O Peso do Nome Blayck
Otto Blayck não era um homem acostumado a receber informações pela metade.
Quando ouviu, durante um almoço formal com membros do conselho, que o filho estava “fora de si”, envolvido com uma mulher que ninguém conhecia, algo se acendeu dentro dele. Não era preocupação — era controle. O tipo de controle que ele exercera a vida inteira sobre empresas, pessoas e, principalmente, sobre Olyver.
— Uma mulher? — repetira, com a voz baixa e firme. — Desde quando?
As respostas vieram vagas. “Algum tempo.” “Não é do círculo social.” “Dizem que ele está diferente.”
Diferente era uma palavra que Otto não gostava. Diferente significava fora do alcance.
E, quando algo fugia de seu alcance, ele puxava as rédeas.
Sozinho em seu escritório, com as paredes de vidro refletindo a cidade aos seus pés, Otto pensou por alguns minutos. Não ligaria para o filho. Não ainda. Conhecia Olyver o suficiente para saber que qualquer confronto direto seria recebido com resistência.
Precisava falar com a mulher.
Se fosse uma interesseira — como tantas outras — resolveria rápido.
Se não fosse… ainda assim, resolveria.
Pegou o telefone, pediu que localizassem o número da secretária que trabalhara anos para a família Blayck. Alice Madson. Ele lembrava do nome. Lembrava da postura discreta, da eficiência silenciosa. Lembrava vagamente da menina que crescera dentro da empresa sem jamais chamar atenção.
O telefone chamou.
Alice estava sentada no sofá quando viu o nome surgir na tela.
Otto Blayck.
Seu coração errou o compasso.
— Olyver… — murmurou, sem tirar os olhos do celular.
— O que foi? — ele perguntou, atento ao tom da voz dela.
— É o seu pai.
Olyver franziu a testa imediatamente.
— Não atende — disse, seco. — Não agora.
Mas Alice já estava atendendo. Parte dela ainda obedecia àquele nome. Parte dela ainda era a funcionária que aprendera a nunca ignorar um Blayck.
— Senhor Otto… — disse, tentando manter a voz firme.
Do outro lado, a voz veio direta, fria, sem rodeios.
— Senhorita Madson. Não vou tomar seu tempo. Vou ser claro.
Alice engoliu em seco.
— Estão me dizendo que meu filho está envolvido com você. Que perdeu o foco, a razão. Quero ouvir da sua boca o que exatamente você é para Olyver Blayck.
O mundo pareceu encolher ao redor dela.
— Eu… — tentou dizer, mas a garganta fechou.
— Antes que responda — continuou Otto —, saiba que já vi muitos casos assim. Mulheres que confundem atenção com oportunidade. Se esse for o seu caso, é melhor recuar agora. A família Blayck não tolera escândalos.
Olyver observava Alice à distância. Viu quando o rosto dela perdeu a cor. Viu quando os dedos começaram a tremer. Levantou-se imediatamente.
— Alice? — chamou, aproximando-se.
Ela levantou a mão, pedindo silêncio, mas seus olhos estavam marejados.
— Senhor Otto… — a voz saiu fraca. — Eu não… não sou nada disso.
— Então o que é? — pressionou ele. — Porque meu filho nunca se envolveu dessa forma sem interesse envolvido.
As palavras caíam como lâminas.
Alice sentiu o chão fugir. O passado, o medo, a culpa que nunca foi dela, a gravidez, a doença, tudo se misturou em um único ponto de pressão. A respiração ficou curta. O ouvido zumbiu.
— Alice! — Olyver já estava ao lado dela.
O telefone escorregou de sua mão. Seus olhos se reviraram, e o corpo cedeu.
— Alice! — ele a segurou antes que caísse no chão.
Do outro lado da linha, o telefone ainda aberto, Otto ouviu apenas o silêncio abrupto.
— Senhorita Madson? — chamou. — Senhorita Madson?
Mas já não havia resposta.
Olyver não pensou. Apenas agiu.
Pegou Alice no colo com cuidado, o medo estampado no rosto. Ela estava pálida demais, mole demais.
— Alfredo! — gritou. — Chame o motorista agora!
Em poucos segundos, já estavam no carro. O motorista dirigia como nunca, cortando o trânsito, ignorando sinais. Olyver mantinha Alice nos braços, murmurando o nome dela como uma prece.
— Fica comigo… por favor… — dizia, sentindo o coração disparado contra o dela.
Chegaram à clínica em tempo recorde. Médicos correram, a colocaram na maca, iniciaram procedimentos. Olyver ficou do lado de fora, as mãos sujas de medo, a cabeça girando.
Minutos depois, um médico aproximou-se.
— Ela teve uma queda de pressão forte, associada a estresse intenso — explicou. — Dado o histórico cardíaco e a gravidez, isso é perigoso. Ela precisa ser protegida de qualquer abalo emocional.
Olyver assentiu, o maxilar travado.
Quando pôde entrar, encontrou Alice inconsciente, ligada ao soro, respirando com ajuda de oxigênio leve. Aproximou-se da cama, segurou a mão dela com cuidado extremo.
— Me desculpa… — sussurrou. — Eu devia ter impedido.
Sentiu algo duro crescer dentro do peito. Não era culpa. Era decisão.
O telefone dele vibrou no bolso.
Pai.
Olyver saiu do quarto antes de atender. Caminhou até o corredor vazio, os passos firmes, o rosto transformado.
— O que você fez? — perguntou, assim que atendeu, sem cumprimentos.
— Ela desligou — respondeu Otto, como se nada tivesse acontecido. — Imagino que não gostou da conversa.
— Ela desmaiou — disse Olyver, a voz baixa, perigosa. — Está internada por sua causa.
Houve um breve silêncio do outro lado.
— Isso é… inesperado — disse Otto, por fim. — Mas não muda o fato de que—
— Muda tudo — interrompeu Olyver. — Você cruzou um limite. Alice não é um caso. Não é interesseira. Não é um jogo. Ela é a mãe do meu filho.
O silêncio agora foi mais longo.
— Seu filho? — repetiu Otto, incrédulo.
— Sim — confirmou Olyver. — E antes que você pense em controlar isso também, saiba de uma coisa: se você chegar perto dela de novo sem o meu consentimento, eu corto qualquer acesso. Empresa, conselho, tudo.
— Você está me ameaçando? — a voz de Otto endureceu.
— Estou protegendo minha família — respondeu Olyver. — Algo que você nunca soube fazer.
Desligou antes que o pai respondesse.
Voltou para o quarto de Alice. Sentou-se ao lado da cama, segurando a mão dela, observando cada respiração, cada pequeno movimento.
— Eu prometo — disse em voz baixa — que ninguém nunca mais vai te ferir assim. Nem meu pai. Nem o mundo. Eu vou enfrentar tudo por você. Por vocês.
Alice se mexeu levemente, como se ouvisse. Olyver inclinou-se, beijando-lhe a testa com cuidado.
Naquele momento, ele soube.
A conversa com o pai seria séria, definitiva, sem volta.
Porque Alice não era mais apenas parte da vida dele.
Ela era o centro.