Quando deixou de ser proteção

488 Palavras
Ele nunca soube exatamente quando começou. Não houve um dia específico. Não houve um toque proibido. Não houve um pensamento claro dizendo “isso é errado”. Só aconteceu. No começo, era só cuidado. Ela era pequena demais quando chegou naquela casa. Um embrulho deixado na porta, um choro fino quebrando o silêncio da madrugada. Ele já era um adolescente difícil, sempre fora de casa, sempre longe. Quando voltou, dias depois, ela já estava ali — um bebê moreno, de olhos grandes, completamente fora do padrão daquela família branca. O pai disse que era filha de um caso antigo. Meia-irmã dele. Ele acreditou. Nunca questionou. Cresceu olhando de longe. Protegendo à distância. Mandando sem se envolver. Até ela crescer. O problema não foi quando ela fez quinze anos. Nem quando começou a dançar nos bailes. Nem quando os homens passaram a olhar demais. O problema foi quando ele percebeu que olhava também. E não era como irmão. Era inquietação. Era raiva sem motivo. Era aquele incômodo no peito quando alguém chegava perto demais. Ele se lembrava da primeira vez que sentiu isso com clareza. Ela tinha dezessete anos, rindo alto na laje, o cabelo cacheado solto, o corpo leve, o sorriso vivo demais para aquele lugar. Um dos soldados dele tinha olhado por tempo demais. Ele quebrou o nariz do cara naquela noite. Disse pra si mesmo que era respeito. Disse pra todos que era proteção. Mas no fundo… era posse. Agora ela tinha dezenove. E ele, trinta e cinco, carregava o peso de tudo que já tinha feito, de tudo que mandava, de tudo que era. Um homem forjado no sangue, no medo, no comando. E ela… continuava sendo luz. Ele fechou os olhos, encostado na parede do quarto, respirando fundo, tentando apagar a imagem dela dançando no baile. Tentando apagar a lembrança do corpo dela tão perto do dele, da voz firme dizendo que ele não mandava nela. Mentira. Ele mandava em tudo naquele morro. Menos no que sentia. — Você não é minha — murmurou sozinho, como se dissesse uma ordem a si mesmo. Mas o pensamento traiu. Ele não queria que ninguém tocasse nela. Não queria que ninguém desejasse. Não queria que ninguém chegasse perto. E isso já não era mais proteção de irmão. Era algo errado. Proibido. Perigoso. Do lado de fora, ela entrou em casa batendo a porta com força, ainda irritada. Jogou a bolsa no sofá, o coração acelerado, sem entender por que o olhar dele sempre a fazia tremer daquele jeito estranho. Ela sabia que ele era rígido. Mandão. Controlador. Mas às vezes… quando ele chegava perto demais… o ar mudava. Ela encostou as costas na porta, respirando fundo. — Por que você mexe comigo desse jeito? — sussurrou, sem saber se falava com ele… ou com ela mesma. E naquela casa, construída sobre uma mentira antiga, dois corações começavam a cruzar uma linha que jamais deveria ser tocada.
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