No dia seguinte, a neve caiu mais forte, cobrindo as ruas com uma espessa camada branca, o que fez o bairro parecer ainda mais isolado. A casa estava quieta, como de costume. Minha mãe estava na cozinha, preparando o café da manhã, e meu pai ainda estava imerso em seus papéis, tentando lidar com a mudança. Eu, por outro lado, não tinha nada a fazer além de tentar encontrar alguma forma de ocupar o tempo. Foi então que uma ideia surgiu: sair e explorar um pouco mais a vizinhança, tentar entender melhor aquele lugar que agora chamaria de lar.
Ao sair de casa, me deparei com a garota loira do dia anterior, Emily. Ela estava em seu jardim, com o Rex ao seu lado, mas agora parecia mais tranquila. O cachorro estava deitado no chão, suas grandes patas se movendo lentamente enquanto olhava para os lados, talvez procurando algo para farejar.
Eu me aproximei cautelosamente. Não sabia bem o que esperar dessa vez. Emily me viu, mas ao invés de me ignorar, ela deu um pequeno aceno com a cabeça. Algo parecia ter mudado nela.
— Oi, Megan. — ela disse, dessa vez sem o tom forçado. — O Rex não morde, você sabe. Só parece assustador.
Eu dei um passo à frente, observando o cachorro que, mesmo sendo grande e imponente, tinha um olhar gentil. Decidi quebrar o gelo, já que ela não parecia mais tão distante.
— Ele é bem grande, né? — falei, tentando soar mais interessada do que realmente estava. — Como você consegue cuidar dele?
Emily olhou para o cachorro e deu de ombros, como se a pergunta fosse trivial.
— Ah, ele é fácil. Só tem que ser bem alimentado e, claro, dar umas voltas para gastar energia. Ele adora correr atrás de qualquer coisa que se mova.
Havia algo na maneira como ela falava que ainda me deixava com a impressão de que não estava completamente confortável. Eu também não estava, mas talvez fosse só uma questão de tempo.
— Eu vi você ontem à noite, caminhando pela rua... — Emily começou, mas parou, parecendo hesitar.
— Eu só estava dando uma volta. — respondi, dando um sorriso fraco. — Eu... não estou muito acostumada com essa cidade ainda.
Ela me olhou por um momento, avaliando, antes de continuar.
— Acontece. Ninguém realmente está. — ela deu uma risadinha baixa, quase imperceptível. — Todo mundo aqui tem sua própria coisa acontecendo. Não espere muita gente querendo se entrosar. Esse bairro tem uma vibe... diferente.
Eu não sabia se era isso que eu queria ouvir, mas a verdade era que eu também sentia uma espécie de vazio no ar. Uma sensação de que ali ninguém realmente se preocupava com o outro. Não era hostilidade, mas uma frieza que parecia impregnada nas paredes das casas, na forma como as pessoas se olhavam ou evitavam olhar.
— Eu entendo. — respondi. — É um pouco... estranho.
Emily parecia relaxar um pouco, mas ainda assim, mantinha uma distância emocional.
— Você vai se acostumar. Mas se precisar de companhia, pode aparecer. Só não conte com muito entusiasmo. — ela deu um meio sorriso, algo que parecia sincero, mas distante.
Eu apenas assenti, agradecendo pela gentileza, embora soubesse que isso não significava necessariamente amizade. Mesmo assim, era um começo. Um pequeno gesto que, talvez, fosse o suficiente para aliviar o peso daquela solidão crescente que parecia envolver tudo ao meu redor.
Enquanto caminhava de volta para a casa, não pude deixar de pensar naquelas palavras de Emily. Talvez a cidade fosse mesmo assim. Fria, distante, mas com pequenos momentos de calor escondidos nas entrelinhas. Eu só precisava saber onde procurar.