Ekaterina sempre fora o lugar seguro de Anya.
Mesmo antes de Anya entender que precisava de um, Ekaterina já estava ali.
A diferença de dez anos entre elas deveria tê-las afastado. Mas fez o oposto. Enquanto as outras irmãs aprendiam a sorrir para alianças e jantares políticos, Ekaterina aprendia a abaixar o corpo para ficar na altura de Anya, a esperar seus gestos, a traduzir seus silêncios para o resto da casa.
Anya tinha memórias fragmentadas da infância. Poucas incluíam o pai. Quase nenhuma incluía a mãe. Mas Ekaterina… Ekaterina estava em quase todas.
Era ela quem a buscava quando os convidados chegavam e o pai mandava tirá-la de vista.
Era ela quem trazia comida escondida quando Anya esquecia de descer para jantar.
Era ela quem dormia ao lado dela quando as noites ficavam longas demais para uma criança que não entendia por que era diferente.
Ekaterina também era só uma criança.
Mas nunca deixou Anya sentir isso.
Anya lembrava de dedos pequenos demais segurando os seus. De Ekaterina tentando aprender gestos improvisados antes mesmo de alguém pensar em ensiná-la linguagem de sinais de verdade. Lembrava da irmã prometendo, com a seriedade que só crianças conseguem ter:
Eu cuido de você.
E ela cuidou.
Mesmo depois do casamento.
Ekaterina se casara jovem demais. Anya lembrava do vestido branco grande demais para o corpo ainda adolescente da irmã. Lembrava do sorriso educado. Do medo escondido atrás dele. Lembrava do dia em que Ekaterina deixou a casa — e de como Anya achou que ficaria completamente sozinha.
Mas Ekaterina voltou.
Sempre voltava.
Visitas rápidas. Abraços longos. Presentes simples. Livros. Lenços. Pequenos bilhetes escondidos em gavetas que diziam apenas:
Eu estou aqui.
No quarto agora, sentadas lado a lado, Anya sentiu o mesmo conforto silencioso de quando tinha seis anos e Ekaterina dezesseis, fingindo ser mais forte do que realmente era.
Ekaterina passou os dedos pelo cabelo ruivo dela com cuidado.
— Eu devia ter levado você comigo — murmurou, mais para si mesma do que para Anya.
Anya virou o rosto e fez um gesto rápido.
Não.
Ekaterina franziu a testa.
Anya repetiu, mais devagar.
Você me manteve viva aqui.
O ar pareceu sumir do quarto por um instante.
Ekaterina engoliu em seco.
— Eu só… tentei — disse, a voz falhando levemente.
Anya tocou o pulso dela, firme.
Você foi suficiente.
E, pela primeira vez desde que entrara naquele quarto, Ekaterina deixou o controle escapar. Os olhos marejaram, mas ela não chorou. Mulheres Kolesnikov não choravam fácil.
— Ele vai ter que ser melhor do que essa casa foi para você — disse Ekaterina, firme agora.
Anya não respondeu.
Porque ainda não sabia.
Mas sabia de uma coisa com certeza absoluta:
Se Ekaterina não tivesse existido, ela não teria sobrevivido até aquele dia.
E, talvez, não estaria viva para aceitar o casamento que agora era sua única saída.
A casa ficou silenciosa demais naquela noite.
Anya já estava acostumada a contar o tempo pelo barulho — passos, portas, vozes distantes. Mas o silêncio prolongado era sempre pior. Significava que algo estava sendo pensado. Planejado.
Ela sabia que o pai não estava feliz.
Sabia pelos dias trancada. Pela comida deixada sem palavra. Pelo fato de ninguém mais entrar no quarto além de Ekaterina.
Viktor Kolesnikov não gostava de perder controle.
E Anya… agora não era mais dele.
Ela ouviu os passos antes de ver a porta abrir.
Pesados. Sem pressa. Decididos.
O estômago dela se contraiu.
A chave girou.
A porta abriu devagar.
Viktor entrou sozinho.
O olhar dele estava diferente. Não era o olhar frio de sempre. Era pior. Era um olhar carregado de raiva contida, do tipo que ele raramente deixava aparecer.
Anya ficou de pé automaticamente.
O corpo já sabia o que fazer.
Ficar reta. Quieto. Submissa.
Os olhos dele percorreram o quarto como se tudo ali o irritasse — a cama, as roupas, a própria presença dela.
— Você acha que venceu? — perguntou, voz baixa.
Anya não respondeu.
Nunca respondia em momentos assim.
Ele se aproximou devagar.
Ela sentiu o corpo inteiro entrar em alerta. Não precisava de explicação. Não precisava de ameaça direta. Já conhecia aquele clima.
O pai nunca gritava.
Mas quando perdia o controle… ele descontava.
Anya apertou as mãos uma contra a outra, tentando manter a respiração estável. O coração batia rápido demais.
— Você sempre foi um erro — disse ele. — E agora… agora vai sair daqui como se tivesse valor.
As palavras doeram — mais do que qualquer outra coisa.
Ela manteve o olhar baixo.
Ele parou perto demais.
Por um instante, o quarto pareceu pequeno demais para os dois.
Anya fechou os olhos por um segundo.
Sabia o que podia acontecer.
Sabia que não podia reagir. Sabia que precisava aguentar. Sabia que aquilo… era sobre controle, não sobre ela.
O silêncio entre eles ficou pesado.
Longo.
Depois — finalmente — Viktor se afastou.
— Aproveite — disse, seco. — Depois de casada… você não volta mais para esta casa.
A porta se abriu.
Se fechou.
A chave girou novamente do lado de fora.
Anya ficou parada no mesmo lugar por alguns segundos.
Depois as pernas cederam e ela sentou na beira da cama, as mãos tremendo só agora que ele tinha ido embora.
Ela respirou fundo.
Uma vez. Outra.
O casamento não era liberdade.
Mas era a única coisa entre ela… e continuar presa ali.
E, pela primeira vez, Anya desejou que o dia do casamento chegasse rápido.
Muito rápido.
A manhã chegou cinza, como quase todas em São Petersburgo.
Anya acordou antes de abrir os olhos.
O corpo avisava primeiro — rigidez, cansaço pesado, aquela sensação antiga que ela já conhecia bem demais para estranhar. Não era novidade. Nunca fora.
Ela ficou imóvel por alguns minutos, olhando para o teto, esperando o momento em que conseguiria se mover sem que tudo parecesse pesado demais.
Sempre fora assim.
Desde muito nova, aprendera que havia dias em que era melhor não lutar contra o próprio corpo. Apenas esperar. Respirar. Existir em silêncio até que a força voltasse o suficiente para continuar.
A chave girou na porta.
Ela não se assustou.
Sabia exatamente o que viria.
A funcionária entrou sem olhar diretamente para ela, como todas faziam quando queriam fingir que não sabiam de nada. Era uma mulher mais velha, silenciosa, que trabalhava naquela casa há anos demais para fazer perguntas.
— Bom dia, senhorita — murmurou, em voz baixa.
Anya assentiu levemente.
A rotina era sempre a mesma.
Ajuda para o banho. Roupas limpas. Refeição deixada na mesa. Remédios colocados ao lado do copo de água.
O de sempre.
A funcionária não comentava. Não perguntava. Apenas executava, com uma delicadeza discreta que Anya sempre apreciara. Era o máximo de cuidado que aquela casa oferecia.
Depois que ficou sozinha novamente, Anya sentou-se na cadeira perto da janela. Olhou os comprimidos por alguns segundos antes de pegá-los. Sabia para que serviam. Sabia que ajudavam a manter tudo… suportável.
Engoliu com água, devagar.
O gosto amargo já não incomodava.
Nada ali era novo.
Nada ali era surpresa.
E talvez fosse por isso que ela aceitara o casamento sem hesitar.
Não porque acreditasse em Arkady Volkov. Não porque esperasse gentileza. Não porque sonhasse com algo melhor.
Mas porque sabia, com clareza absoluta, que nada poderia ser pior do que o homem que ela chamava de pai.
Arkady era perigoso. Era frio. Era temido.
Mas não era Viktor Kolesnikov.
E, naquele mundo, essa já era uma diferença enorme.
Anya apoiou a testa contra o vidro frio da janela, observando a neve fina cair sobre o jardim. Pensou no olhar de Arkady. Na forma como ele falava direto. Sem disfarces. Sem fingir que oferecia algo que não podia dar.
Proteção.
Era só isso.
E, para ela, já era mais do que qualquer promessa que já tivera na vida.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
O casamento não era salvação.
Mas era saída.
E Anya Kolesnikova estava pronta para sair.