Eu nunca imaginei que três minutos pudessem ter peso.
Não peso figurado. Peso real. Físico. Como se o ar tivesse ficado mais denso dentro do quarto da Lara e respirar exigisse esforço consciente. O teste estava sobre a escrivaninha dela, apoiado em cima de um caderno de Química, e nós duas estávamos sentadas lado a lado na cama, olhando para aquele pequeno visor branco como se ele pudesse nos encarar de volta.
O silêncio não era apenas ausência de som. Era expectativa condensada.
Eu ouvia o tique-taque do relógio na sala. O barulho distante de um carro passando na rua. A respiração da Lara, controlada demais para ser natural.
E o meu coração.
Meu coração parecia querer fugir do peito.
— Quanto tempo já passou? — eu perguntei, mas minha voz saiu fina, quase infantil.
Lara olhou para o celular.
— Um minuto e meio.
Parecia meia hora.
Eu passei as mãos nas coxas, tentando secar o suor. Minha boca estava seca. Minha mente alternava cenários com uma velocidade c***l. Em um deles, apareciam duas linhas nítidas, inquestionáveis. No outro, apenas uma, trazendo um alívio que eu nem sabia se merecia.
Mas havia também um terceiro cenário, o mais assustador de todos: o da incerteza prolongada.
Eu não sabia que ele estava prestes a se tornar real.
— Seja o que for… — Lara começou, mas não terminou.
Eu balancei a cabeça levemente.
Não havia frase pronta que resolvesse aquilo.
Dois minutos.
Eu levantei antes mesmo de perceber que estava fazendo isso e me aproximei da mesa. O teste ainda parecia vazio demais. Olhei rápido e desviei os olhos imediatamente, como se encarar pudesse acelerar o resultado.
— Não adianta olhar agora — Lara disse, levantando também. — Espera completar o tempo.
Eu tentei esperar.
Mas cada segundo parecia uma provocação.
Finalmente, o alarme do celular dela vibrou.
Três minutos.
Meu estômago se contraiu.
Eu me aproximei devagar. Lara ficou ao meu lado. Nenhuma de nós tocou no teste imediatamente. Era como se pegá-lo fosse confirmar que aquilo era real demais.
Eu respirei fundo e estendi a mão.
Peguei.
Olhei.
Por um segundo, não entendi o que estava vendo.
Havia uma linha forte. Clara. Nítida.
E ao lado dela… uma sombra.
Muito clara.
Quase invisível.
Eu pisquei.
Aproximei o teste do rosto.
— Eu… eu não sei — murmurei.
Lara pegou da minha mão com cuidado.
— Deixa eu ver.
Nós duas inclinamos o objeto sob a luz que entrava pela janela. A linha principal estava ali. A segunda… era incerta. Não era completamente branca. Mas também não era definida.
Era como se estivesse indecisa.
— Isso conta? — minha voz saiu trêmula.
Lara franziu a testa.
— Está muito fraca.
Meu coração começou a bater ainda mais rápido.
— Fraca significa o quê?
Ela mordeu o lábio.
— Pode significar positivo. Pode significar que ainda está muito cedo. Pode significar erro.
Erro.
Eu me agarrei àquela palavra.
— Pode estar errado, então?
— Pode.
Mas o “pode” não tinha firmeza.
Eu sentei de novo na cama, sentindo as pernas fracas. O quarto parecia menor. O ar, mais quente.
— Eu não queria um “pode” — eu sussurrei. — Eu queria um sim ou um não.
Minhas mãos começaram a tremer de verdade agora. Não era mais antecipação. Era frustração. Era medo prolongado.
— A gente pode fazer outro — Lara disse rapidamente. — Talvez amanhã cedo. Dizem que é melhor fazer de manhã.
Amanhã.
Mais uma noite sem dormir.
Mais horas imaginando cenários.
Mais tempo com o coração suspenso.
— E se essa linha significar…? — eu não consegui terminar.
Ela sentou ao meu lado e segurou meu rosto.
— Ana, olha para mim. Agora não significa nada definitivo. Está muito claro. Pode ser hormonal. Pode ser cedo demais. Pode ser qualquer coisa.
Mas eu conhecia meu corpo.
E, no fundo, algo dentro de mim estava começando a sussurrar mais alto.
Não era certeza.
Era pressentimento.
Fui ao banheiro lavar o rosto. A água fria escorria pela minha pele, mas não acalmava o turbilhão interno. Quando me olhei no espelho, vi uma versão minha que parecia mais velha do que ontem.
Não em idade.
Em peso.
Eu apoiei as mãos na pia e fechei os olhos.
Se fosse positivo… minha vida mudaria completamente.
Faculdade fora.
Planos adiados.
Meus pais.
Meu pai.
A decepção no olhar dele me atingiu antes mesmo de existir.
E Miguel?
Ele dizia que me amava. Mas amor aos 19 anos não é o mesmo que responsabilidade para o resto da vida.
Voltei para o quarto.
Lara ainda segurava o teste, analisando sob diferentes ângulos de luz.
— Eu acho que a gente precisa repetir — ela disse com cuidado.
Eu assenti devagar.
— Eu não vou contar para o Miguel ainda.
Ela me olhou surpresa.
— Nem se der positivo?
— Eu preciso ter certeza primeiro.
Porque dizer em voz alta tornaria real. E, se ainda havia uma chance de ser apenas susto… eu precisava me agarrar a ela.
Guardamos o teste dentro da caixa novamente, como se esconder pudesse diminuir o impacto. Mas eu sabia que, mesmo fora da vista, ele continuaria ocupando cada espaço da minha mente.
Quando saí da casa da Lara, o céu já estava escurecendo. As luzes da rua começavam a acender. O mundo parecia tranquilo demais para a tempestade que estava crescendo dentro de mim.
Caminhei devagar até em casa.
Minha mãe estava na cozinha quando cheguei.
— Está tudo bem? — ela perguntou, apenas por hábito.
Eu quase desabei ali mesmo.
Mas sorri.
— Está.
Subi para o quarto e fechei a porta. Sentei na cama e fiquei olhando para o calendário novamente.
Nove dias.
Passei a mão sobre o ventre outra vez, mas agora o gesto não era distraído.
Era medo.
Eu ainda não tinha uma resposta.
Mas tinha algo pior.
Uma possibilidade.
E às vezes, a possibilidade é mais assustadora do que a confirmação.
Porque enquanto não é definitivo, você ainda pode fingir que não está acontecendo.
Mas, no fundo, eu já sabia.
A minha vida estava parada entre duas linhas.
E nenhuma delas era completamente invisível.