CAPÍTULO 2

1432 Palavras
Victor A "fumaça" está espalhada por todo o meu banheiro, o lugar está quente úmido e vazio, assim como eu. Passo a toalha pelo espelho embaçado vendo meu reflexo. Minha barba está grande e cheia, meus olhos escuros e fundos. Passei a noite toda em claro mais uma vez tendo pesadelos, fazia tempo que isso não acontecia, mas infelizmente os pesadelos voltaram a me assombrar. Passo a mão por minha enorme barba, mas decido mantê-la daquele tamanho. Saio do meu banheiro entrando no quarto. O manhã ainda está escura e nebuloso, não passa das cinco e meia de manhã, eu tenho o ótimo hábito de acordar cedo, ainda mais quando tenho pesadelos. Paro em frente em meu guarda roupas e pego um conjunto social, terno e calças pretas, como sempre. Me troco e penteio os meus cabelos. O dia será corrido, tenho vários processos novos pra averiguar e a chegada de novo de novos advogados no escritório. Entro em meu escritório e pego minha pasta sobre a mesa. Sento em minha cadeira e destravo a última gaveta. Tiro papéis e caixinhas é lá está, a única lembrança que eu tenho da minha família. Alice, Lara e eu. A última foto que tiramos, o último momento que tivemos. As imagens do acidente vem em minha mente. Alguns anos atrás. O meu olhar está preso a estrada. "Stand by me" toca bem baixinho no som do carro. Lara está dormindo na cadeirinha no banco de trás e Alice está com toda atenção presa a um livro. Estamos voltando da nossa fazendo em Minas gerais, passamos o primeiro fim de semana na fazendo que acabamos de comprar. Abaixo o olhar e levanto a não aumentando o som do carro. - amor, olha pra estrada...- Alice me adverte sem tirar os olhos do seu livro. Dou risada e aceno com a cabeça. - sim senhora!- brinco. Ela da um tapa fraco em meu braço enquanto finge uma risadinha. - engoliu o palhacinho, foi?!- ela diz desviando o olhar e me encarando. Dou os ombros mantendo meu olhar na estrada. - parece que a cadeirinha está apertando ela...- Alice diz tirando o cinto. Viro pra trás tentando tirar os cintos da cadeirinha, mas o cinto prende me impedindo. - amor, de olho na estrada...eu consigo resolver isso!- Alice diz sem me encarar. A estrada é reta e quase não tem movimento, não tem perigo. - não tem perigo...- digo sem dar importância. Viro pra frente olhando a estrada e tirando meu cinto, a estrada está completamente vazia. Me viro pra trás novamente e desaperto os cintos que a prendem e o seu chorinho cessa. - eu poderia ter feito isso...- Alice diz em um tom brincalhão. Dou os ombros rindo e me viro pra frente novamente. Um clarão invadiu minha visão e o meu carro se chocou com uma cegonheira. Em um segundo eu estava com um sorriso no rosto e no segundo seguinte eu estava preso às ferragens do carro sentindo o cheiro do sangue da minha esposa e da minha filha. Daquele dia em diante eu nunca mais fui o mesmo. Nunca mais consegui ser eu novamente. Nunca mais consegui amar novamente. Nunca mais consegui me apegar novamente. Atualmente. Guardo a foto de baixo de todos aqueles papéis e travo a gaveta novamente. Pego minha pasta e saio do apartamento. Dirijo até o escritório com aqueles pensamentos na cabeça. Eu não gosto de lembrar da minha família. A culpa e a saudade que eu carrego já me machucam demais. Deixo o carro estacionado na garagem do prédio e vou direto para o andar jurídico. Eu sou um empresário, sou formado em administração e direito e executo essas duas funções. Tenho uma empresa que trabalha tanto na área administrativa quanto na área jurídica. Fecho a persiana deixando minha sala iluminada apenas por uma luz fraca amarela. Ligo meu computador e logo começo a trabalhar, a única coisa que eu quero é ocupar minha cabeça. Meu telefone toca me interrompendo. - alô?- atendo no primeiro toque. - Senhor Trindade, a reunião irá começar em cinco minutos.- a secretária diz. Bufo revirando os olhos. Eu tinha esquecido dessa merda de reunião, os últimos dias foram tão ruins pra mim que meus compromissos ficaram em último lugar. - senhor?- Laura diz. Suspiro e balanço a cabeça. - okay, estarei lá!- digo e desligo o telefone. Fecho a página do meu computador e me levanto. Guardo minhas principais anotações na minha pasta e saio da minha sala. Caminho até o elevador e aperto os botões. Pego meu celular em meu bolso e confiro minhas últimas mensagens. Mensagens da minha mãe, de alguns funcionários, colegas e algumas mulheres que sai. A porta do elevador se abre. Não me dou o trabalho de responder e guardo o celular em meu bolso. Quando fui dar um passo a frente um corpo bateu no meu, um corpo feminino. Minha única reação foi segura-la antes que ela caísse no chão. A segurei pela sua cintura trazendo seu corpo para o meu, sem segundas intenções, obviamente! Meu olhar foi para a mulher que estou segurando. O seu rosto está abaixado, mas consigo vê um resquício do seu semblante. A única coisa que consigo vê com clareza são seus cabelos cacheados que estão presos em um coque bagunçado. Eu estou curioso, confesso. Anseio por vê a mulher a minha frente. Eu já estava a ponto de pedi-la pra me encarar, mas ela foi mais rápida e levantou o seu rosto olhando em meus olhos. Sua boca abriu em um pequenos "o" e suas pupilas dilataram. Meu olhar desceu analisando todo o seu rosto. Ela é uma mulher simples, mas bonita, não vou mentir. Ela é n***a, um tom escuro. O seu rosto tem fortes expressões, ela tem grandes bochechas, olhos grandes e negros que parecem conter muito medo, sua boca e grande e carnuda, apesar das fortes expressões, o seu rosto é delicado, posso vê isso no seu jeito de olhar. Ela deu um longo suspiro e afastou um pouco o seu corpo do meu. - você não vai me soltar?!- ela disse com a voz falha, sua voz e calma e contida. Continuei ali a encarando sem mover um músculo. - Senhor Trindade?- uma voz feminina surgiu atrás de mim. A soltei no mesmo segundo e me virei pra trás, Laura está me encarando de uma forma estranha, como se nunca tivesse me visto. - sim?- digo. A mulher passou por mim sem olhar pra trás, não pude evitar de encara-la. O seu corpo é robusto, com muitas curvas. Ela está com um vestido preto que não é tão justo ao corpo, mesmo assim pode vê suas curvas. Ela tem pernas grossas e o seu bumbum grande. Não pude vê muito, mas o que eu vi foi aprovado. Ela não é uma mulher magra, mas é uma mulher muito gostosa. O seu corpo e o seu olhar me fizeram ter pensamentos obscuros. Ela se virou pra trás e me encarou, no seu olhar eu pude vê que os seus pensamentos também não foram dos mais apropriados. - O senhor está me ouvindo?- a voz de Laura me fez sair daquele transe. A encarei e levantei uma sobrancelha. - claro, vamos!- digo entrando no elevador. Ela entrou e a porta se fechou. Fomos direto para a sala de reunião. A reunião durou em cerca de quarenta minutos, mas minha cabeça não estava ali, não consegui prestar atenção em se quer uma palavra que eles falaram. Quando a reunião acabou eu voltei pra minha sala sem falar com ninguém, não estou com saco pra aguentar esses puxa sacos falando na minha cabeça. Voltei para o meu trabalho e fiquei preso na minha sala o resto do dia. Quando eu saí da minha sala já passavam das seis da noite, desci para a garagem e peguei o meu carro. Sai parando meu carro na porta aguardando para que os outros carros passem. Apoiei meus braços na janela, mas meu olhar foi diretamente para um carro preto parado na porta da empresa. Não diretamente pra ele, mas sim para a mulher que está em frente a ele. Ela está de cabeça baixa e o seu corpo está encolhido. Na sua frente a um homem que fala alguma coisa gesticulando a todo o momento. Pela sua expressão da pra vê que o clima não está bom. Eu queria ficar ali, mas os carros foram saindo e eu fui obrigado a ir embora. Liguei o som do meu carro e afastei aqueles pensamentos, não é algo que eu tenha que me meter...
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