Dominic estava terminando de limpar a parede, quando de repente alguém o toca no ombro por trás, e quando ele se vira, leva um susto com uma mulher usando trapos sorrindo pra ele. Aquela mulher estava irreconhecível, estava bem mais limpa do que da última vez que Dominic a viu.
- Quer me m***r do coração, Rosa?!
Ela ri, e responde:
- Quem diria, os zumbis ainda não te devoraram, Dominic.
- O que aconteceu com você? Está mais... limpa.
- Os guardas me obrigaram a tomar um banho, o que sinceramente foi estranho. Eu não costumo tomar banho mais de duas vezes no mês.
- Que maldade fizeram com você. - comentou Dominic, com ironia.
- Mas e você, anda fotografando alguma coisa?
- Não tem muita coisa para registrar aqui.
- Já pensou em tirar algumas fotos dos zumbis?
- Pra que? Pra eu ter pesadelos de noite?
- Vai ser importante termos registros do que está acontecendo para quando fugirmos aqui, podermos fazer os devidos responsáveis serem punidos.
Dominic ficou pensando e comentou:
- Olha, não é a ideia mais absurda que eu já ouvi.
- É claro que não. Por que seria? Eu sou mendiga, mas não sou louca.
- Se você está dizendo.
Ele pegou sua câmera que estava em um canto, e diz:
- E eu só fico pensando por onde começar.
- Você é um artista, não é? Você deve saber qual a melhor maneira de registrar esse tipo de coisa da maneira certa.
- Eu faço arte, isso aqui vai ficar parecendo um show de horrores quando o corte final estiver pronto. E isso ainda deve demorar dias, já que estamos limitados de tecnologia aqui para ser feito.
- É por isso que estou aqui, eu posso te ajudar a gravar as cenas e podemos montar os relatos.
- Você quer me ajudar?
- É isso ou ficar limpando privada, e eu não gosto muito de ficar limpando as coisas toda hora.
Dominic olhou para a câmera, e então falou:
- Vai ser impossível gravarmos alguma coisa, não podemos ir lá fora e os guardas não deixam a gente ficar transitando de um andar pro outro a bel prazer.
- Agradeça por ter uma mendiga do seu lado, eu conheço as entradas e saídas desse lugar mais do que os ratos. Confia, eu vinha aqui todo dia roubar comida dos restaurantes e nunca foi apanhada.
- Mas nós podemos acabar arranjando encrenca assim, se não com os guardas, com os zumbis lá de fora.
- Fica tranquilo, eu conheço mil e uma maneiras de entrarmos e sairmos em segurança.
- Se você diz, então vamos lá. Mas se algo der errado, eu vou fugir no primeiro minutos.
- Você tem que criar mais culhões.
Eles deixam os esfregões e baldes para trás, e vão seguindo pelo corredor.
No telhado, Ulisses e Mendrika saem por uma porta, onde vêem toda a cidade ao fundo, e conseguiam ouvir também os gemidos dos zumbis que estavam aos arredores do shopping.
Os dois vão andando pelo terraço, e chegam até a borda, onde vêem os prédios e casa cheio de zumbis, assim como também estavam pelas ruas.
- Como a infecção se espalhou tão rápido? - disse Ulisses.
Mendrika ficou pensando no que Quinn falou sobre o gás, mas guardou para si, ao invés disso, ele apenas respondeu:
- Desgraça se espalha bem rápido, rapaz.
Eles ficaram um tempo olhando aquelas criaturas lá embaixo, pareciam muito irracionais, andando de um lado pro outro sem função alguma.
- É perturbador pensar que essas coisas até um tempo atrás eram pessoas comuns vivendo suas vidas comuns. - disse Mendrika.
- A vida pode ser bem traiçoeiras às vezes,
- A vida não, os homens. Quando os meteoros, aquecimento global, terremotos, fomes e doenças falham em extinguir a humanidade, os próprios humanos dão um jeito de conseguir esse feito.
Ulisses acena com a cabeça, e rindo, ele comenta:
- Profundo. Você já pensou em ser coach?
- O que é um coach?
- Nada.
Mendrika se vira e diz:
- Não viemos pra cá pra isso. Eu vou te ensinar hoje a atirar.
Mendrika tirou seu revolver da cintura e o estendeu para Ulisses.
- Você tem certeza disso, Mendrika?
- Achei que você quisesse isso.
- E eu quero, mas, poxa, obrigado por confiar em mim dentre todas as pessoas aqui de dentro.
Mendrika sorri, e estende a arma para ele novamente, e Ulisses pega. Em seguida Mendrika fica de longe, organizando uns alvos com um monte de garrafas pet velhas, e logo depois ele volta para perto de Ulisses e fala:
- Atirar não é como nos filmes, garoto. É uma coisa que requer técnica, precisão e principalmente firmeza. Nunca puxe um gatilho sem ter certeza do que está fazendo, porque depois que puxar, as consequências disso podem te seguir para sempre, seja para algo bom ou seja para algo r**m.
Ulisses acenou com a cabeça, e então Mendrika ergueu os braços dele, posicionou no ângulo certo e segurou os braços dele no ar, então falou:
- Matenha assim e segure a arma com firmeza.
Ulisses obedeceu, e então ficou naquela posição, e Mendrika pegou o dedão dele e pôs na trava e disse:
- Só destrave quando estiver certo do que você quer fazer.
Ulisses destravou com o dedão e manteve a posição, e então Mendrika falou:
- Para acertar um alvo, você nunca mira diretamente nele, você deve considerar as variáveis, e se quiser atingir alguma coisa em cheio, mire um pouco mais acima de onde você quer acertar.
Ele moveu a arma pra cima, mas Mendrika parou e falou:
- Não tanto assim, um pouco mais pra baixo.
Movendo a arma um pouco pra baixo, Mendrika disse:
- Agora sim, puxe o gatilho.
Ulisses puxou o gatilho, e levou um susto com o quão alto o disparo é, e quase deixou a arma cair no chão, mas conseguiu segurar. Ele errou o tiro, que pegou bem longe na parede atrás.
Enquanto isso, Rosa e Dominic estavam indo na direção da saída de emergência com bastante descontração, e quando chegam perto, os dois olham pros lados e não vêem ninguém, então ela disse:
- Vamo nessa.
Eles dois entraram pela saída de emergência, e rapidamente Rosa foi descendo as escadas, e Dominc só a acompanhou, indo em direção a uns corredores ocultos do shopping, e Rosa explica:
- Área de serviço. A equipe de manutenção costuma transitar por aqui pra operar as necessidades do shopping, mas eu tenho caminhos dentro dos caminhos ocultos.
Ela leva Dominic pelos corredores que estavam iluminados, e eles dois chegam de frente a uma lixeira, onde Rosa abre a tampa e diz:
- Damas primeiro.
- O que? Nem ferrando que eu vou descer pela saída de lixo! Nós vamos nos espatifar na queda.
- Não vamos, não. Essa passagem não é íngreme, o lixo desce deslizando, e não caindo. Entende? Dá pra nós escalarmos de volta.
- Você já fez isso antes?
- Várias e várias vezes, muito mais do que eu consigo contar, e olha que eu só sei contar até 10.
Rosa acenou com a cabeça, e eles resolveu se arriscar e desceu por ali com cuidado, e Dominic foi deslizando devagar, até parar devagar na borda do escorregador, caindo de pé no chão. O local era uma área cercada de por grades com arames, tinha um portão que dava acesso pra as ruas, mas estava trancado com correntes grossas e cadeados, para o alívio de Dominic. Na rua do lado de fora das grades tinham alguns zumbis andando de um lado pro outro e fazendo aquele gemido, Dominic se aproximou da grade e ficou olhando para eles, os zumbis nem sequer notaram a presença dele ali.
Em seguida Rosa desceu pela saída de lixo, e Dominic se virou pra ela e falou:
- É perfeito! Eles nem notam que a gente tá aqui.
- Eu não te falei? Confia na Rosa que você vai se dar bem, gato. Agora dá pra você começar a fotogravar ou gravar, seja lá oque você esteja planejando fazer, não é? Eles estão paradinhos aí bem na sua frente.
- Eu vou começar agora.
Dominic se agachou e posicionou a câmera, pegando um ângulo legal para capturar a movimentação dos zumbis, e quando já estava tudo posicionado, ele virou a câmera para si e começou a falar:
- Dia 1. Aqui é Dominic Splinder, eu sou um dos talvez sobreviventes dessa epidemia que está acontecendo em Antananarivo, Madagascar. Estou gravando isso com o intuito de expor o que está acontecendo aqui, já que muito provavelmente, isso tudo aqui vai acabar sendo abafado pela mídia e pelos pilantras do governo. Eu devo avisar, que as cenas que quem quer que esteja assistindo isso está para ver, são fortes e nunca mais sairão da sua mente, mas é a realidade nua e crua.
Ele virou a câmera para o ângulo certo, e monstrou a rua cheia de zumbis, caminhando de um lado pro outro.
- Isso... essas coisas ou... criaturas, são seres que estamos apelidando de zumbis. Não, isso não é um trote, não são pessoas maquiadas e vestidas, Deus sabe como eu queria que fosse só isso, mas acreditem, não é. Essas coisas eram pessoas até algumas horas atrás, pessoas inocentes que agora viraram mortos-vivos. Infelizmente um acidente terrível aconteceu, e essas coisas estão pelas ruas da cidade agora, canibalizando tudo e todos, Antananativo virou um completo caos! E eu estou falando de um surto que começou há apenas alguns dias.
Dominic vira a câmera para si novamente e fala:
- Eu e um grupo considerável de sobreviventes estamos refugiados no Shopping dos Lêmures, felizmente um grupo da guarda local, composto de bons samaritanos, estão cuidando de nós. Mas mesmo assim, isso não é garantia de sobrevivência, precisamos deixar a cidade o quanto antes, já que ainda temos suprimentos, dado que a epidemia começou há pouco tempo. É só uma questão de tempo até as pessoas começarem a brigar entre si para poderem suprir suas necessidades básicas. Precisamos de uma rota de fuga, porém a cidade inteira está em quarentena, o que já torna bem difícil de conseguir ajuda, e pra piorar, o governo de Madagascar está dando ordens para que os soldados matem tudo aqui, seja zumbi ou não. Estamos entre a cruz e a espada, mas as pessoas aqui estão procurando se manter otimistas, apesar de tudo.
Dominic vira a câmera para a rua novamente e continua:
- Não sei se alguém vai encontrar isso, não sei se algum de nós vai sobreviver tempo o suficiente mostrar essa gravação para alguém, mas aqui vai algumas coisas que sabemos sobre os zumbis: a infecção ocorre através de mordidas e eles não são seres racionais. Podemos usar essas informações e tudo mais que descobrirmos para poder contornar possíveis infecções.
Nessa hora se ouve um disparo alto vindo dos telhados do shopping, e tanto Rosa quanto Dominic levam um susto.
- O que foi isso?! - disse Rosa.
Dominic olhou para o alto, também confuso, mas nessa hora ele percebeu que os zumbis também notaram o barulho, e começaram a se amontoar, vindo na direção do shopping, e ele arregalou os olhos percebendo a descoberta que acabou de fazer, e vira a câmera para si e falou:
- BARULHOS! Barulhos atraem a atenção deles! Mais uma descoberta feita ao vivo, e podemos usar isso ao nosso favor apartir de agora.
De volta aos telhados, Ulisses estava sentindo suas mãos doerem muito, e percebe que machucou suas mãos e resmungou:
- Mas que m***a foi essa?!
- Recoil. As armas dão um impulso forte quando disparam, por isso falei pra você ter firmeza nas mãos.
- E o barulho parece ficar super mais alto quando se está com a arma na mão.
- Você se acostuma.
- Seus tímpanos devem te odiar.
- São males do ofício. Vamos lá, tente de novo.
- Minhas mãos parecerem estar em chamas, você quer mesmo que eu atire agora?
- Quanto mais rápido se adaptar, maiores suas chances de sobreviver.
Ulisses bufou, e ele mais uma vez armou a posição para atirar corretamente, mas a posição dele estava meio torta, e Mendrika o corrigiu, colocando a mira da arma um pouco mais pra cima.
- Dispare.
Ulisses estava segurando a arma com ainda mais força, e disparou de novo, fazendo a bala pegar na parede, mas tão longe da garrafa dessa vez.
- Tente outra vez. - disse Mendrika.
Dominic estava percebendo que quanto mais os disparos continuavam, mais agitados os zumbis ficavam, e ele diz para a câmera:
- Senhoras e senhores, está confirmado. Fizemos mais uma descobertar, e assim, aumentamos nossas chances de sobreviver!