Capítulo 1

1648 Palavras
Anne Merdä!!! Xingö mentalmente, abrindo o envelope que tinha acabado de pegar em minha caixa de correspondência. Eu sabia que estava ferrada, mas percebi que estava ferrada ao quadrado quando a carta da Justiça foi entregue em minhas mãos, sabia que depois disso seria "Bye bye, New York" e "Olá, Rio, saudades" em pouquíssimo tempo. Amo meu país, amo a minha cidade maravilhosa que é o Rio de Janeiro e estou morta de saudades da minha gente, principalmente, da minha família. Mas, cara, é Nova Iorque! É os Estados Unidos! O Brasil tem seus pontos bons, sim, reconheço. Mas nada se compara a esse lugar, a esse país. A qualidade de vida aqui é muito boa e, já do meu Brasil, não posso falar isso. Os brasileiros são pessoas animadas e muitos receptivas. Nada se compara a nossa cultura, nossas praias. Temos pontos turísticos maravilhosos... Mas por detrás de toda essa maravilha, está nosso pior inimigo; a corrupção. É ela quem estraga o meu país e dificulta a vida de gente com condições financeiras precárias, como é o meu caso. Sem contar que não estou aqui à toa, mas, sim, em busca de uma vida melhor para mim e minha família. Por mais que o Brasil seja um país incrível, com a culinária, cultura e lugares incríveis, porém, que se perde em tantos roubos desses políticos safados. E com pouco dinheiro, os pobres de classe média baixa são os mais prejudicados nessa história toda. Já vi meus pais chorarem, porque, no final do mês, mesmo com seus salários juntos, não daria para pagar todas as nossas contas e nos manter com comida na mesa durante o mês. Pois é, já foram incontáveis as vezes que deixei de comer, para que a meus irmãos pequenos não passassem fome. Por causa disso, passei a minha adolescência trabalhando em tudo que conseguia. Dava um dinheiro a eles que poderia ajudar na casa, o resto eu juntava na minha conta, enquanto me preparava em diversos cursos de inglês e outros idiomas, para o momento em que conseguisse vir ao país de primeiro mundo, em busca de uma vida melhor para minha família. Com a ajuda do bom Deus, consegui passar em uma faculdade aqui, o que tornou mais fácil tirar um visto de estudante. No início, fiquei no campus da faculdade, até conseguir um emprego na cafeteria e alugar um cantinho para mim, no qual vivo até hoje, depois arranjei um estágio na área de administração. Mas, infelizmente, fui demitida assim que me formei. Faz dois meses que estou desempregada. Estou conseguindo me virar bem, porque sempre fui madura por causa de tudo o que já passei, então administrava bem o meu salário. Mandava uma parte para os meus pais, que ao converter o dólar para real era quase um salário e ajudava bastante, tinha vezes que passava disso. Pagava o aluguel que não é muita coisa, comprava as coisas do aplicativo, umas roupas, porque sou filha de Deus e o resto guardava. Com essas economias, tenho conseguido viver. Mas o fodä, é que não tem mais nada que me prenda aqui e, se eu não arrumar um emprego em até três meses, vão me mandar embora. Preciso dar um jeito nisso logo, porque depois que eu voltar ao Brasil, dificilmente conseguirei voltar para cá. Nanda: Te encontro na cafeteria em 30 minutos! Eu: Okay. Odeio o fato de essa pessoa sempre saber quando preciso dela. Deixo meu celular de lado e vou me arrumar. Sigo direto para o banho, vou para meu quarto e escolho uma roupa. Não tenho um guarda-roupa cheio, longe disso, mas tenho peças básicas que dá para montar looks bem legais. Coloco a segunda pele por baixo, só para me manter quentinha. Uma calça legging preta, com um cropped da mesma cor, por cima uma jaqueta camuflada. Nos pés uma bota de salto alto. Uso muito salto porque desde pequena sou apaixonada. E também pelo fato de ser baixinha. Deixo meus cabelos soltos. O bom do clima ser frio aqui, é que posso usar meu cabelo sempre solto e, mesmo sendo muito longo, ajuda a não suar e deixar tudo um nó. Passo um perfume, faço uma maquiagem só para tirar a olheira de passar a noite em branco, porque a preocupação com tudo é enorme. Pego uma pasta com os currículos que pretendo entregar. Saio de casa e, em menos de trinta minutos, chego ao local onde marcamos de nos encontrar. — Odeio o fato de que, qualquer roupa que você coloque, só deixa o seu corpo mais gostoso! — Nanda diz assim me vê. — Genética brasileira, amor. — provoco ela. Nanda é maravilhosa também, sei que é só brincadeira dela. — Minha mãe, ao invés de ter ficado com um brasileiro... Já pensou eu com esse corpão? Aí que ninguém me segurava! — dá um sorriso sacana. Sei que todo mundo tem em si um lado bem ordinário, pelo menos a maioria, mas não me considero assim. Já a Fernanda, nem preciso falar, porém, sou extremamente grata por tê-la em minha vida. Nos conhecemos na faculdade e, desde então, passamos várias perrengues juntas, assim como, vários momentos incríveis também. A garçonete vem e pega nossos pedidos, pedi apenas um café forte. Nanda, quase minha irmã, já se ligou que tinha algo, porque ela sabe que sou de comer bastante, então certamente estranhou meu pedido. — O que aconteceu? — pergunta depois de pedir um pedaço generoso de bolo de chocolate para ambas, para me forçar a comer. — Chegou a carta da Justiça. Tenho no máximo três meses, antes de ser deportada. — seu semblante, que antes estava feliz, logo muda de expressão. Nanda e eu nos aproximamos muito nesses quase oito anos de amizade. Cheguei nos Estados Unidos com dezoito anos, agora tenho vinte e cinco. Nos conhecemos na faculdade, assim que eu cheguei aqui e nossa amizade foi instantânea. Desde então, passamos por tudo juntas, me tornei sua irmã mais velha, como a mesma gosta de me chamar. Foram muitas as vezes que cuidei dela depois de uma balada, porque ela é a amiga bebedeira, ou que a consolava enquanto chorava, ou ela fazia o mesmo comigo. Ela já me defendeu de diversas situações, assim como eu a ela, especialmente por ser bissexual. Aliás, já a apoiei até com seus pais, por eles não terem uma boa relação, principalmente a partir do momento em que descobriram sobre sua sexualidade. — Você não pode ir embora! — ela segura minha mão sobre a mesa. — Infelizmente nem todo mundo compartilha dessa opinião. — aperto sua mão, em retribuição ao consolo com os lábios comprimidos. — Nós vamos dar um jeito, temos que dar um jeito! — vejo seus olhos lacrimejarem — Por que você não paga a pós-graduação? Seria um motivo para você ficar aqui. — Com que dinheiro, se nem emprego eu tenho? — sorrio fraco, vendo seus ombros murcharem. Nanda também não tem muito dinheiro. Ela até trabalha, diferente de mim, conseguiu um emprego após a faculdade e permanece nele, a felicidade dela é a minha. Mas a maioria do seu dinheiro vai para ajudar na sua casa. Até sobra um dinheirinho, porém, sabemos que nunca será o suficiente para uma pós-graduação, e eu até já me inscrevi no programa de bolsas e cheguei a passar, contudo, teria que pagar algumas coisas que o meu orçamento não cobria, então, tive que deixar para lá, ao menos naquele momento. Quem sabe mais para a frente... — Eu não posso te perder. — profere com a voz embargada. — Eu também não quero ir, mas não estou vendo nenhuma alternativa. Ela abaixa a cabeça, olhando para a mesa. Vejo uma lágrima rolar por sua bochecha direita, por isso me levanto e sento-me ao seu lado, lhe abraçando em forma de consolo. Eu é quem deveria estar sendo consolada nesse momento e tenho consciência disso, porque são meus sonhos que estão descendo pelo ralo, porém, a Nanda, apesar de ser quem é, é o lado sentimental da nossa amizade, então sei como deve estar se sentindo. Eu não quero partir, não quero ter que desistir de um sonho, dessa cidade e menos ainda deixar a minha melhor amiga. Somos a metade uma da outra, eu sempre estou aqui para sorrir ou chorar com ela, enquanto sei que ela sempre estará da mesma forma. Realmente não consigo imaginar a minha vida sem ela, mas estou me vendo obrigada a começar imaginar. — Eu tenho três meses ainda, não vou desistir sem tentar — tento animá-la — Vou entregar currículos, espalhar por todos os cantos, qualquer trabalho estou aceitando. Não é possível que eu não seja chamada para nenhum. — tento arranjar uma solução, vendo-a levantar a cabeça e curvar os lábios em um sorriso. — Vamos começar agora, não podemos perder tempo. — se levanta, segurando minha mão. Seu humor muda de forma repentina, a Nanda sempre foi assim, desse jeitinho todo especial e eu amo. Todas as vezes em que estive triste e precisei de um ombro amigo, ela estava lá. Ela deixa uma quantia de dinheiro em cima da mesa, não me dando opção de pagar nem mesmo a minha parte e me arrasta para fora do estabelecimento. Saímos distribuindo por toda e qualquer empresa que a gente vê pelo caminho, pedindo mentalmente para que qualquer uma delas me chame. Eu só rezo para que Deus me ajude, que me dê uma saída. Ele sabe o quanto lutei para chegar aqui, o quão importante isso é para mim. Não quero nada de mão beijada, nunca fui assim, sempre lutei para ter tudo o que tenho, apesar de não ser muita coisa, quero apenas um emprego, o resto eu vou à luta e consigo, até porque do céu já cai a chuva e basta, o resto a gente precisa correr atrás mesmo para conseguir.
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