Capítulo VII

1001 Palavras
Eu sempre fui organizada com datas. Provas, trabalhos, aniversários, prazos de inscrição para bolsas — tudo anotado no calendário colado ao lado da minha escrivaninha. Cresci acreditando que planejamento era a única forma de manter a vida sob controle. Se eu soubesse quando algo viria, eu saberia como lidar. Mas há coisas que não avisam. Ou pior — avisam pelo silêncio. Foi numa terça-feira comum que percebi. Não houve trovão, nem desmaio dramático, nem dor inexplicável. Foi apenas um olhar distraído para o calendário enquanto eu organizava os horários de estudo para a prova final de Matemática. Meus olhos passaram pela data atual… e então voltaram. Contei mentalmente. Contei de novo. Senti um frio subir devagar pela espinha. Não podia estar certo. Peguei o celular, abri o aplicativo onde eu marcava meu ciclo desde os quinze anos. Sempre regular. Sempre previsível. Nunca atrasava mais que um dia. Dois dias. Respirei fundo. Dois dias não significam nada, eu disse a mim mesma. Ansiedade atrasa. Estresse atrasa. Mudança hormonal atrasa. Minha vida inteira estava sendo decidida por vestibulares e médias finais — claro que eu estava estressada. Fechei o aplicativo rápido demais, como se ele pudesse me acusar. Passei o resto do dia tentando agir normalmente. Na escola, as vozes pareciam ecoar mais alto. Cada gargalhada parecia distante. Cada professor falando sobre futuro, universidade, oportunidades, soava quase irônico. Futuro. Eu tinha um plano tão claro para ele. No intervalo, o cheiro do salgado da cantina me fez enjoar de novo. Não forte o suficiente para correr ao banheiro, mas o suficiente para me fazer afastar a bandeja. — Você está estranha esses dias — Lara comentou, observando meu rosto com atenção. — Pálida. Quietinha demais. — Só estou cansada. Ela me analisou por mais alguns segundos, como se estivesse decidindo se insistia ou não. Eu agradeci silenciosamente quando ela mudou de assunto. Eu ainda não queria dividir aquilo com ninguém. Porque dividir tornaria real. E eu ainda precisava acreditar que era só atraso. Naquela tarde, Miguel me ligou. — Você sumiu hoje. Eu fechei os olhos ao ouvir a voz dele. Eu queria que ele fosse meu porto seguro naquele momento. Mas, pela primeira vez, senti uma distância invisível entre nós. Não física. Mas de responsabilidade. — Só estou estudando muito — respondi. — Você está bem mesmo? Houve um segundo de silêncio. Um segundo em que eu quase falei. Quase. — Estou. Mas minha voz não soou convincente nem para mim. Depois que desliguei, fiquei encarando o teto do quarto. Passei a mão no ventre novamente, um gesto que estava se tornando automático. Como se eu estivesse tentando sentir algo que ainda não sabia identificar. Três dias. Na quarta noite, não consegui jantar. Minha mãe percebeu. — Você anda sem apetite. — Prova de Matemática — respondi rápido. Ela assentiu, compreensiva. Sempre foi assim. Estudos justificavam tudo. Meu foco sempre foi motivo de orgulho, nunca de suspeita. No banho, deixei a água cair quente sobre meus ombros e tentei lembrar exatamente de cada detalhe daquela noite. Cada segundo. Cada decisão. Miguel tinha sido cuidadoso. Nós tínhamos conversado. Ele disse que ficaria tudo bem. Mas “ficar tudo bem” é uma frase perigosa. Porque depende do que significa bem. Quatro dias. Na quinta-feira, acordei com uma pontada mais forte no baixo ventre. Meu coração acelerou. “Agora vem”, pensei. Passei o dia inteiro esperando qualquer sinal de normalidade. Qualquer confirmação de que meu corpo ainda seguia o padrão de sempre. Nada. O mundo continuava funcionando como se nada estivesse errado. O professor explicava conteúdos sobre responsabilidade adulta e escolhas profissionais. Algumas meninas comentavam sobre festas no fim de semana. Um grupo discutia sobre faculdade fora do país. Eu ouvia tudo como se estivesse dentro de uma bolha. Cinco dias. Na sexta à noite, deitada na cama, peguei o celular e digitei no mecanismo de busca algo que minhas mãos tremiam para escrever. “Atraso menstrual causas”. A lista apareceu imediatamente. Estresse. Ansiedade. Mudança hormonal. Primeira relação. Gravidez. A palavra parecia maior que as outras. Mais pesada. Meu peito apertou. Eu larguei o celular como se ele tivesse me queimado. Não. Não podia ser isso. Eu tinha 17 anos. Eu tinha um mural cheio de planos. Eu tinha pais que acreditavam em mim. Eu tinha uma vida organizada. Gravidez era palavra distante. Pertencia a outras histórias. Outras meninas. Não à minha. Seis dias. No sábado, Miguel apareceu na minha porta sem avisar. Eu quase não consegui respirar quando o vi. — Você está me evitando — ele disse, sério. — Não estou. Ele segurou meu rosto, obrigando-me a olhar para ele. — Ana. O que está acontecendo? A pergunta ficou suspensa entre nós. Eu poderia ter dito ali. Poderia ter dividido o peso. Poderia ter deixado que ele segurasse metade do medo. Mas eu ainda precisava de confirmação. Precisava de certeza antes de transformar suspeita em realidade. — Só estou nervosa com as provas — menti mais uma vez. Ele me abraçou. Forte. Seguro. Como se o abraço dele pudesse resolver qualquer coisa. Por um momento, eu quis acreditar nisso. Mas, enquanto ele falava sobre o futuro, sobre talvez irmos juntos para a capital algum dia, sobre construir algo nosso, eu só conseguia ouvir a própria contagem na minha cabeça. Sete dias. Naquela noite, sentei na cama e fiquei olhando para o calendário. O número parecia me encarar de volta. Eu sabia o que precisava fazer. Mas admitir isso era atravessar um ponto sem retorno. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando me lembrar de quem eu era antes do medo. A menina organizada. A filha responsável. A estudante exemplar. Mas, pela primeira vez, senti que nenhuma dessas versões tinha respostas. Porque agora não era sobre notas. Não era sobre planos. Era sobre consequência. E o atraso já não era apenas no calendário. Era no meu coração, que estava demorando para aceitar que talvez — só talvez — minha vida estivesse prestes a sair do roteiro que eu escrevi.
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