Capítulo IX

1011 Palavras
Eu passei a semana inteira vivendo como se estivesse em equilíbrio sobre uma linha invisível. Cada passo precisava ser calculado, cada expressão controlada, cada resposta pensada antes de sair da minha boca. Era exaustivo fingir normalidade quando meu corpo parecia sussurrar o contrário o tempo todo. Oito dias. Eu já não precisava contar. O número estava gravado dentro de mim. Naquela manhã, acordei com uma mistura de tontura leve e um cansaço que não combinava com as horas que eu tinha dormido. Fiquei sentada na cama por alguns minutos antes de levantar, sentindo o chão frio sob os pés como se fosse a única coisa concreta o suficiente para me ancorar. Desci para o café tentando manter a postura habitual. Minha mãe falava sobre uma cliente nova que queria um vestido para um casamento. Eu assentia, sorria nos momentos certos, respondia quando necessário. Mas por dentro eu estava distante, contando mentalmente sintomas, lembrando pesquisas que fiz de madrugada, tentando convencer a mim mesma de que tudo podia ser apenas estresse. Na escola, eu não consegui sustentar o personagem por muito tempo. Lara me observava desde a primeira aula. Não com curiosidade fofoqueira, mas com aquela atenção afiada de quem conhece cada nuance da sua respiração. Ela me conhece desde a infância. Sabe quando estou feliz antes mesmo de eu perceber. Sabe quando estou mentindo pelo jeito que cruzo os braços. No intervalo, ela me puxou para o canto mais vazio do pátio, atrás do bloco antigo onde quase ninguém ficava. — Chega — ela disse, cruzando os braços. — O que está acontecendo? Eu tentei sorrir. — Nada. Ela não sorriu de volta. — Você está pálida há dias. Não come direito. Está distraída. E toda vez que eu falo do Miguel, você muda de assunto. Eu te conheço, Ana. Meu peito apertou. Eu podia continuar negando. Podia insistir no “é só estresse”. Mas estava cansada de carregar aquilo sozinha. O medo estava ficando grande demais para caber só dentro de mim. — Eu… — comecei, mas a voz falhou. Ela suavizou o olhar. — O que foi? Respirei fundo. Olhei ao redor para garantir que ninguém estava por perto. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ela conseguia ouvir. — Está atrasado. Por um segundo, ela não entendeu. — O quê? Eu engoli em seco. — Meu ciclo. O silêncio que veio depois foi pesado. Não dramático. Apenas real. Os olhos dela se arregalaram devagar. — Quantos dias? — Oito. Ela respirou fundo, como se estivesse organizando os próprios pensamentos antes de reagir. — Você já…? Balancei a cabeça. — Não. Eu fiquei esperando. Achei que fosse nervosismo. Provas. Ansiedade. Mas… Minha voz diminuiu até virar quase um sussurro. — Mas eu estou com medo. Ela segurou minhas mãos imediatamente. Firmes. Quentes. — Você sente mais alguma coisa? Assenti. — Enjoo leve. Cansaço. E… eu não sei se é psicológico. Eu pesquisei tanta coisa que agora qualquer sintoma parece confirmação. Lara fechou os olhos por um segundo, depois me encarou com uma seriedade que eu raramente via nela. — A gente precisa tirar isso da dúvida. A palavra “tirar” soou quase agressiva. Como se a incerteza fosse um objeto que pudesse ser arrancado. — Eu sei — respondi, sentindo o estômago revirar. — Hoje? Meu coração acelerou. Hoje significava parar de imaginar cenários e encarar um resultado. Significava sair do campo do “talvez” e entrar no território do “é”. — Eu não sei se estou pronta. Ela apertou minhas mãos. — Você nunca vai se sentir pronta para isso. Mas é melhor saber do que ficar se torturando. Eu sabia que ela estava certa. A espera estava me consumindo. Cada dia a mais era um peso novo. Cada noite era um interrogatório interno. Passamos o resto das aulas em silêncio cúmplice. Eu quase não anotei nada. Minha mente estava concentrada na decisão que já tinha sido tomada, mesmo que eu ainda quisesse fingir que havia escolha. Depois da escola, fomos andando até uma farmácia mais distante do nosso bairro. Não queríamos encontrar ninguém conhecido. Em cidade pequena, olhares falam mais alto que palavras. Meu coração parecia sincronizado com cada passo. — Eu entro sozinha — Lara disse. — Não — respondi rápido demais. — Eu preciso fazer isso. Minhas mãos tremiam quando empurrei a porta de vidro. O ar condicionado me fez arrepiar. Fui até o balcão tentando parecer casual, como se comprar aquilo fosse a coisa mais comum do mundo. Quando a farmacêutica colocou a caixinha pequena sobre o balcão, senti o peso simbólico dela maior do que qualquer objeto que já segurei. Paguei sem olhar diretamente para ninguém. Saímos rápido. No caminho até a casa da Lara, quase não falamos. O mundo parecia normal demais para o que estava acontecendo dentro de mim. Pessoas riam na rua. Um casal discutia por causa de estacionamento. Uma criança corria atrás de uma bola. E eu estava ali, com uma pequena caixa na mochila, carregando a possibilidade de uma mudança irreversível. No quarto dela, fechamos a porta. O silêncio era espesso. Olhei para a embalagem por alguns segundos antes de abrir. Minhas mãos suavam. Meu coração batia tão forte que eu sentia no pescoço. — Seja o que for, eu estou com você — Lara disse, firme. Assenti, mas não consegui falar. Fui ao banheiro. Cada segundo ali dentro parecia uma eternidade. Minhas mãos tremiam enquanto seguia as instruções. Era estranho como algo tão simples podia decidir tanto. Quando terminei, fiquei encarando o pequeno visor, sabendo que ainda levaria alguns minutos. Minutos que pareciam anos. Voltei para o quarto com o teste nas mãos. Nós duas sentamos na beira da cama, olhando para ele como se fosse explodir. — Não olha o tempo todo — Lara murmurou. Mas era impossível não olhar. O silêncio ficou pesado demais. E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu senti que não estava apenas com medo da resposta. Eu estava com medo de quem eu teria que ser depois dela.
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