Pré-visualização gratuita Capítulo 01
Paula narrando
Hoje era um daqueles dias que eu não queria ver nem a cara do meu marido. A realidade é que ele mudou muito desde que fundamos a empresa, ele virou uma pessoa que só visa dinheiro e mais dinheiro, e não se importa com nada e nem ninguém. Se ele precisar passar por cima da mãe dele por mais algumas cifras na conta ele passa. E eu não concordo com isso. Eu sempre quis montar um império, claro. Ninguém é t**o de querer continuar a viver uma vida de sobrevivência, mas ele… ele não perdoa, ele não pensa, ele se envolve em negócios que eu não estou mais me identificando e não gostaria de fazer parte.
Hoje cheguei cedo na empresa e nem esperei ele pra virmos juntos, saí de casa cedo pra ele não me ver, porque depois da discussão de ontem eu realmente vi que não tem mais jeito, ele não me escuta, ele não quer saber de lógica, ele só quer saber de dinheiro.
Nem pro nosso casamento ele liga mais, ontem completamos mais um ano casados e ele nem lembrou, foi esse o início da nossa discussão ontem, e eu estou muito magoada com ele, eu odeio jogar as coisas na cara do outro, mas ontem foi impossível não falar diversas verdades pra ele, eu não acredito mais no amor, e por mim essa foi a gota d’água, eu preciso conversar com o advogado e começar a seguir a minha vida, porque eu não tô mais feliz com essa situação que estou vivendo, eu não me reconheço mais nesse casamento, eu não me vejo mais nessa situação, e isso já está me machucando num nível que eu não mereço…
— que projeto é esse Júlia ? — eu pergunto pra minha assistente e eu via seus olhos cheios de lágrimas
— ai dona Paula, a senhora vai me desculpar, eu tô arrasada — ela fala e eu analiso a pasta sem entender o porquê daquela sua reação. — esse projeto é na favela onde eu moro, eu sei que quem faz as visitas é o seu marido, mas esse, como um pedido pessoal meu, eu gostaria que a senhora fosse olhar comigo, esse projeto vai deixar centenas de famílias sem casa, são pessoas humildes, que assim como eu, lutam todos os dias e da ter uma vida melhor, o morro tá um caos porque essa notícia vazou, e eu não sei o que fazer, eu tô me sentindo a pior pessoa do mundo, a minha casa é uma das que está para ser demolida com esse projeto — ela fala e eu tiro os olhos do papel e encaro os olhos dela que já não seguravam mais as lágrimas
— vamos lá agora e no caminho você me explica isso — eu falo já pegando a minha bolsa de volta e a chave do meu carro sentindo o meu sangue ferver dentro de mim. Eu não conseguia acreditar que o Leandro tinha fechado um projeto desse sem mim…
Eu vim de uma favela da baixada, sou cria de Belford Roxo, minha família ralou muito pra eu poder me dedicar aos estudos, meus pais se matavam de trabalhar, meu irmão fazia entrega dia e noite se arriscando em cima de uma moto pra eu não precisar trabalhar e me dedicar em passar na melhor faculdade de engenharia e eu me orgulho muito de ter sido a primeira colocada numa bolsa 100% integral e ter tirado eles de lá. Hoje eles continuam trabalhando mas vivem num lugar um pouco melhor e deles. Um quintal onde tem três casas, a dos meus pais, do meu irmão, e uma minha. Mesmo que eu não more lá, eu montei uma casa pra eles, e acabei de dar entrada numa humilde casa em arraial do cabo pra família curtir as férias, eu luto muito pra honrar quem sempre me honrou, e eu amo minha família, e por eles que eu faço tudo, e é por isso que quando eu vi esse projeto eu fiquei p**a.
Eu posso não morar mais na favela, mas eu sei que lá tem pessoas de bem, tem pessoas que lutam muito pra sobreviver, e eu não aceito uma coisa dessas nunca. Eu nunca ia admitir isso na minha vida, eu achei um completo absurdo esse contrato, e o pior, o carimbo era da prefeitura, então eu sabia que aquele valor ali não era nem de longe real, e que o desgraçado do meu marido estava levando uma porcentagem em cima da desgraça de cada morador que teria a sua casa demolida.
Assim que entramos no meu carro a Júlia não parava de chorar, mas eu não ia deixar esse projeto ir à frente, até porque eu sou uma das engenheiras responsáveis, precisava da minha assinatura, e não só a do meu marido, e eu não ia aceitar isso nunca, eu jamais assinaria algo assim, com tantos outros lugares que a prefeitura poderia fazer aquele projeto. Eu sabia muito bem o porque daquele projeto, não era só sobre a casa dos moradores, ali tinha uma guerra fria, entre tráfico e estado, e eu sabia muito bem onde estava me enfiando e o risco que eu estava correndo
— e aqui, mas a barricada não ficava aqui — a Júlia fala assustada colocando a mão sobre o meu braço — volta patroa, volta, eles não vão te deixar sair daqui, nós precisamos sair daqui, ou eles podem tentar algo contra a senhora — ela fala em choque e eu n**o
— jamais, nós vamos entrar, eu vou resolver isso do meu jeito, só me ajuda a passar — eu falo com ela que n**a em choque e tenta puxar o freio de mão mas eu impeço — Júlia, você me conhece, eu vim da favela, você acha que eu apoio esse tipo de coisa ? — eu pergunto e ela n**a na hora
— justamente por isso patroa, nós precisamos sair daqui, eles vão te matar, ou te prender aqui pra falar com o seu marido, vao te usar como moeda de troca — ela fala e eu paro na barricada
— bom dia — eu falo com o vidro aberto e um moleque de uns 15 anos coloca o fuzil dentro do meu carro
— e contigo mesmo, direto pra associação de moradores — o menor fala depois de olhar pra julia, e como se eles já tivessem me esperando
— ok — eu respondo simples e a Júlia me olha confusa
— estavam esperando o seu marido, se fosse ele… e muito estranho eles mandarem irmos pra associação— ela fala e eu respiro fundo
— confia em mim, e me indica o caminho — eu peço a ela que me olha tensa
— ai patroa, eu to com medo…— ela admite mas acaba me explicando o caminho até a associação
Chegando la estava a maior gritaria, muitos moradores reunidos e muitos homens armados, com uma mulher no meio de todos falando como se fosse uma líder de todos eles
— se acalmem, o meu irmão está voltando pra favela, ele não vai deixar ninguém sem casa, vocês conhecem o meu irmão, a minha família, nós nunca deixamos ninguém desamparado — ela grita no meio de geral e seus olhos batem em mim no meio do povo
Parecia que ela já me conhecia, ela sabia quem eu era, e pré supunha o que eu estava fazendo ali, mas na real eu queria entender o que estava rolando, a quanto tempo, porque eu ia intervir, do meu jeito, mas eu não ia deixar morador nenhum sem casa, nem se eu tivesse que jogar tão sujo quanto o Leandro
— você aqui, corajosa — ela fala depois de um tempo quando sai do meio do povo
— não tenho nada a temer — eu falo e estico a mão pra ela — Paula — eu falo e ela encara a minha mão esticada, encara a Júlia e a multidão de seguranças que já tinha a minha volta antes de voltar a me encarar — 5 minutos do seu tempo, pode ser ? — eu peço a ela sem abaixar a cabeça e ela sai andando na minha frente
— tá esperando convite ? — ela fala subindo numa moto e eu vou na sua direção quando ela faz sinal pra eu subir
— patroa, não…— a Júlia me chama mas a mulher que eu ainda não sabia o nome da partida
Dava pra ver que ela era a frente do dono, e se era pra ele que ela estava me levando, que fosse, mas eu não ia recuar pela cara de m*l de ninguém, e eu não ia deixar nenhuma família sem casa, isso era certo.
Meu celular não parava de tocar e eu nem precisava pegar pra saber quem estava me ligando, mas a hora dele ia chegar, e eu garanto que ele não vai gostar…