Gisele procurou Ricardo em todo canto, ficou chateada por não o achar, mesmo sabendo que o procurava "às cegas" pois não conhecia seus hábitos nem lugares onde frequentava, ela deu uma volta de carro num bairro mais humilde, porém não conhecia nenhum lugar, temendo um assalto ou se perder decidiu sair logo de lá, só então ela percebeu que não o conhecia, que tudo o que sabia era o que viviam em sua casa e mais nada, não sabia nem se as coisas que ele a contava eram reais, a única coisa que sabia era que estava loucamente apaixonada por ele ao ponto de aproveitar cada momento ao seu lado como se fosse o último e por isso esqueceu que ele tinha uma vida fora da cama dela em que ela não estava inclusa, pois se o tivesse saberia ao menos por onde começar a procura-lo, ela estava confusa, não sabia se o culpava por não saber nada de sua vida, ou se fingia demência por perceber seu desinteresse no que ele fazia quando não estava com ela, pois quando estavam juntos era tão feliz que nunca se preocupou com o que acontecia fora de sua cama, se dando conta da distância de realidades que uma vida tinha da outra , porém agora queria saber, queria ele contando tudo, ainda que fosse chato, queria conhecer ele verdadeiramente e sua vida real.
Gisele ficou um tempo parada pensando no que fazer, sentia-se triste mas não o suficiente para perder a festa, então retornou para a mesma dando uma desculpa por seu sumiço e continuando a beber e a dançar com seus familiares e amigos íntimos da família; na madrugada estava completamente bêbada e ligou para ele, recebeu apenas mensagem da caixa postal, não quis deixar recado tentando imaginar o que ele fazia naquele horário com o celular desligado, sentiu o coração gelar com o pensamento de que ele poderia ser casado, por isso o celular estava desligado e mais ele nunca respondia as mensagens a noite, e ela estava sendo uma amante perfeita que além de satisfazê-lo na cama, ainda iria emitir o pagamento para ele bancar a esposa, ela achou que seus pensamentos estavam indo longe demais e por isso pensou que talvez ele tivesse apenas uma namorada e que naquela linda noite estavam fazendo algo romântico porque do sexo ela já tinha se encarregado pela manhã. Gisele não gostava de admitir, mas estava sentindo ciúmes, um homem como aquele, lindo, gostoso, bom de cama e generoso ainda que pobre ela não queria perder, queria estar sempre com ele, pensava na obra que estava para acabar e talvez todo esse romance terminasse com o fim da reforma, e ela ficasse sem ele por não saber como assumi-lo, como apresenta-lo a sua sociedade rica e preconceituosa, muito menos em como se comportar na sociedade dele, talvez tivesse um caso com toda patroa que arrumasse, ela não conseguia mais pensar, sentia sua cabeça girar, não apenas a cabeça mas todo o universo, não sentia-se bem mas se soubesse onde ele morava iria até lá sem pensar duas vezes e o chamaria até que ele a entendesse e descobrisse sua real vida, mas como não sabia juntou-se as primas indo até uma boate de luxo no lado nobre da cidade, para terminar de curtir a noite, pois a festa acabara e ela queria mais que novamente deitar na cama otimista esperando a boa vontade dele aparecer e passar uma noite com ela.
Ricardo acordou cedo e foi para o projeto de escola pública onde dava aulas de luta para os jovens, ele não tinha ganho financeiro, mas a satisfação por tirar aqueles jovens por algumas horas da rua era o suficiente como pagamento, ele acreditava que o esporte andava na contra mão das drogas e que o momento em que as crianças ficavam ali, não apenas estavam fora das ruas, mas também tinham uma oportunidade de conhecer uma outra realidade e conhecer um ponto de vista diferente do tráfico de drogas que conviviam em seu dia a dia, ali eles ganhavam uma opção de vida melhor, por isso que Ricardo mesmo sem remuneração financeira não deixava de ensinar mesmo gratuitamente, pois a escola aberta de final de semana era local de olheiros em todas as categorias envolvidas no projeto e toda vez que uma criança ou jovem eram selecionados, todos os outros acreditavam mais em si. Ele dava aula para três turmas, voltava para a casa apenas no final da tarde, sempre com a sensação de missão cumprida, mas naquele domingo não teve isso, pois foi abordado por uma senhora que segurou em seu braço quando saia da escola, o olhar dela era sofrido e triste, assim como o rosto enrugado e o corpo corcunda.
“O senhor é o Ricardo?”
“Sim” respondeu ele compadecido com tamanho sofrimento “a senhora precisa de algo?”
“Sim” ela passou a chorar “preciso de ajuda, mandaram te procurar, por favor me ajude.”
Ricardo levou a senhora até um banco de praça e a sentou, ela chorava muito não conseguia falar, ele pegou suas últimas moedas e comprou uma garrafinha com água para tentar acalma-la. Ela bebeu toda a água, respirou fundo e disse:
“Minha filha está presa” ela tentava conter, mas as lágrimas continuavam a rolar “na biqueira há mais de uma semana, preciso tira-la daquele lugar, fui até lá não me deixaram entrar, fui na polícia eles disseram que sem permissão também não conseguem subir, eu não tenho com quem contar, também não tenho dinheiro pra comprar minha entrada por favor me ajude busca-la me disseram que você consegue subir, por favor preciso ver minha filha.”
Ricardo respirou fundo, várias pessoas o procuravam para pedir algum tipo de ajuda, ele não sabia dizer não mesmo sentindo certo cansaço de um pedido para o outro, ele era conhecido na comunidade, onde iam todos respeitavam por causa dos trabalhos de anos que fazia ali. Ele concordou e deixou a velha senhora guia-lo até o local, no caminho ela lhe contou que morava apenas com a filha, e que trabalhava muito para sustenta-la deixando-a muito tempo sozinha, ou ela sustentava ou educava, não conseguia fazer os dois. Eles chegaram no local, Ricardo pediu para que a senhora esperasse no carro e apenas com o nome da mãe e da menina passou a subir o morro, ele acreditava que a mulher não precisava ver de perto a realidade do morro, aquela não era primeira vez que alguém o chamava para resgatar um jovem preço pelo tribunal ou pelo vicio, mas essa era a primeira vez que estava indo atrás de uma menina, ele sabia o que as meninas faziam para usar drogas lá e a mãe dela não precisava ver isso. Ele subia cumprimentando um e outro todos o conheciam, o lugar não oferecia perigo para ele, porém não gostava de ver crianças se drogando, segurando armas, traficando, vendo no crime um futuro e tipo de sonho fácil de realizar. Afugentando moradores, fazendo suas próprias leis.