Capítulo 19

1071 Palavras
O Acerto de Contas Olyver passou a noite quase inteira acordado. Sentado na poltrona ao lado da cama da clínica, observava Alice dormir sob efeito leve do soro. O peito dela subia e descia de forma ritmada, frágil demais para carregar tanto peso. Cada vez que o monitor emitia um som, o coração dele reagia antes da razão. Aquilo tudo nunca deveria ter acontecido. Ele passou a mão pelos cabelos, cansado, a mente voltando repetidamente para a ligação. Para a voz do pai. Para o nome Blayck sendo usado como arma — de novo. Quando o médico entrou pela manhã, Olyver se levantou imediatamente. — Ela está melhor — disse o médico. — A pressão estabilizou. Mas o que causou isso não foi físico apenas. Foi emocional. Qualquer novo choque pode ser muito perigoso, senhor Blayck. Para ela… e para o bebê. — Eu entendi — respondeu Olyver, sério. — Isso não vai acontecer de novo. O médico assentiu e saiu. Olyver olhou para Alice mais uma vez antes de pegar o celular. Havia uma mensagem que ele já sabia que estaria ali. Pai: Precisamos conversar. Quero vê-lo hoje. Ele fechou os olhos por um segundo. Precisava acontecer. Quanto mais adiasse, mais risco Alice corria. Mas ela não poderia ficar sozinha. Saiu do quarto e fez a ligação que sabia ser necessária. — Alfredi — disse, assim que o mordomo atendeu. — Preciso que você venha para a clínica agora. — Aconteceu algo com a senhorita Madson? — a voz do homem carregava preocupação genuína. — Sim. Mas ela está estável. Eu preciso sair por algumas horas e não confio em mais ninguém para ficar com ela. — Estarei aí em vinte minutos, senhor. — Obrigado — respondeu Olyver, sincero. Quando Alfredi chegou, Olyver explicou tudo com poucas palavras. O homem ouviu em silêncio, o rosto sério, respeitoso. — Ela ficará sob meus cuidados — garantiu. — Pode ir tranquilo. Olyver entrou novamente no quarto. Alice estava acordada agora, os olhos claros um pouco cansados, mas atentos. — Olyver… — murmurou. Ele se aproximou imediatamente. — Estou aqui. — Eu ouvi vozes… — disse ela, confusa. — Alfredi? — Sim — respondeu ele, sentando-se ao lado da cama. — Eu preciso sair um pouco. Vou falar com meu pai. O rosto dela se contraiu na mesma hora. — Não… — sussurrou. — Ele… — Ei — Olyver segurou a mão dela com cuidado. — Eu não vou deixar ninguém te machucar de novo. Eu prometo. Alfredi vai ficar com você o tempo todo. E eu volto. Ela respirou fundo, tentando conter o medo. — Ele não gosta de mim. — Isso não importa — respondeu Olyver, firme. — Quem decide sobre a minha vida sou eu. Alice assentiu devagar. — Volta logo. — Sempre — disse ele, inclinando-se para beijar-lhe a testa. — Descansa. Olyver saiu da clínica com o coração pesado e o passo decidido. O encontro com Otto aconteceu no escritório antigo da família Blayck — aquele que ainda carregava a marca do pai, mesmo depois de Olyver assumir tudo. Um território que Otto nunca deixou de considerar seu. Otto já estava lá quando Olyver entrou. De pé, próximo à janela, mãos cruzadas atrás do corpo. — Você demorou — disse, sem se virar. — Eu estava cuidando da mulher que você fez desmaiar — respondeu Olyver, direto. Otto virou-se lentamente. — Você sempre foi dramático. — E você sempre foi c***l — rebateu Olyver. O silêncio que se seguiu foi pesado. — Então é verdade — disse Otto, por fim. — Ela está grávida. — Está — confirmou Olyver. — Do meu filho. Otto respirou fundo, como se reorganizasse os próprios pensamentos. — Você destruiu tudo por causa de uma funcionária — disse ele. — Uma mulher sem nome, sem berço, sem— — Chega — Olyver interrompeu, a voz baixa, mas carregada de algo perigoso. — Não ouse falar dela desse jeito. — Você perdeu a cabeça — insistiu Otto. — Está colocando o legado da família em risco. Olyver deu um passo à frente. — O único risco aqui é você continuar achando que manda em mim. Otto o encarou, surpreso. — Eu construí tudo o que você tem. — E usou isso para controlar, humilhar e descartar pessoas — respondeu Olyver. — Eu vi. Vivi isso. E não vou repetir. — Ela é fraca — disse Otto, friamente. — Basta uma ligação para cair. Olyver sentiu algo quebrar de vez dentro de si. — Ela é forte — respondeu. — Forte o suficiente para sobreviver ao que eu fiz… e ao que você tentou fazer. E se algo acontecer com ela ou com meu filho, você não perde apenas um herdeiro. Perde um filho. Otto permaneceu em silêncio. — Você não vai mais se aproximar dela — continuou Olyver. — Não vai ligar, não vai investigar, não vai usar o nome Blayck como ameaça. Se fizer isso, eu exponho tudo. Inclusive o que você sempre escondeu. — Você não teria coragem. — Tenho — disse Olyver, sem hesitar. — Porque, pela primeira vez, eu tenho algo que vale mais do que tudo isso. Otto desviou o olhar. — Você escolheu m*l — murmurou. — Não — respondeu Olyver. — Pela primeira vez, eu escolhi certo. Virou-se e saiu, sem esperar resposta. No caminho de volta à clínica, o peito ainda apertado, Olyver sentiu algo diferente misturado à raiva e ao medo: alívio. Como se, finalmente, tivesse cortado o último fio que o mantinha preso a uma vida que não queria mais. Quando entrou no quarto, encontrou Alice acordada, Alfredi ao lado, segurando uma xícara de chá para ela. — Ele voltou — disse Alfredi, levantando-se. Alice ergueu os olhos imediatamente para Olyver. — Está tudo bem? — perguntou, ansiosa. Olyver aproximou-se, ajoelhou-se ao lado da cama e segurou a mão dela com firmeza. — Está — respondeu. — E vai ficar melhor. Eu prometo. Ela o observou por alguns segundos, como se buscasse sinais de perigo. Depois, relaxou um pouco. — Obrigada por não me deixar sozinha. — Nunca mais — disse ele. — Você não está sozinha. Nunca esteve. Alfredi observou a cena em silêncio, compreendendo algo que nem o próprio Olyver talvez tivesse verbalizado ainda. Aquele confronto não era apenas com o pai. Era o nascimento definitivo de uma nova família. E Olyver Blayck estava pronto para protegê-la — custasse o que custasse.
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