Capítulo 20

1164 Palavras
Confia em Mim Olyver não dormiu naquela noite. Sentado no escritório improvisado no apartamento ao lado do de Alice, ele observava a cidade pela janela, as luzes distantes piscando como se nada tivesse mudado. Mas tudo tinha mudado. Desde a clínica, desde o desmaio, desde a conversa com o pai, algo dentro dele tinha se reorganizado de forma definitiva. Ele não podia mais reagir. Precisava agir. Pegou o telefone logo cedo. — Quero um contrato — disse ao advogado, sem rodeios. — De casamento. Completo. Blindado. Proteção total para ela e para o bebê. Agora. Do outro lado, houve uma breve pausa. — Senhor Blayck… o senhor tem certeza? — Absoluta — respondeu. — Quero que nada, absolutamente nada, possa ser usado contra ela. Nem pela minha família. Nem por mim, se um dia eu falhar. O advogado entendeu o peso daquilo. Não era um acordo comum. Era uma decisão que misturava poder, culpa, responsabilidade e algo mais profundo — algo que não cabia em cláusulas. Quando os documentos ficaram prontos, Olyver os pegou pessoalmente. Não delegou. Não pediu que enviassem. Queria estar ali. Queria olhar para Alice quando pedisse aquilo. Alice estava em casa, como o médico havia recomendado. O apartamento pequeno parecia ainda mais silencioso naquela manhã. Chad estava esticado ao lado dela no sofá, ronronando baixo, como se sentisse que a dona precisava de conforto. Ela fazia carinho atrás da orelha do gato quando ouviu a porta. — Olyver? — chamou. — Sou eu — respondeu ele, entrando devagar. Ele parou por um instante, observando a cena: Alice com roupas leves, o rosto ainda um pouco cansado, mas mais sereno; Chad colado a ela como um guardião silencioso. Aquela imagem fez algo apertar no peito dele. Era ali que ele queria estar. Era aquilo que queria proteger. — Está tudo bem? — ela perguntou, percebendo o olhar dele. — Está — respondeu. — Melhor agora. Ele se aproximou, sentou-se na poltrona em frente a ela. Chad lançou um olhar avaliador para Olyver, depois voltou a se acomodar. — Você parece sério — comentou Alice. — Eu estou — admitiu. — Mas não é coisa r**m. Ele respirou fundo, pegou a pasta que trazia consigo e a colocou sobre a mesa de centro. Alice franziu a testa. — O que é isso? — Um contrato — respondeu ele, direto. — De casamento. O silêncio caiu como um véu pesado. Alice sentiu o coração acelerar. — Casamento? — repetiu, confusa. — Olyver… — Antes que você pense qualquer coisa — ele se adiantou —, me escuta. Por favor. Ela assentiu devagar. — Isso não é um pedido romântico — continuou ele. — Não agora. É uma decisão de proteção. Meu pai não vai parar. A família Blayck não perdoa o que não controla. E eu não vou permitir que você ou nosso filho fiquem vulneráveis. Alice sentiu um nó se formar na garganta. — Esse contrato garante seus direitos — explicou ele. — Financeiros, legais, médicos. Se algo acontecer comigo, você está protegida. Se algo acontecer comigo e você… — a voz dele falhou por um segundo — você nunca ficará desamparada. — E você? — ela perguntou. — O que você ganha com isso? Ele a encarou com sinceridade crua. — A chance de fazer o certo. Alice desviou o olhar para os papéis. As letras pareciam pesadas demais. Casamento. Uma palavra grande para alguém que nunca sequer sonhara com isso. Ela pensou no orfanato, nos anos trabalhando em silêncio, em nunca pertencer a lugar algum. — Isso parece… frio — disse ela, baixinho. — Um contrato. — Eu sei — respondeu Olyver. — E eu odeio que tenha que começar assim. Mas eu não posso te pedir amor agora. Não depois do que eu fiz. O que eu posso te oferecer é segurança. Respeito. Tempo. Ela ergueu os olhos lentamente. — E se eu disser não? — Eu continuo cuidando de você — respondeu ele, sem hesitar. — Mas você fica exposta. E eu não posso aceitar isso. Alice ficou em silêncio por longos segundos. Chad levantou a cabeça, miou baixo, como se sentisse a tensão. Ela passou a mão pelo ventre, ainda pequeno, mas já tão presente. — Isso muda quem nós somos? — perguntou ela. — Não — disse Olyver. — Só muda o que o mundo pode fazer com você. Ele se inclinou um pouco à frente. — Alice… confia em mim. Aquelas palavras ecoaram dentro dela. Confiança. Algo que sempre lhe fora exigido, nunca oferecido. Ela olhou para ele de verdade. Viu o homem cansado, determinado, diferente daquele que conhecera no escritório anos atrás. Viu culpa, sim, mas também responsabilidade. E algo que parecia crescer silenciosamente entre eles. — Eu não estou fazendo isso por dinheiro — disse ela, firme. — Nem pelo nome Blayck. — Eu sei — respondeu ele. — E isso não apaga o que aconteceu — continuou. — Nem resolve tudo. — Eu sei — repetiu ele. — Então por que eu deveria assinar? Olyver respirou fundo. — Porque eu vou passar o resto da minha vida tentando merecer essa confiança. Mesmo que você nunca me ame. Mesmo que um dia vá embora. Eu ainda vou proteger você e esse filho. Isso não é negociação. Alice sentiu os olhos arderem. — Você fala como se já tivesse escolhido por nós dois. — Eu escolhi cuidar — disse ele. — O resto, você decide quando quiser. Ela fechou os olhos por um instante. Pensou em Chad. No bebê. No medo constante de perder tudo. Pensou na ligação de Otto, no desmaio, no hospital. Quando abriu os olhos novamente, algo dentro dela tinha se acalmado. — Me dá a caneta. Olyver piscou, surpreso. — Tem certeza? — Não — respondeu ela, honesta. — Mas eu confio em você agora. E isso basta. Ele entregou a caneta com a mão levemente trêmula. Alice leu as últimas linhas, respirou fundo… e assinou. O som da caneta no papel pareceu selar algo muito maior do que um acordo jurídico. Quando terminou, devolveu a caneta e recostou-se no sofá, exausta. Olyver fechou a pasta devagar, como se estivesse lidando com algo sagrado. — Obrigado — disse ele, a voz baixa. — Não me agradeça — respondeu ela. — Só… não me faça me arrepender. Ele se levantou, aproximou-se, ajoelhou-se diante dela, sem tocá-la. — Eu juro — disse — que vou passar a vida inteira tentando ser digno desse nome ao lado do seu. Chad levantou-se e pulou no colo de Olyver sem aviso. Alice arregalou os olhos. — Ele nunca faz isso — murmurou. Olyver sorriu pela primeira vez em horas. — Acho que ele aprovou. Alice soltou um pequeno sorriso cansado. Naquele apartamento simples, com um gato curioso, uma mulher ferida, um homem tentando reparar o irreparável e um bebê crescendo em silêncio, algo novo começava. Não era um conto de fadas. Era um pacto. E, pela primeira vez, Alice Madson não estava sozinha para enfrentá-lo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR