Capítulo XVI

1207 Palavras
A discussão da noite anterior ainda pairava no ar como poeira suspensa depois de algo quebrado. Não havia gritos ecoando nas paredes, não havia portas batidas, mas havia algo deslocado entre nós. Um desalinhamento quase invisível, mas impossível de ignorar. Passei o dia inteiro com o coração apertado, revivendo cada frase, cada silêncio pesado, cada olhar que evitamos sustentar por tempo demais. Eu não sabia se estava mais magoada com ele ou mais assustada comigo mesma. Porque, no fundo, eu entendia o medo dele. E talvez isso tornasse tudo ainda mais doloroso. Miguel não apareceu durante a manhã. Não mandou mensagens longas, apenas um “bom dia” curto, seco, que parecia carregado de algo que ele não sabia como dizer. Eu também não insisti. Havia um cansaço emocional se instalando em mim — como se cada pensamento exigisse esforço físico. Eu sentia o corpo diferente, a mente diferente, como se estivesse vivendo em dois planos ao mesmo tempo: o da realidade concreta e o de uma expectativa silenciosa que crescia dentro de mim. No fim da tarde, quando o céu começou a mudar de cor e a luz ficou dourada e suave, ouvi batidas na porta do meu quarto. Não eram hesitantes. Eram firmes, mas lentas. Eu sabia que era ele antes mesmo de abrir. Miguel entrou sem dizer nada. Trazia duas sacolas pequenas nas mãos. Não parecia tenso como na noite anterior. Também não parecia completamente calmo. Havia algo diferente — uma vulnerabilidade mais visível, menos mascarada. — Eu trouxe comida — disse ele, erguendo levemente uma das sacolas. — Você não comeu direito hoje. A frase não era sobre comida. Era cuidado. Eu senti algo amolecer dentro de mim. Ele colocou as sacolas sobre a escrivaninha e começou a organizar tudo em silêncio. Suco. Pão. Fruta. Pequenos detalhes que mostravam que ele tinha pensado em mim. Não na gravidez. Em mim. — Eu fiquei pensando — ele começou, sem me encarar diretamente — que a gente tem falado muito sobre decisão… mas pouco sobre nós. Eu permaneci em silêncio, esperando. Ele se sentou no chão, encostado na lateral da cama, exatamente como fazia nas noites em que ficávamos conversando até tarde sobre sonhos, viagens imaginárias, nomes de filhos que um dia talvez tivéssemos — ironicamente distantes naquela época. — Você lembra daquela noite na casa da Lara? — ele perguntou de repente. Eu franzi a testa, confusa. — Qual? — A que acabou a luz. A gente ficou sentado na varanda, falando sobre como queria que nossa vida fosse diferente da dos nossos pais. Eu lembrei. A escuridão. O cheiro de chuva. A promessa silenciosa de que faríamos tudo “do jeito certo”. — Você disse que tinha medo de viver no automático — ele continuou. — Que não queria deixar a vida decidir por você. A lembrança me atingiu com força inesperada. Eu tinha dito isso. Eu sempre tive medo de não escolher, de apenas reagir. Miguel apoiou os braços nos joelhos e finalmente me olhou. — Eu não quero que isso seja uma decisão tomada pelo medo. Nem o meu. Nem o seu. O tom dele não era mais de insistência. Era de confissão. Eu desci da cama e me sentei no chão, de frente para ele. Nossos joelhos quase se tocando. O espaço entre nós parecia pequeno demais para tudo o que estava acontecendo. — Eu também não quero — respondi. O silêncio que veio não era pesado. Era cheio. Cheio de memórias. Cheio de quem éramos antes disso tudo. Miguel estendeu a mão e tocou meus dedos. Não com urgência. Não com desespero. Apenas segurou. Como se estivesse reaprendendo a me tocar sem pressão. — Eu fiquei com medo de perder você — ele disse, finalmente deixando a verdade escapar inteira. — Medo de que, se você decidir continuar, sua vida mude tanto que eu fique para trás. Medo de que você me culpe depois. Medo de que a gente não aguente. A honestidade dele desarmou minhas defesas. — Eu também estou com medo — admiti. — Medo de interromper e nunca me perdoar. Medo de continuar e não ser suficiente. Medo de contar para alguém. Medo de esconder. Medo de tudo. Nós rimos fraco. Um riso cansado. Mas verdadeiro. Ele aproximou mais o corpo, apoiando a testa na minha. E naquele gesto simples, sem promessas, sem argumentos, algo mudou. Não era resolução. Era conexão. Eu senti o calor dele, a respiração dele misturando com a minha, e pela primeira vez desde o teste positivo, não senti que estávamos em lados opostos. Estávamos juntos. Perdidos, sim. Mas juntos. Miguel deslizou a mão lentamente até minha barriga, hesitando antes de tocar. Ele me olhou, pedindo permissão sem palavras. Eu assenti. O toque foi leve. Quase imperceptível. E ainda assim, carregado de significado. Nós dois ficamos em silêncio. Ele não disse nada como “é nosso filho”. Não fez discurso. Apenas deixou a mão ali. E algo no rosto dele mudou. Não foi medo. Não foi pânico. Foi… humanidade. Como se, pela primeira vez, aquilo tivesse deixado de ser uma ideia e se tornado real. — É estranho — ele murmurou. — O quê? — Pensar que pode estar acontecendo algo aqui dentro. A voz dele não tinha mais urgência. Tinha reverência. Eu senti lágrimas surgirem sem aviso. Não de tristeza. Mas de intensidade. — Isso é o que mais me confunde — eu disse. — Porque quando a gente briga, parece impossível continuar. Mas quando você faz isso… — toquei a mão dele sobre minha barriga — parece impossível interromper. Ele fechou os olhos por um segundo. E naquele instante, eu soube que ele também estava sentindo. A contradição. O apego involuntário. O peso real. — Eu não sei o que é certo — ele sussurrou. — Nem eu. Ficamos ali por longos minutos, sem falar. Apenas respirando. Apenas sentindo. Não havia decisão. Mas havia algo que nos unia novamente. Não como dois lados opostos de um debate. Mas como duas pessoas assustadas tentando não se perder uma da outra. Quando ele me abraçou, foi diferente dos outros abraços. Não era protetor. Não era desesperado. Era… igual. Como se estivéssemos no mesmo nível de vulnerabilidade. Eu senti que aquele momento complicava tudo. Porque agora não era só medo versus lógica. Era amor versus medo. E amor nunca é simples. Mais tarde, deitados lado a lado, ele traçou círculos leves no meu braço e disse: — Eu prometo que não vou mais te pressionar. Eu vou sentir isso com você. Seja qual for a decisão. A frase não resolvia nada. Mas mudava tudo. Porque agora ele não estava tentando controlar o futuro. Estava vivendo o presente comigo. E, paradoxalmente, essa conexão tornava a escolha ainda mais difícil. Porque era mais fácil decidir quando estamos em guerra. É muito mais difícil quando estamos abraçados. E ali, naquela noite silenciosa, entre respirações sincronizadas e mãos entrelaçadas, eu percebi que talvez a decisão não fosse apenas sobre continuar ou interromper. Talvez fosse sobre quem nós dois estávamos nos tornando. E se conseguiríamos atravessar isso sem nos perder. Eu não sabia qual seria nossa escolha. Mas sabia que, naquele momento, ainda havia algo nos segurando juntos. E isso… confundia tudo ainda mais.
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