Capítulo XV

1135 Palavras
O quarto parecia menor nos dias seguintes. Não fisicamente — as paredes continuavam no mesmo lugar, a cama na mesma posição, a janela aberta deixando o vento entrar no fim da tarde. Mas havia algo comprimindo o espaço. Algo invisível, denso. O assunto não ia embora. Ele ficava sentado entre nós. Miguel estava mais quieto durante o dia, mas à noite, quando o mundo desacelerava, ele falava. E cada conversa parecia começar calma e terminar num lugar delicado demais. — Eu fiquei pensando — ele disse numa dessas noites, sentado na beira da cama, os cotovelos apoiados nos joelhos. — A gente precisa ser realista. Realista. A palavra começou a me incomodar. — Você acha que eu não estou sendo? — perguntei. Ele suspirou. — Eu acho que você está sendo emocional. Aquilo me atingiu. — E você acha que isso é errado? — Não — ele respondeu rápido. — Mas não pode ser só isso, Ana. Eu me levantei da cama, sentindo o calor subir pelo corpo. — Não é “só isso”. É o meu corpo. É dentro de mim. Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso. — Eu sei. Eu sei. Mas a consequência é para nós dois. Houve um silêncio pesado. Ele estava certo. Mas eu também estava. E essa era a pior parte. — Eu só não quero que você tome uma decisão que vai te prender — ele continuou. — Você tem planos. Faculdade. Seus sonhos. — E você acha que eu deixaria de ter sonhos? Ele hesitou. Essa hesitação doeu mais do que qualquer resposta direta. — Eu acho que seria mais difícil. Mais difícil. A palavra ecoou como sentença. — Então você prefere que eu tire? — perguntei, encarando-o. Ele fechou os olhos por um segundo. — Eu prefiro que você pense no que é melhor para a sua vida. — Ou no que é mais fácil? Ele abriu os olhos. E ali, pela primeira vez, havia frustração. — Não é sobre facilidade! É sobre sobrevivência. A palavra ficou no ar. Sobrevivência. Como se continuar fosse um risco extremo. Como se interromper fosse um botão de reiniciar. Mas nada reiniciaria. Eu sabia disso. Naquela noite, depois que ele foi embora, eu fiz o que vinha evitando. Peguei o celular. Pesquisei. “Gravidez não planejada o que fazer.” Os resultados surgiram frios, objetivos, clínicos. Opção 1: continuar a gestação. Opção 2: interrupção. Opção 3: adoção. Eu nunca tinha pensado na terceira. Continuei lendo. Relatos de meninas que seguiram em frente. Relatos de meninas que interromperam. Relatos de arrependimento. Relatos de alívio. Relatos contraditórios. Nada era simples. Entrei em fóruns anônimos. Li histórias escritas às três da manhã por meninas com medo. Algumas diziam: “Foi a decisão certa.” Outras escreviam: “Eu nunca superei.” Meu coração apertava a cada testemunho. Pesquisei sobre o procedimento. Datas limite. Riscos. Efeitos físicos. Efeitos psicológicos. A palavra “luto” aparecia repetidamente. Também aparecia “liberdade”. Eu fechei os olhos. Como duas realidades podiam existir na mesma decisão? Continuei. Pesquisei sobre continuar. Custos. Mudanças no corpo. Impacto na escola. Impacto social. “Estatísticas de abandono escolar.” Eu me senti reduzida a um número. Fechei o celular. Respirei fundo. Toquei meu ventre. Ainda não havia mudança visível. Mas emocionalmente… havia um turbilhão. Na manhã seguinte, Miguel voltou ao assunto. — Você pesquisou? Eu congelei. — Sim. — E? Ele parecia ansioso. Como se esperasse que eu dissesse: “Você estava certo.” — Eu ainda não sei — respondi. Ele ficou em silêncio. Depois: — Ana, o tempo não vai parar. Eu senti raiva subir. — Eu sei que não vai! — Então a gente precisa decidir. — Eu preciso decidir! — corrigi. Ele ficou imóvel. A correção foi intencional. Eu precisava marcar território. Meu corpo. Minha decisão. Mas ele não era um vilão. Ele estava com medo. E o medo dele começava a virar insistência. — Você está se apegando emocionalmente — ele disse, mais baixo agora. — E você está se afastando emocionalmente — respondi. A frase nos atravessou. Porque havia verdade dos dois lados. Ele estava tentando se proteger antecipadamente. Eu estava tentando sentir antes de perder. — Eu não quero que você me odeie depois — ele disse, quase num sussurro. Eu suavizei. — Eu não te odeio. — Mas pode odiar. Talvez ele tivesse medo de carregar culpa. Talvez ele tivesse medo de que, se continuássemos, cada dificuldade futura se transformasse numa acusação silenciosa. Eu também tinha medo disso. Passei aquela tarde sozinha novamente. Dessa vez, pesquisei adoção. Era estranho pensar em carregar por meses e depois entregar. Seria possível? Eu conseguiria? Os relatos falavam de dor profunda, mas também de esperança. Eu chorava lendo histórias de mulheres que diziam que foi o ato mais difícil e mais altruísta que já fizeram. Mas eu não sabia se eu era altruísta. Eu só estava confusa. Naquela noite, Miguel voltou mais direto. — Se a gente for interromper, precisa ser logo. A urgência me pressionou. — Para — eu disse. — Eu só estou sendo prático. — Eu não sou um cronograma, Miguel! Ele se levantou. — Eu não estou tentando mandar em você! — Mas está tentando acelerar! O conflito finalmente explodiu. Não havia gritos altos. Mas havia tensão crua. — Você acha que é fácil para mim? — ele perguntou. — Você acha que eu não estou assustado? — Então por que parece que você só quer apagar? Ele ficou em silêncio. Porque talvez, no fundo, parte dele quisesse mesmo. Apagar. Voltar para antes. Eu sentei na cama, exausta. — Eu preciso de tempo — falei, mais calma. — Eu preciso entender o que eu sinto sem você me empurrar para uma direção. Ele respirou fundo. — Eu não quero te perder nisso. A frase mudou o tom. Não era só sobre gravidez. Era sobre nós. Eu percebi algo doloroso: Essa decisão podia nos unir. Ou nos partir. E talvez ele estivesse tentando salvar o relacionamento antes mesmo de salvar a situação. Quando ele foi embora, eu fiquei no escuro novamente. Mas dessa vez eu não pesquisei nada. Eu apenas senti. Senti medo. Senti apego. Senti raiva dele. Senti amor. Senti a responsabilidade esmagadora de escolher um caminho que mudaria tudo. Eu percebi que não havia decisão sem perda. Continuar significava perder a vida que eu tinha planejado. Interromper significava perder algo que já começava a existir dentro de mim. E Miguel… Miguel estava tentando ser forte. Mas a força dele estava vindo em forma de pressão. E a minha força estava vindo em forma de resistência. Nós nos amávamos. Mas agora estávamos em lados diferentes da mesma encruzilhada. E o tempo… continuava passando. Silencioso. Implacável. E cada dia tornava o silêncio mais pesado. Mais urgente. Mais impossível de ignorar.
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