O Acerto de Contas
Olyver passou a noite quase inteira acordado.
Sentado na poltrona ao lado da cama da clínica, observava Alice dormir sob efeito leve do soro. O peito dela subia e descia de forma ritmada, frágil demais para carregar tanto peso. Cada vez que o monitor emitia um som, o coração dele reagia antes da razão.
Aquilo tudo nunca deveria ter acontecido.
Ele passou a mão pelos cabelos, cansado, a mente voltando repetidamente para a ligação. Para a voz do pai. Para o nome Blayck sendo usado como arma — de novo.
Quando o médico entrou pela manhã, Olyver se levantou imediatamente.
— Ela está melhor — disse o médico. — A pressão estabilizou. Mas o que causou isso não foi físico apenas. Foi emocional. Qualquer novo choque pode ser muito perigoso, senhor Blayck. Para ela… e para o bebê.
— Eu entendi — respondeu Olyver, sério. — Isso não vai acontecer de novo.
O médico assentiu e saiu.
Olyver olhou para Alice mais uma vez antes de pegar o celular. Havia uma mensagem que ele já sabia que estaria ali.
Pai: Precisamos conversar. Quero vê-lo hoje.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Precisava acontecer. Quanto mais adiasse, mais risco Alice corria.
Mas ela não poderia ficar sozinha.
Saiu do quarto e fez a ligação que sabia ser necessária.
— Alfredi — disse, assim que o mordomo atendeu. — Preciso que você venha para a clínica agora.
— Aconteceu algo com a senhorita Madson? — a voz do homem carregava preocupação genuína.
— Sim. Mas ela está estável. Eu preciso sair por algumas horas e não confio em mais ninguém para ficar com ela.
— Estarei aí em vinte minutos, senhor.
— Obrigado — respondeu Olyver, sincero.
Quando Alfredi chegou, Olyver explicou tudo com poucas palavras. O homem ouviu em silêncio, o rosto sério, respeitoso.
— Ela ficará sob meus cuidados — garantiu. — Pode ir tranquilo.
Olyver entrou novamente no quarto. Alice estava acordada agora, os olhos claros um pouco cansados, mas atentos.
— Olyver… — murmurou.
Ele se aproximou imediatamente.
— Estou aqui.
— Eu ouvi vozes… — disse ela, confusa. — Alfredi?
— Sim — respondeu ele, sentando-se ao lado da cama. — Eu preciso sair um pouco. Vou falar com meu pai.
O rosto dela se contraiu na mesma hora.
— Não… — sussurrou. — Ele…
— Ei — Olyver segurou a mão dela com cuidado. — Eu não vou deixar ninguém te machucar de novo. Eu prometo. Alfredi vai ficar com você o tempo todo. E eu volto.
Ela respirou fundo, tentando conter o medo.
— Ele não gosta de mim.
— Isso não importa — respondeu Olyver, firme. — Quem decide sobre a minha vida sou eu.
Alice assentiu devagar.
— Volta logo.
— Sempre — disse ele, inclinando-se para beijar-lhe a testa. — Descansa.
Olyver saiu da clínica com o coração pesado e o passo decidido.
O encontro com Otto aconteceu no escritório antigo da família Blayck — aquele que ainda carregava a marca do pai, mesmo depois de Olyver assumir tudo. Um território que Otto nunca deixou de considerar seu.
Otto já estava lá quando Olyver entrou. De pé, próximo à janela, mãos cruzadas atrás do corpo.
— Você demorou — disse, sem se virar.
— Eu estava cuidando da mulher que você fez desmaiar — respondeu Olyver, direto.
Otto virou-se lentamente.
— Você sempre foi dramático.
— E você sempre foi c***l — rebateu Olyver.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Então é verdade — disse Otto, por fim. — Ela está grávida.
— Está — confirmou Olyver. — Do meu filho.
Otto respirou fundo, como se reorganizasse os próprios pensamentos.
— Você destruiu tudo por causa de uma funcionária — disse ele. — Uma mulher sem nome, sem berço, sem—
— Chega — Olyver interrompeu, a voz baixa, mas carregada de algo perigoso. — Não ouse falar dela desse jeito.
— Você perdeu a cabeça — insistiu Otto. — Está colocando o legado da família em risco.
Olyver deu um passo à frente.
— O único risco aqui é você continuar achando que manda em mim.
Otto o encarou, surpreso.
— Eu construí tudo o que você tem.
— E usou isso para controlar, humilhar e descartar pessoas — respondeu Olyver. — Eu vi. Vivi isso. E não vou repetir.
— Ela é fraca — disse Otto, friamente. — Basta uma ligação para cair.
Olyver sentiu algo quebrar de vez dentro de si.
— Ela é forte — respondeu. — Forte o suficiente para sobreviver ao que eu fiz… e ao que você tentou fazer. E se algo acontecer com ela ou com meu filho, você não perde apenas um herdeiro. Perde um filho.
Otto permaneceu em silêncio.
— Você não vai mais se aproximar dela — continuou Olyver. — Não vai ligar, não vai investigar, não vai usar o nome Blayck como ameaça. Se fizer isso, eu exponho tudo. Inclusive o que você sempre escondeu.
— Você não teria coragem.
— Tenho — disse Olyver, sem hesitar. — Porque, pela primeira vez, eu tenho algo que vale mais do que tudo isso.
Otto desviou o olhar.
— Você escolheu m*l — murmurou.
— Não — respondeu Olyver. — Pela primeira vez, eu escolhi certo.
Virou-se e saiu, sem esperar resposta.
No caminho de volta à clínica, o peito ainda apertado, Olyver sentiu algo diferente misturado à raiva e ao medo: alívio. Como se, finalmente, tivesse cortado o último fio que o mantinha preso a uma vida que não queria mais.
Quando entrou no quarto, encontrou Alice acordada, Alfredi ao lado, segurando uma xícara de chá para ela.
— Ele voltou — disse Alfredi, levantando-se.
Alice ergueu os olhos imediatamente para Olyver.
— Está tudo bem? — perguntou, ansiosa.
Olyver aproximou-se, ajoelhou-se ao lado da cama e segurou a mão dela com firmeza.
— Está — respondeu. — E vai ficar melhor. Eu prometo.
Ela o observou por alguns segundos, como se buscasse sinais de perigo. Depois, relaxou um pouco.
— Obrigada por não me deixar sozinha.
— Nunca mais — disse ele. — Você não está sozinha. Nunca esteve.
Alfredi observou a cena em silêncio, compreendendo algo que nem o próprio Olyver talvez tivesse verbalizado ainda.
Aquele confronto não era apenas com o pai.
Era o nascimento definitivo de uma nova família.
E Olyver Blayck estava pronto para protegê-la — custasse o que custasse.