo o toque, o olhar, o quase. E, antes de dormir, pensei que algumas noites não mudam sua vida pelo que acontece. Mudam pelo que quase aconteceu.
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