Ivy A manhã nasce devagar, como se estivesse com medo de tocar em mim. A luz entra pelas frestas da cortina — fina, dourada, quase tímida — e risca o chão do quarto como um lembrete de que o mundo continua, mesmo quando eu sinto que parei no tempo. E eu parei. Parei no instante em que quase o beijei. Parei no instante em que meu corpo quis o dele antes que a minha mente pudesse impedir. Parei no instante em que meus olhos encontraram os dele… e eu vi tudo. Vontade. Medo. Dor. Saudade. E aquela devoção silenciosa que sempre me desarmou mais do que qualquer toque. Suspiro e me sento na cama, puxando os joelhos contra o peito. Meu corpo ainda guarda o cheiro dele — discreto, sofisticado, quente. Aquele perfume que sempre grudou em mim como se quisesse me marcar. Fecho os olhos.

