Convivência

1383 Palavras
Um acordo entre homens quebrados A notícia correu rápido pela Bratva. Rápido demais para algo que Arkady jamais anunciaria por conta própria. Quando entrou no salão reservado da sede, percebeu imediatamente a mudança no ar. Os homens estavam reunidos em pequenos grupos, copos erguidos, vozes mais altas do que o habitual. Não havia música. Não havia risadas fáceis. Era uma celebração contida — do tipo que homens perigosos fazem quando algo importante acontece. Casamento. A palavra parecia deslocada naquele ambiente de concreto, madeira escura e cheiro de álcool forte. — Então é verdade — disse um dos cavaleiros, aproximando-se com um copo de uísque. — O Carniceiro vai se casar. Arkady aceitou o copo sem responder. Outro se aproximou logo depois, seguido de mais dois. Não havia zombaria aberta. Havia curiosidade. E algo próximo de respeito. Casar-se, para homens como eles, não era sobre amor. Era sobre posição. Sobre legado. Sobre controle. — Parabéns — disse um deles, batendo levemente o copo no de Arkady. — Uma Volkov casada é uma Volkov protegida. — E uma esposa é um escudo — acrescentou outro. — Bom para os negócios. Arkady deu um gole lento. O líquido queimou, mas não trouxe nada parecido com celebração. — Quem é ela? — alguém perguntou. — Kolesnikova — respondeu outro antes que Arkady precisasse dizer algo. — A muda. Houve um breve silêncio. — Estranho — comentou um dos homens. — Você podia escolher qualquer uma. Arkady ergueu o olhar, frio. — Não escolhi — disse apenas. Isso encerrou o assunto. Os copos continuaram sendo erguidos. Brindes secos. Palmas breves. Nada que se parecesse com alegria verdadeira. Arkady permaneceu ali tempo suficiente para não parecer desrespeitoso, depois deixou o salão sem se despedir. No corredor, o barulho ficou distante. Aleksandr o esperava no escritório. — Estão animados — comentou o irmão, servindo-se de uma bebida. — Casamento sempre acalma os homens. Dá a eles a ilusão de estabilidade. Arkady fechou a porta atrás de si. — Não é estabilidade — respondeu. — É aparência. Aleksandr sorriu de lado. — Na máfia, aparência é tudo. Arkady caminhou até a janela, observando a cidade cinza lá fora. São Petersburgo parecia ainda mais fria naquele dia. — Você acredita mesmo nisso? — perguntou, sem se virar. — Em quê? — Que alguém pode me amar — disse Arkady, finalmente encarando o irmão. Aleksandr não respondeu de imediato. — Não — continuou Arkady. — Seja honesto. O silêncio se alongou por alguns segundos. — Sendo quem você é? — Aleksandr disse por fim. — Não. Arkady assentiu levemente, como se aquilo confirmasse algo que sempre soubera. — Nenhuma mulher jamais virá a me amar — disse. — Não depois de saber o que eu faço. Não depois de ver minhas mãos. — Você nunca quis isso — observou o irmão. — Não — concordou Arkady. — Mas não sou ingênuo. Ele respirou fundo. — Anya também nunca será amada — acrescentou, a voz baixa. — Não da forma que as pessoas esperam. Aleksandr franziu o cenho. — Ela é jovem. Poderia… — Ela é muda — interrompeu Arkady. — Invisível. Criada para ser descartada. Ninguém a amaria naquele mundo. O irmão permaneceu em silêncio, atento. — Então estamos quites — concluiu Arkady. — Um casamento por aparência. Eu dou a ela um nome que a protege. Ela me dá estabilidade política. Nada além disso. — Você fala como se fosse simples — disse Aleksandr. Arkady virou-se lentamente. — É simples — respondeu. — Amor não entra nisso. Nunca entrou. Aleksandr o observou por alguns segundos longos demais. — Só tome cuidado — disse por fim. — Casamentos feitos por conveniência costumam falhar quando alguém esquece as regras. Arkady pegou o casaco. — Não vou esquecer — respondeu. — Eu sei exatamente quem sou. E sei exatamente o que ela não pode me dar. Ao sair do escritório, Arkady sentiu o peso daquela conversa se acomodar dentro dele. Anya não era um sonho. Não era uma esperança. Não era uma promessa. Era um acordo entre dois seres quebrados. E, ainda assim, algo o incomodava. Porque, mesmo dizendo aquilo em voz alta, ele não conseguia afastar a imagem dela — silenciosa, observando o mundo com olhos atentos demais — nem a sensação incômoda de que, talvez, estivesse errado sobre uma coisa. Talvez ninguém jamais o amasse. Mas talvez… Anya não precisasse amar para mudar tudo. A fechadura girou no fim da tarde. Anya ergueu a cabeça imediatamente, o corpo ficando rígido por reflexo. Já aprendera a reconhecer sons naquela casa como outros reconheciam vozes. Passos. Chaves. Respirações atrás da porta. Mas quando a porta se abriu, não foi a segurança. Foi Ekaterina. A filha mais velha da família Kolesnikov entrou devagar, fechando a porta atrás de si com cuidado. Diferente do pai, diferente dos homens da casa, ela nunca fazia barulho ao entrar nos espaços de Anya. — Posso? — perguntou, já caminhando para dentro. Anya assentiu imediatamente. Ekaterina vestia roupas elegantes, discretas, próprias de uma mulher já casada com um homem de outra família influente. O cabelo escuro preso em um coque baixo, o rosto bonito, mas cansado — como alguém que aprendera cedo a sobreviver sorrindo. Ela se sentou ao lado da irmã na cama. — Eu vou te ajudar com algumas coisas do casamento — disse, em voz baixa. Anya assentiu novamente, os dedos entrelaçados sobre o colo. Por alguns segundos, nenhuma das duas falou. O silêncio entre elas nunca fora desconfortável. Ekaterina aprendera a conviver com ele sem tentar preenchê-lo com palavras desnecessárias. — Anya… — começou ela, com cuidado. — Esse casamento… Ela hesitou. — O que você sabe sobre casamento? Anya sorriu. Não foi um sorriso feliz. Foi aquele sorriso pequeno, irônico, cansado. Ela levantou as mãos devagar e gesticulou com calma, como se estivesse respondendo algo óbvio. Sei tudo. Não se preocupe. Ekaterina fechou os olhos por um segundo, como se aquela resposta tivesse sido pior do que qualquer confissão de medo. Ela conhecia o mundo onde haviam crescido. Conhecia homens como Arkady Volkov. O Carniceiro. A fama dele não era exagero. Era sussurrada entre famílias, repetida entre mulheres como aviso silencioso. O homem que resolvia problemas. O homem que ninguém enfrentava duas vezes. O homem que não tinha passado romântico conhecido. Nem fraquezas. Ekaterina virou-se para Anya. — Ele não é… — começou, mas parou. Anya esperou. — Ele não é um homem comum — terminou. Anya assentiu. Sabia. — Você tem medo dele? — perguntou Ekaterina, quase num sussurro. Anya pensou por alguns segundos. Depois gesticulou. Sim. Mas não do jeito que você pensa. Ekaterina franziu a testa. Anya continuou. Tenho mais medo do que aconteceria sem ele. O ar no quarto ficou pesado. Ekaterina engoliu em seco. Ela sabia que era verdade. Sabia o que o pai planejava. Não em detalhes. Mas o suficiente para entender que Anya nunca teria tido um futuro seguro ali. — Ele falou com você? — perguntou. Anya assentiu. — Foi… gentil? — arriscou a irmã. Anya hesitou. Depois fez um gesto simples. Honesto. Aquilo surpreendeu Ekaterina. — Honestidade é perigosa nesse mundo — murmurou. Anya deu de ombros levemente. Mentiras também. Ekaterina soltou uma respiração lenta, passando a mão pelos cabelos. — Eu vou te ajudar com as roupas — disse. — Com o que você precisar. Com… tudo o que eu puder. Anya tocou a mão da irmã de leve. Obrigada. Ekaterina apertou os dedos dela com cuidado. — Você não merece o que fizeram com você aqui — disse, baixo demais para ecoar fora do quarto. Anya não respondeu. Porque, no fundo, já aceitara aquilo há anos. — Você acha que ele vai te machucar? — perguntou Ekaterina, finalmente. Anya demorou mais dessa vez. Pensou em Arkady no jardim. Pensou na forma como ele esperara suas respostas. Pensou no jeito como falara — direto, sem promessas doces. Depois gesticulou. Não sei. E isso… era a verdade mais honesta que ela podia dar. Ekaterina assentiu, respeitando. — Às vezes — disse — não saber já é melhor do que saber que será r**m. O silêncio voltou a preencher o quarto. Do lado de fora, a casa continuava funcionando como sempre. Empregados andando. Portas abrindo. Vozes baixas. Mas algo havia mudado. Agora, cada som era uma contagem regressiva
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