Capítulo 17

859 Palavras
Coisas Simples Olyver segurava a receita com mais cuidado do que qualquer contrato milionário que já assinara na vida. O papel era simples, comum, com letras claras e orientações objetivas: vitaminas, suplementos, doses, horários. Nada que chamasse atenção para quem olhasse de fora. Mas, para ele, aquilo tinha um peso diferente. Era parte do cuidado. Parte da responsabilidade. Parte da vida que agora existia de forma concreta. — Vou passar na farmácia agora — disse ele, enquanto guardava a receita no bolso do casaco. — Comprar tudo direitinho. Alice estava sentada no sofá, com uma almofada apoiada nas costas e a mão repousando no ventre, ainda como se pudesse sentir o eco do som que ouvira na clínica. — Tudo bem — respondeu ela. Olyver deu dois passos em direção à porta e então parou. Virou-se para ela, hesitando por um segundo. — Você quer alguma coisa? — perguntou. — Posso trazer. Alice ergueu o olhar, surpresa com a pergunta simples. Pensou por um instante. Poderia pedir água, algo específico, qualquer necessidade prática. Mas o que saiu foi diferente. — Eu queria ir com você — disse. — E… tomar um sorvete. Olyver piscou, pego desprevenido. — Agora? — perguntou, quase sorrindo. — Agora — respondeu ela, com um leve levantar de ombros. — O médico não disse que eu precisava ficar trancada. Só sem esforço. Ele a observou com atenção, avaliando mais o estado dela do que o pedido em si. Alice parecia bem. Cansada, mas serena. E, acima de tudo, decidida. — Então vamos — disse ele, por fim. — Mas devagar. Alice sorriu. Um sorriso pequeno, verdadeiro. Ela se levantou com cuidado. Olyver aproximou-se, oferecendo o braço sem impor. Alice aceitou, apoiando-se de leve. O gesto foi natural, sem tensão. — Não acredito que você vai comprar vitaminas pessoalmente — comentou ela, enquanto caminhavam até o elevador. — Eu vou conferir tudo — respondeu ele. — Não confio em terceiros para isso. — Vida de bilionário falhando — provocou ela. Ele soltou uma risada baixa. — Totalmente. O trajeto até a farmácia foi tranquilo. O sol da tarde aquecia sem exagero, e Alice apoiou a cabeça no encosto do banco do carro, observando a cidade passar. Havia algo de estranhamente normal naquele momento — quase doméstico. Na farmácia, Olyver fez questão de falar diretamente com a atendente, conferindo nomes, dosagens, marcas. Alice observava de longe, sentada em uma cadeira próxima, achando curiosa aquela versão dele: concentrado, sério, atento a detalhes pequenos. — Pronto — disse ele, quando terminou. — Tudo certo. — Você pareceu mais nervoso aqui do que em reuniões importantes — comentou ela. — Porque isso importa mais — respondeu, simples. Ela não respondeu, mas sentiu algo aquecer por dentro. — E o sorvete? — lembrou ela. — Quase esqueço — disse ele, fingindo gravidade. — Isso seria imperdoável. Pararam em uma sorveteria pequena, discreta, com mesas do lado de fora. Olyver ajudou Alice a se sentar, puxando a cadeira com cuidado excessivo, o que arrancou dela um sorriso divertido. — Você pode relaxar um pouco — disse ela. — Eu não vou quebrar. — Prefiro não testar — respondeu ele. Alice pediu sorvete de creme com morango. Olyver, depois de pensar por alguns segundos, pediu o mesmo. — Não vai escolher algo diferente? — ela perguntou. — Hoje não — respondeu. — Se você gosta, deve ser bom. Quando os sorvetes chegaram, Alice deu a primeira colherada devagar. Fechou os olhos por um instante. — Isso está perfeito — disse. — Acho que o bebê aprovou. Olyver sorriu, observando-a. — Então fico feliz — respondeu. — Se ele está bem, você está bem. Ela o olhou por cima da colher. — Você fala como se já conhecesse nosso filho. — Eu sinto que conheço — disse ele, honesto. — Mesmo sem saber nada ainda. Alice ficou em silêncio por alguns segundos, saboreando o sorvete e as palavras. — Obrigada por hoje — disse, de repente. — Pelo sorvete? — ele brincou. — Por tudo — corrigiu ela. Olyver segurou a colher entre os dedos, pensativo. — Eu não sei fazer isso perfeitamente — disse. — Mas eu estou tentando estar presente. De verdade. — Eu sei — respondeu ela. — Dá pra sentir. O sorvete foi terminando aos poucos, sem pressa. Pessoas passavam pela calçada, conversas misturavam-se ao som distante da cidade. Alice se sentia estranhamente leve, como se aquela simplicidade tivesse reorganizado algo dentro dela. Quando se levantaram para ir embora, Olyver segurou a mão dela automaticamente. Alice percebeu o gesto… e não soltou. — Vamos para casa — disse ela. — Vamos — respondeu ele. No caminho de volta, Alice encostou a cabeça no ombro dele por alguns segundos, apenas para descansar. Olyver permaneceu imóvel, respeitando, sentindo aquele pequeno gesto como algo enorme. Não era sobre sorvete. Era sobre escolher estar junto nas coisas simples. E, naquele momento, Alice tinha escolhido. E Olyver soube, com uma clareza silenciosa, que aqueles instantes comuns — uma farmácia, uma sorveteria, uma mão segurando a outra — eram os que mais importavam. Porque era ali, no cotidiano sem luxo, que algo real estava sendo construído.
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